Mundo de ficçãoIniciar sessãoEla me encara com firmeza, segurando meus ombros para tentar me ancorar, mas meu coração ainda está acelerado, batendo como um pássaro engaiolado. As palavras daquelas mulheres, as minhas próprias incertezas, tudo parece conspirar para me fazer odiá-lo ainda mais, como uma forma de autodefesa.
— E pelo amor de Theós, Sasha, tente parecer minimamente feliz para as fotos. Desfaça essa cara amarrada, você parece que está em um velório.
— Por que? É minha assessora de imagem agora? Quer que eu use um sorriso de plástico igual ao seu?
— Filha, olhe para ele. Átila é um homem lindíssimo. Um verdadeiro deus grego que parece ter saído de uma escultura de mármore. Não percebe a sorte monumental que teve? Eu nunca pensei que conseguiríamos casá-la com uma família de tanto prestígio e riqueza como os Lykaios! — minha mãe diz, com um olhar sonhador e ganancioso que me dá nojo.
— Bonito ou não, eu odeio essa família com cada célula do meu corpo — respondo, retirando Leonardo dos braços dela com um movimento brusco. Estar com ele no colo é a única coisa que ajuda a aliviar um pouco a tensão insuportável da noite. Beijo sua cabecinha macia e sinto seu cheirinho delicioso de bebê, de talco e vida. Ele parece curioso, seus olhinhos brilhando com toda a agitação e as luzes ao redor.
— Sasha, você precisa dar a ele uma chance real. As pessoas mudam quando amam. Átila merece uma oportunidade de mostrar quem ele realmente é por trás dessa máscara. E seu pai e eu não queríamos te ferir, mas entenda: cuidar de uma criança sozinha, sem o apoio financeiro e social de um homem, sem ter um marido para te proteger... é algo que, para nós, simplesmente não tem cabimento. Seria a sua ruína.
— E por isso decidiram me jogar aos leões? Para salvar a reputação de vocês?
— Sasha! Você não vai conseguir fazer com que eu me sinta culpada por querer o seu bem e o do Leo. Ah... e Átila, seu esposo, está vindo para cá. Comporte-se.
Só de ouvir minha mãe mencionar o nome dele, sinto uma descarga elétrica. Meu coração acelera de novo, traindo minha mente. Esse órgão é tão idiota, tão fácil de ser enganado pela biologia...
Tento me preparar mentalmente para sua aproximação, endireitando a postura, mas não é fácil. A presença dele parece preencher todo o espaço ao meu redor, como se ele sugasse o oxigênio do salão, tornando difícil até o ato simples de respirar.
— Posso segurar o Leo? — ele pergunta, sua voz grave vibrando perto do meu ouvido, com aquele tom que revela sua habitual e irritante confiança.
Eu não respondo, mantenho o silêncio como um escudo, mas minha mãe, apressada em agradar, retira o menino dos meus braços com uma agilidade surpreendente e o entrega para ele.
— Claro, Átila! Afinal, você será o pai do Leo agora. É bom que vocês criem laços desde já.
Átila segura Leo com um cuidado extremo, quase reverente, como se tivesse medo de que o menino fosse feito de cristal e pudesse se quebrar em suas mãos grandes, apesar de ele já ter um ano e um mês e ser bem robusto. É um momento de uma tensão absurda, mas ao mesmo tempo, há uma ternura inesperada e desconcertante na maneira como ele olha para a criança. Leo o observa com olhos curiosos, sem chorar, e por um segundo eterno, parece que uma conexão invisível está sendo tecida entre eles. Minha mãe, percebendo o clima, se afasta discretamente e nos deixa a sós no meio da festa.
— Ele se parece muito com o Ícaro — Átila comenta, a voz baixa, quase um sussurro para si mesmo.
— É? Não sei dizer, não tive o desprazer de conhecê-lo — respondo, a acidez transbordando em cada palavra. — Mas uma coisa eu te garanto: farei de tudo, absolutamente tudo, para que ele não se torne um desgraçado egoísta como o pai dele foi.
Átila semicerra os olhos, analisando minhas palavras como se estivesse tentando ler as entrelinhas. Ele não parece ofendido, o que me irrita ainda mais.
— Ícaro foi uma vítima, Sasha. Uma vítima das circunstâncias sufocantes criadas pelo meu tio. Petros foi contra o namoro desde o primeiro dia, ele o pressionou até o limite.
— Se ele era um fraco que se deixava manipular, então que não tivesse a covardia de se envolver com a minha irmã! — rebato, sentindo as lágrimas de raiva arderem em meus olhos. — Elena merecia um homem de verdade, não um fantoche.
Ele olha para mim, e há algo profundo e sombrio em seus olhos que sugere que ele entende, talvez melhor do que eu, a profundidade do meu ressentimento. Leo geme em seus braços, inquieto com a nossa vibração negativa, e Átila o balança com uma suavidade surpreendente, tentando acalmar a criança. Em seguida, ele volta a me encarar.
— Sasha, eu sei perfeitamente que começamos isso de uma maneira... extremamente complicada e forçada... — Sua voz é firme, sem qualquer traço de vulnerabilidade, mas há uma sinceridade nova ali.
— Complicada? — Minha voz é um sussurro amargo, carregado de veneno. — Eu odeio a sua família e cada centímetro do que ela representa. Ícaro não foi homem suficiente para assumir sua responsabilidade, mesmo sabendo que a Elena não teria o apoio da minha família, que veria essa gravidez como uma desgraça social. Vocês, com a sua arrogância e o seu silêncio, mataram a minha irmã.
Átila respira fundo, mantendo o olhar fixo no meu, sem desviar por um segundo sequer. Sua expressão é séria, quase solene, mas vejo uma sombra de compreensão genuína em seus olhos cinzentos.
— Sasha, eu sei que não tenho o poder de mudar o passado, por mais que eu quisesse. Mas eu estou aqui agora. Eu assumi esse compromisso. E quero tentar fazer a coisa certa, por você e, principalmente, pelo Leo.
— A coisa certa? — Minha voz sai carregada de um ceticismo doloroso. — Algum de vocês sequer sabe o que é isso? Se soubessem, se tivessem um pingo de decência, a minha irmã estaria viva e o Leo teria uma mãe.
As palavras saem como um veneno destilado, cada sílaba carregada de uma dor que não cicatriza e de uma raiva que me mantém de pé. Átila se mantém firme diante do meu ataque, como uma rocha sendo açoitada pelas ondas, mas a tensão entre nós é tão palpável que sinto que poderíamos explodir a qualquer momento, bem ali, no meio da pista de dança. Estamos à beira de um abismo, e eu não sei se ele quer me empurrar ou me segurar. Pelos deuses, eu só quero que essa noite acabe.







