O salão parece subitamente pequeno demais para a carga elétrica que flutua entre nós. Olho para Sasha, tentando encontrar uma fresta em sua armadura de gelo.
— Sasha, eu entendo perfeitamente a sua raiva e a profundidade da sua dor — começo, escolhendo cada palavra com a precisão de um cirurgião, sabendo que qualquer deslize pode ser fatal. — E você tem todo o direito, legítimo e inquestionável, de se sentir assim. O que aconteceu com sua irmã foi uma tragédia que nunca deveria ter ocorrido, uma mancha que nada do que eu diga ou faça poderá apagar. Mas eu preciso que você entenda uma coisa: eu não sou o Ícaro. E, pelos deuses, eu não sou o Petros.
Ela me encara de volta, e seus olhos verdes brilham com uma mistura tóxica de desconfiança e uma amargura que parece ter se enraizado em sua alma.
— Palavras são fáceis, Átila. São baratas e se quebram ao primeiro toque — ela rebate, a voz cortante como uma lâmina. — Mas ações... ações falam tão alto que ensurdecem. Até agora, tudo o que a sua família demonstrou foi uma capacidade infinita de destruição, dor e uma manipulação nojenta. Eu não vou perdoar vocês facilmente, nem hoje, nem nunca. Vocês todos têm um coração negro como piche, incapaz de sentir qualquer coisa que não seja ganância.
Antes que eu possa formular uma resposta, Sasha arranca Leo dos meus braços com uma firmeza e uma pressa que revelam a intensidade do asco que sente ao me ver tocando o menino. Ela se afasta bruscamente, levando nosso filho consigo como se estivesse protegendo-o de uma contaminação, e caminha sem olhar para trás uma única vez. Fico ali, plantado no meio do salão, enquanto a vejo desaparecer na direção da mãe dela. A frieza que ela deixou no ar é quase física, um vácuo de ressentimento que me faz estremecer.
Respiro fundo, fechando os olhos por um segundo para tentar acalmar o turbilhão de emoções — raiva, culpa, determinação — que ruge dentro de mim. Cada palavra que ela cuspiu ressoa em minha mente como um golpe de marreta em um muro de concreto. Eu sabia, desde o momento em que assinei aquele contrato, que conquistar essa mulher não seria uma tarefa simples, mas a dureza absoluta em sua voz deixa claro que esta batalha será muito mais longa, árdua e sangrenta do que eu ousei imaginar.
Decido que não vou deixá-la fugir assim, não com a última palavra sendo carregada de tanto ódio. Vou atrás dela, caminhando com passos calculados e firmes, minha mente girando com o peso da responsabilidade que agora esmaga meus ombros. A dor de Sasha é um lembrete constante e cruel do que a família dela perdeu, e de que eu sou o único elo que pode, talvez, restaurar algo que se assemelhe à justiça. Quero o melhor para esse menino. Quero dar a ele a base sólida que eu tive por um breve momento, quando meus pais ainda eram vivos. Eles foram meu único exemplo de perseverança e amor verdadeiro, antes que o mundo desabasse sobre mim.
— Sasha, por favor, espere um momento — chamo, e minha voz soa mais urgente, mais necessitada do que eu pretendia mostrar.
Ela para abruptamente, mas não se vira. Permanece de costas, uma estátua de seda branca. Fico a alguns passos de distância, respeitando o espaço vital que ela claramente deseja manter entre nós, como se eu fosse um predador à espreita.