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Capítulo 1 — Luto
Narrador:
A igreja estava tomada por um silêncio solene que perfurava os ouvidos de Luigi. Lá estava ele, no altar, vestido com um smoking impecável que lhe caía como uma armadura. Não porque quisesse parecer perfeito, mas porque tudo isso era uma guerra disfarçada de cerimônia. Ao seu lado, como se fosse sua sombra, Lorena Mansini, esposa de Franco, atuava como madrinha e carrasca ao mesmo tempo: ajeitava o laço, retocava o cabelo com dedos firmes, alisava a lapela do paletó. Era como se quisesse que ninguém percebesse o mais óbvio: que Luigi parecia um condenado à beira da execução. Ele não queria estar ali. Sua garganta ardia com o gosto metálico da traição, porque seu coração, como um animal enjaulado, continuava batendo por Sofia Adler, a mulher que agora pertencia a Renzo Santini. O amor impossível, proibido, enterrado sob uma aliança de aço que ele nunca havia pedido. Tudo isso o sufocava. O suor escorria pelas suas costas, não pelo calor, mas pelo desejo de sair correndo e nunca mais voltar. O murmúrio das pessoas se extinguiu quando as portas da igreja se abriram com um rangido que soou como uma sentença. Ela apareceu, Valéria Paz, a noiva, de mãos dadas com seu pai. Vestido branco, imaculado, perfeito. Um quadro digno de qualquer altar. Ela caminhava com o queixo erguido, os olhos fixos à frente, como se estivesse desfilando em direção ao seu próprio túmulo. Cada passo ressoava como um golpe de martelo. Quando chegaram ao altar, o velho chefe a entregou com um gesto solene. Mas a jovem, em vez de estender a mão para Luigi, virou-se para Lorena e lhe entregou o buquê.
—Segure-o, por favor, madrinha.
Lorena, surpresa, pegou-o sem entender o que estava acontecendo e, assim que o segurou, a noiva deu um puxão para trás e desabotoou o vestido com uma rapidez brutal.
O murmúrio se transformou em um suspiro coletivo. O vestido de noiva caiu no chão como uma pele morta e ela ficou exposta com um conjunto preto, justo e escuro como a própria noite.
Top e calças, uma provocação feita de tecido. A dignidade branca havia evaporado, deixando em seu lugar um desafio que cheirava a pólvora.
— Todos já me viram como eu deveria ser. Agora vocês vão me ver como eu realmente sou.
O silêncio era absoluto. Até os candelabros pareciam conter a respiração. Luigi olhou para ela, paralisado, incapaz de reagir. Isso não estava no roteiro. Ele havia ensaiado a frieza, havia engolido o veneno de seu dever, mas isso... isso era dinamite pura.
A garota pegou o buquê da mão de Lorena com um gesto tranquilo, como se nada tivesse acontecido. Então ela se virou para Luigi e, desta vez, pegou sua mão.
—Agora sim, querido noivo. Podemos começar a viver o início da minha morte.
O eco dessas palavras ficou suspenso na igreja como um tiro que nunca se apaga. A multidão não sabia se aplaudia, gritava ou saía correndo. Luigi, por outro lado, só sabia que acabara de se casar não com uma mulher inocente, mas com um enigma envolto em luto. E enquanto sentia a pressão de sua mão firme, uma certeza penetrou em seus ossos: esse casamento não seria uma gaiola, seria um campo de batalha.
O sorriso torto dela confirmava isso. O inferno acabara de abrir suas portas. E Luigi estava na primeira fila, com o anel na mão.
Ernesto Paz avançou com passos firmes, o rosto avermelhado pela humilhação que sentia ao ver sua filha se despojar da pureza que ele havia mandado confeccionar sob medida. A multidão ainda estava em choque, mas sua voz ressoou como um trovão na igreja.
—Mas o que você pensa que está fazendo, sua menina tola?
Ele estendeu a mão bruscamente para segurar seu braço, como se com um simples puxão pudesse colocá-la de volta no vestido que já jazia como um cadáver branco no chão. A força do costume estava naquele gesto: toda a vida ele havia controlado territórios, homens, negócios... e também sua filha.
Mas desta vez não foi ela quem se soltou.
Foi Luigi quem deu um passo à frente e, com um movimento seco, deteve a mão do velho antes que ele a tocasse.
— Tire as mãos da minha futura esposa.
O silêncio ficou ainda mais denso, se é que isso era possível. O velho olhou para ele, incrédulo, como se aquele homem que até pouco tempo atrás era um completo desconhecido tivesse assumido o controle até mesmo do ar.
Os convidados prenderam a respiração, sabendo que aquele momento poderia terminar em uma explosão de violência. Valeria, a noiva, abriu os olhos surpresa. Nunca ninguém havia se interposto entre ela e a autoridade do pai. E, no entanto, lá estava Luigi, um desconhecido prestes a se tornar seu marido, colocando-se entre ela e o homem que a governara toda a vida. Por um instante, seu orgulho e sua rebeldia se suavizaram. Ela mal inclinou a boca em um sorriso torto que destilava cumplicidade. Luigi sentiu aquele olhar como um ferro em brasa sobre a pele. Não era ternura, não era gratidão: era um reconhecimento silencioso de que, a partir de agora, eles estavam do mesmo lado, mesmo que fosse contra sua vontade. Fez um gesto quase imperceptível, uma careta que poderia passar por um sorriso, mas que estava carregada de ironia e resignação. Sem pressa, tirou o casaco e o deixou cair sobre uma cadeira próxima. Com mãos firmes, afrouxou o laço até tirá-lo completamente e abriu dois botões da camisa, deixando que o ar fresco acariciasse seu pescoço.
Em seguida, arregaçou as mangas até a metade do braço, como quem se prepara para sujar as mãos em algo inevitável.
Ele se virou lentamente para o padre, que não sabia se continuava segurando o missal ou saía correndo, e sua voz grave ressoou com um cinismo gélido.
—Agora sim, padre... vamos começar com a sentença.
O murmúrio percorreu a igreja como um vento gelado. Alguns convidados empalideceram, outros apertaram os lábios com um sorriso nervoso, fascinados pelo espetáculo. Lorena Mansini, de seu lugar, observava a cena com os olhos brilhantes, orgulhosa daquele homem que acabara de assumir o controle de um cenário que se tornara um circo.
A noiva apertou novamente o buquê contra o peito. Seu sorriso era pura dinamite.
O velho, derrotado pelo olhar implacável de Luigi, não teve outra escolha a não ser recuar um passo. E nesse recuo, embora ninguém dissesse nada, todos entenderam a verdade: o império do norte acabara de mudar de mãos.
A cerimônia continuou, mas nada mais tinha o sabor de um casamento abençoado.
Era exatamente o que Luigi havia dito: uma sentença.
E enquanto o padre, trêmulo, retomava suas falas ensaiadas, Luigi segurou a mão dela com força. Sentiu a pele quente, a tensão, a rebeldia contida. Sabia que aquela mulher seria uma guerra constante e que não havia volta.
O inferno não começaria amanhã. O inferno havia começado ali, diante do altar.






