Mundo de ficçãoIniciar sessãoFinalmente, ele me conduz a outro quarto. Sinto um alívio imenso. Três quartos! E este, estrategicamente perto do de Leo, será o meu refúgio. É um pensamento reconfortante em meio à tempestade. Não quero, e não terei, nenhuma intimidade com ele. Não tenho o menor desejo de compartilhar nada além das responsabilidades com o menino. Esta casa, por mais bela que seja, é apenas o cenário frio de um acordo silencioso entre dois adultos que tentam, cada um à sua maneira torta, fazer o melhor para uma criança órfã.
A porta se abre para revelar um espaço menor, mas extremamente acolhedor, com as paredes pintadas de um azul suave que acalma a vista. Ele se afasta, permitindo que eu explore meu território. Observo cada detalhe: a cama de casal no centro, uma escrivaninha simples de madeira clara e uma estante ainda vazia, esperando para ser preenchida com meus livros e as memórias que eu ainda não sei se quero construir.
Átila permanece ao meu lado em um silêncio respeitoso, observando minha reação. Ele não tenta me convencer de nada, respeitando o meu espaço de uma forma que eu não esperava. Sei que ele também está lidando com a complexidade absurda da nossa situação. Somos estranhos em um casamento de fachada, unidos por uma aliança forçada pelas circunstâncias e pelo sangue de terceiros.
Há um banheiro privativo também, com um balcão generoso de mármore e até uma banheira que parece convidativa. Quando saio do banheiro, ele faz um gesto em direção à porta, indicando que a visita ainda não terminou. Sigo-o, sentindo o peso de cada nova descoberta.
Ele abre a porta de um escritório pequeno, mas maravilhosamente bem iluminado, com uma escrivaninha de madeira maciça e estantes que já começam a ser preenchidas.
— Se você quiser algum livro para ler, aqui tem um pouco de tudo — ele comenta, tentando parecer atencioso, quase tímido. — Romance, suspense, ciências, religião... sinta-se à vontade.
Assinto com um movimento de cabeça, sem palavras. A casa é grande, bonita e funcional, mas a sensação de um vazio abissal persiste em cada canto. Cada cômodo novo é apenas mais um lembrete da nossa situação: um casamento sem base, sem amor, construído sobre a necessidade e o dever. No entanto, ao olhar novamente para o quarto do meu filho, faço uma promessa silenciosa a mim mesma: vou transformar este lugar em um lar seguro para ele, custe o que custar.
Átila me leva então ao jardim. É um espaço florido, com um gramado verde impecável e uma piscina que brilha sob a iluminação artificial.
— Fui criado pelo meu tio em um quarto de hotel de luxo, impessoal e frio — ele comenta, e há uma nota de melancolia em sua voz. — Eu sentia muita falta disso tudo. De ter um chão que fosse realmente meu.
As palavras dele, em vez de me comoverem, incitam a raiva que guardo no peito.
— É, não me admiro que ele tenha te criado assim — rebato, a voz carregada de sarcasmo. — Devia ser muito mais fácil para ele te manipular e te moldar mantendo você confinado em seu império hoteleiro. Foi exatamente isso que ele fez agora, não foi? Te obrigando a se casar comigo para manter o controle?
Átila para e se vira para mim, e o brilho em seus olhos cinzentos é de uma veemência que me faz recuar um passo.
— Eu nunca me deixei manipular por ninguém, Sasha. Nem pelo meu tio, nem por ninguém. A decisão de me casar foi inteiramente minha. Eu fiz isso pelo menino, porque eu me enxerguei nele. Eu também perdi meus pais muito cedo e sei o que é ser um órfão à mercê da vontade dos outros. E para o seu governo — ele continua, a voz agora firme e orgulhosa —, esta casa não é um presente do meu tio. Ela é minha. Fruto do meu próprio trabalho, do meu esforço na agência. E eu ainda tenho muitas prestações para finalizar antes que ela seja realmente minha.
A intensidade do seu olhar me faz hesitar. Há uma sinceridade crua e um orgulho ferido em suas palavras que eu não esperava encontrar. Ele está tentando me convencer de que não é apenas mais um fantoche dos Lykaios, e por um momento, a dúvida se instala em minha mente.
Retiro meus olhos dos dele com dificuldade e volto a observar a propriedade, agora com outros olhos. Escuto o som dele soltando o ar dos pulmões, um suspiro de frustração contida.
— Você quer comer alguma coisa? — Átila pergunta, mudando de assunto com uma gentileza que me desarma. — Percebi que você quase não tocou na comida durante a festa.
Theós! Por que raios ele precisa ser tão atencioso agora? Essa é a pergunta que ecoa em minha mente enquanto tento formular uma resposta que não soe como uma rendição. A batalha está apenas começando.







