O baile benificiente

Helena Duarte observava o próprio reflexo no espelho do quarto enquanto passava lentamente o batom vermelho sobre os lábios, mantendo a mão firme como se aquele simples gesto fosse parte de um ritual cuidadosamente planejado, algo que vinha ensaiando em sua mente desde o momento em que soubera que o Grupo Vasconcelos realizaria naquele final de semana o tradicional baile beneficente que reunia empresários, investidores, executivos e membros da elite financeira da cidade.

Durante os últimos dias, tudo havia acontecido exatamente como ela esperava.

Seu desempenho dentro da empresa tinha sido impecável, quase cirúrgico, e cada relatório apresentado, cada reunião conduzida e cada decisão estratégica tomada havia feito com que seu nome começasse a circular pelos corredores do prédio corporativo com um misto de admiração e curiosidade, como se todos estivessem tentando compreender de onde havia surgido aquela mulher jovem, elegante e absurdamente competente que parecia compreender os mecanismos internos do grupo com uma facilidade quase desconcertante.

Ela sabia o que estavam dizendo.

Sabia que muitos executivos se perguntavam se Leonard Vasconcelos havia cometido um erro ao permitir que alguém tão ousado se aproximasse tanto do núcleo estratégico da empresa.

E isso apenas a fazia sorrir.

Porque, no fundo, Helena sabia que cada passo que dava era apenas mais uma peça sendo movida no tabuleiro.

Uma peça que, lentamente, começava a cercar o rei.

Ela inclinou ligeiramente o rosto enquanto observava o vestido que usava.

O tecido vermelho escarlate descia pelo seu corpo como se tivesse sido moldado diretamente sobre suas curvas, ajustando-se à cintura e aos quadris antes de cair em uma cauda elegante que deslizava até o chão com a fluidez de uma silhueta de sereia, enquanto o decote suave deixava os ombros e parte do colo expostos de maneira sofisticada, e as costas completamente nuas transformavam cada movimento seu em algo quase hipnótico.

Era um vestido elegante. Mas também era perigoso. Exatamente como ela precisava que fosse.

Seus cabelos escuros estavam presos em um coque alto e refinado que revelava a linha do pescoço, e ao redor dele repousava um colar dourado simples, delicado, ajustado quase como uma gargantilha, uma peça antiga que brilhava discretamente sob a luz do quarto.

Helena tocou o colar com os dedos.

A lembrança do pai atravessou sua mente como uma brisa silenciosa.

Ele havia lhe dado aquele colar muitos anos antes, em um aniversário simples que haviam celebrado juntos, e mesmo depois de tanto tempo ela ainda conseguia ouvir a voz dele dizendo que aquela peça combinava com a força que ele via nela.

Ela havia mandado aumentar o colar anos depois, porque quando cresceu ele passou a ficar apertado demais, mas ainda assim mantinha a peça próxima ao pescoço, como se fosse um pequeno amuleto que a lembrava constantemente do que havia perdido.

E do que precisava fazer. Helena respirou fundo.

— Não foi por você que eu fiz tudo isso… — murmurou baixinho para o reflexo, a mente dela inisstia em lançar imagens dela e de Leonardo, proximos, juntos. Ela fazia questão de negar o que a mente lançava.

Mas a frase soou falsa até mesmo para seus próprios ouvidos. Ela virou o rosto, afastando o pensamento.

Na cozinha, a panela ainda estava quente sobre o fogão quando ela terminou de organizar o jantar que havia preparado para a mãe, deixando tudo arrumado sobre a mesa com o cuidado de quem sabia que provavelmente não estaria em casa quando a noite terminasse.

Sua mãe apareceu na porta da cozinha alguns minutos depois, observando-a com uma expressão misturada de surpresa e orgulho.

— Você está linda… — disse suavemente.

Helena pegou a bolsa.

— É apenas um evento da empresa, mas obrigada mãe, te amo.

— Eventos da empresa normalmente não fazem você se vestir assim.

Helena sorriu levemente, mas não respondeu.

Ela apenas caminhou até a mãe e beijou sua testa com carinho.

— Vou chegar tarde.

A mulher a observou por um instante.

— Tarde quanto?

Helena abriu a porta.

— Talvez… muito tarde.

Ou talvez nem voltasse para casa. Porque aquela noite não era apenas um evento social. Era mais um movimento dentro do seu plano. E naquela noite ela pretendia se aproximar ainda mais de Leonard Vasconcelos. Ela queria vê-lo cair. Queria vê-lo perder tudo. Queria assistir ao império dele desmoronar exatamente como o mundo dela havia desmoronado anos atrás.

O teatro escolhido para sediar o baile beneficente havia sido transformado em um salão luxuoso, iluminado por lustres gigantes que lançavam reflexos dourados sobre as mesas elegantes, enquanto garçons circulavam silenciosamente oferecendo taças de vinho e champagne aos convidados que conversavam em pequenos grupos espalhados pelo ambiente.

Empresários importantes. Investidores. CEOs. Diretores. Quase todos ligados, direta ou indiretamente, ao império Vasconcelos. Helena entrou no salão com passos tranquilos, mantendo a postura elegante enquanto observava o ambiente com a mesma atenção analítica que utilizava ao examinar relatórios financeiros. Ela cumprimentava pessoas. Conversava. Sorria. Respondia perguntas.

E, pouco a pouco, ia conquistando espaço nas rodas de conversa que normalmente eram dominadas por executivos muito mais velhos e experientes do que ela.

— Senhorita Duarte, ouvi falar bastante sobre você esta semana — disse um dos diretores financeiros do grupo enquanto erguia a taça em sua direção.

— Espero que tenham falado bem — respondeu Helena com um sorriso tranquilo.

— Disseram que você conseguiu identificar uma inconsistência em um relatório de investimentos que ninguém havia percebido.

— Eu apenas fiz meu trabalho.

— Modéstia é uma qualidade rara no nosso setor.

Helena inclinou levemente a cabeça.

— Eu prefiro eficiência à modéstia.

Alguns homens riram. A conversa continuou.

Mas naquele mesmo momento, do outro lado do salão, Leonard Vasconcelos havia acabado de chegar. E quando seus olhos percorreram o ambiente, procurando rostos conhecidos entre os convidados, algo chamou sua atenção de maneira quase imediata. Uma figura vermelha entre o mar de ternos escuros e vestidos discretos. E quando percebeu…

Ele simplesmente não conseguiu desviar o olhar. Ela estava de costas naquele momento, conversando com dois executivos enquanto gesticulava suavemente com a taça de vinho na mão, e o vestido vermelho destacava cada linha do seu corpo de maneira elegante e provocante ao mesmo tempo, como se cada movimento dela tivesse sido cuidadosamente ensaiado para provocar uma reação.

Leonard sentiu o maxilar endurecer e seu corpo reagir a presença dela. Ele sabia exatamente o que estava fazendo. E mesmo assim… Ele começou a caminhar em direção a ela.

Quando Helena finalmente virou o rosto e percebeu a presença dele, seus olhos encontraram os dele com uma calma quase irritante.

— Senhor Vasconcelos — disse ela suavemente mas com um brilho de provocação em seu olhar, algo que o atiçou.

— Senhorita Duarte - Ele profere o nome dela quase como uma melodia que não sai de sua cabeça.

Os dois executivos que estavam conversando com ela perceberam imediatamente a tensão silenciosa que parecia existir entre os dois.

— Bem… vamos deixar vocês conversarem — disse um deles, afastando-se discretamente.

E então ficaram sozinhos. Leonard a observou por um instante longo demais.

— Você está chamando muita atenção esta noite.

Helena inclinou ligeiramente a cabeça.

— Isso é um problema? Está com ciúme? - Ela lança um olhar intenso e divertino para ele, seus olhos fixam se um ao outro.

— Depende da intenção.

Ela deu um pequeno gole no vinho, provocando ele ao roçar o labio vermelho na taça.

— Às vezes a intenção é simplesmente… existir.

Leonard soltou uma pequena risada seca, mas intenso atiçado, ele se segurava perto dela.

— Não. Você não é o tipo de pessoa que faz algo “simplesmente”.

Os olhos dela brilharam levemente e um sorriso travesso desenha se em seu rosto.

— E o senhor é o tipo de homem que gosta de entender tudo ao redor… até mesmo aquilo que talvez fosse melhor deixar em paz.

— Especialmente isso.

Helena deu um passo mais perto dele, os dedos dele tocam de leve o braço dela de forma discreta acaricia de leve seu antebraço.

O perfume dela era suave, mas intenso o suficiente para que Leonard percebesse imediatamente.

— Então me diga… — disse ela baixinho — já conseguiu me entender?

Leonard manteve o olhar firme.

— Ainda estou tentando decidir se você é extremamente talentosa…

Ele inclinou o rosto um pouco mais perto, ela humidece os proprios labios vermelhos.

— …ou extremamente perigosa.

Helena sorriu.

— Talvez eu seja os dois - Ela o provoca.

O silêncio que surgiu entre eles não era confortável.

Era carregado. Pesado.E, estranhamente… elétrico, sensual e sexual.

Leonard desviou os olhos por um segundo, como se estivesse lutando contra algo dentro de si, seus dedos ainda a acariciavam ele percebe a ação de sua mão e para, quase que percebendo que seu corpo falava por si só, ele tenta respirar quando voltou a olhar para ela havia algo diferente em sua expressão. Algo mais sombrio.

— Você gosta de provocar — disse ele.

— Só quando vale a pena.

— E vale a pena?

Helena manteve o olhar preso ao dele por alguns segundos longos demais, morde de leve os proprios labios o atiçando ela sabia o que estava causando nele.

— Ainda estou avaliando.

Leonard apertou a mandíbula.

Porque naquele instante ele percebeu algo que o incomodou profundamente. Ele a queria.Queria puxá-la pela cintura.  Queria encostá-la contra a parede mais próxima.Queria descobrir se aquela confiança provocadora desapareceria quando ela estivesse sem espaço para recuar. Mas Leonard Vasconcelos não era um homem que perdia o controle.

Especialmente não em público. Especialmente não com uma mulher que claramente estava jogando algum tipo de jogo. Então ele respirou fundo. E se afastou meio passo.

— Aproveite a noite, senhorita Duarte.

Helena ergueu uma sobrancelha.

— Está fugindo?

Ele a encarou novamente.

— Estou sendo prudente.

Ela sorriu. E naquele sorriso havia algo que parecia dizer que aquela noite estava apenas começando.

E que o jogo entre os dois… também. Ele demorou alguns segundos para perceber que era Helena.

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