Mundo de ficçãoIniciar sessão
O despertador tocou às cinco e quarenta da manhã, mas Helena Duarte já estava acordada havia alguns minutos, deitada de olhos abertos enquanto observava o teto branco do pequeno apartamento onde morava com a mãe, permitindo que seus pensamentos corressem livres antes que o peso da rotina voltasse a dominar cada minuto de seu dia.
Ela raramente dormia profundamente.
Anos de estudo, trabalho incessante e uma determinação que beirava a obsessão haviam moldado sua disciplina, transformando cada manhã em um ritual quase automático, no qual ela se levantava ainda no silêncio da madrugada, prendia os longos cabelos escuros em um coque firme e caminhava até a pequena cozinha enquanto a cidade ainda despertava lentamente do lado de fora da janela.
A primeira coisa sempre era o café.
Enquanto a cafeteira começava a trabalhar, espalhando pelo ambiente o aroma forte e familiar que a acompanhava desde os tempos da faculdade, Helena abriu o notebook sobre a mesa e voltou a analisar os gráficos financeiros que vinha estudando na noite anterior, seus olhos atentos percorrendo linhas, números e projeções com uma facilidade impressionante, como se aquela linguagem complexa fosse simplesmente uma extensão natural de seus pensamentos.
Foi então que ouviu passos suaves atrás dela.
— Você vai acabar ficando cega olhando para essa tela antes mesmo dos trinta — murmurou uma voz cansada.
Helena levantou o olhar.
Sua mãe estava parada no corredor que ligava os quartos à cozinha, usando um robe azul já gasto pelo tempo, com os cabelos ainda bagunçados e o olhar carregado de uma preocupação silenciosa que Helena conhecia bem demais.
— Bom dia para você também, mãe — respondeu Helena, esboçando um sorriso leve.
A mulher cruzou os braços.
— Isso não é vida, Helena… acordar antes do sol todos os dias, trabalhar até tarde, viver cercada de números como se eles fossem mais importantes do que qualquer outra coisa.
Helena fechou lentamente o notebook.
Ela sabia que aquela conversa não era nova.
Desde a morte do pai, sua mãe sempre temeu que Helena estivesse sacrificando a própria felicidade em troca de um futuro que talvez nunca chegasse.
Mas Helena também sabia algo que sua mãe não compreendia completamente.
Aquilo não era apenas ambição.
Era algo muito mais profundo.
— Hoje é um dia importante — disse Helena finalmente, levando a xícara de café até os lábios.
— Importante como?
Helena respirou fundo, sentindo o gosto amargo do café se misturar ao peso das lembranças que carregava havia tantos anos.
— Porque hoje… eu finalmente vou entrar no império deles.
Sua mãe franziu a testa.
— Império de quem?
Helena virou o notebook lentamente, revelando na tela o nome de uma das maiores corporações do país.
Grupo Vasconcellos.
E naquele instante, enquanto o nome brilhava na tela iluminada, Helena sentiu novamente a mesma promessa silenciosa que havia feito a si mesma muitos anos atrás.
Um dia ela chegaria perto o suficiente para destruir tudo aquilo.
O silêncio que se seguiu na cozinha não era apenas o silêncio de uma manhã comum, mas sim o silêncio pesado das memórias que nunca haviam sido totalmente superadas, porque tanto Helena quanto sua mãe sabiam exatamente o que aquele nome representava.
Metalúrgica Vasconcellos.
Foi ali que tudo começou.
Helena ainda se lembrava com uma clareza dolorosa de como seu pai costumava chegar em casa no fim da tarde, os braços cobertos por pequenas manchas de graxa e o uniforme azul da fábrica marcado pelo trabalho pesado, mas sempre com um sorriso cansado no rosto, como se cada dia de esforço valesse a pena simplesmente por poder voltar para casa.
Ele costumava levantar Helena nos braços quando ela ainda era pequena, girando-a pela sala enquanto dizia que um dia ela seria uma mulher inteligente, forte e independente, muito diferente dele, que havia passado a vida inteira dentro de uma fábrica.
— Você vai estudar — ele dizia com orgulho. — Vai trabalhar com a cabeça, não com as mãos.
Helena sempre acreditou nele.
Até o dia em que o telefone tocou.
Ela tinha dezessete anos.
Lembrava-se perfeitamente da expressão no rosto da mãe enquanto atendia aquela ligação, lembrava-se do silêncio que tomou conta da casa e da maneira como o mundo parecia ter parado quando as palavras finalmente foram ditas.
Houve um acidente na metalúrgica.
Uma falha estrutural. Uma explosão em uma das linhas de produção. Três homens morreram. Entre eles, seu pai. Depois disso vieram os relatórios. As notícias. As promessas de investigação. Mas nada realmente mudou. A empresa continuou funcionando. Os executivos continuaram enriquecendo. E o nome Vasconcellos continuou aparecendo nas capas das revistas econômicas como símbolo de sucesso e poder.
Helena fechou o notebook com mais força do que pretendia.
— Você ainda pensa nisso todos os dias, não pensa? — perguntou sua mãe suavemente.
Helena ficou em silêncio por alguns segundos antes de responder.
— Não é sobre pensar — disse ela finalmente.
— Então é sobre o quê?
Helena ergueu os olhos.
E naquele momento havia algo em seu olhar que fazia lembrar muito o mesmo tipo de determinação que seu pai costumava demonstrar quando falava sobre o futuro dela.
— É sobre não esquecer.
Sua mãe suspirou, caminhando até a mesa para se sentar diante dela.
— Helena… vingança não traz ninguém de volta.
Helena sabia disso.
Sempre soube.
Mas também sabia outra coisa.
O mundo raramente era justo.
E as pessoas que tinham poder quase nunca enfrentavam as consequências de suas decisões.
— Talvez não traga — respondeu Helena calmamente. — Mas às vezes é a única maneira de fazer justiça.
Sua mãe balançou a cabeça, como se quisesse argumentar, mas também soubesse que aquela conversa já havia acontecido muitas vezes antes.
Helena levantou-se da cadeira, pegando a bolsa que havia deixado sobre a mesa na noite anterior.
— Você vai trabalhar para eles agora? — perguntou a mãe, com uma mistura de preocupação e incredulidade.
Helena sorriu levemente.
— Não exatamente.
— Então para quem?
Helena caminhou até a porta do apartamento antes de responder.
— Para mim mesma.
Antes de sair, porém, ela voltou o olhar mais uma vez para a tela do notebook, onde o nome do conglomerado ainda estava visível no relatório financeiro que havia passado meses estudando.
Grupo Vasconcellos.
Um império construído sobre dinheiro, poder e decisões tomadas em salas de reunião onde pessoas como seu pai nunca tiveram voz.
Mas Helena agora tinha.
E estava prestes a entrar naquele mundo não como uma vítima, nem como uma funcionária comum, mas como alguém que entendia perfeitamente como sistemas de poder funcionavam.
Porque Helena Duarte havia passado anos estudando exatamente isso.
Empresas. Mercados. Falências. Aquisições.
Ela sabia como um império podia crescer. Mas também sabia como um império podia cair. E se tudo saísse como ela havia planejado… Leonardo Vasconcellos nunca veria o golpe chegar.
Helena abriu a porta do apartamento e saiu para o corredor silencioso do prédio.
A cidade ainda estava despertando.
Mas para ela, aquela manhã não era apenas o começo de mais um dia.
Era o começo de algo muito maior.
O começo de um plano que havia levado anos para ser construído.
E que finalmente estava prestes a começar.







