Mundo de ficçãoIniciar sessão— Ela é bem madura para a idade — ele retruca, como se isso justificasse o absurdo da situação.
— Eu tenho quase o dobro da idade dela! — a raiva começa a ferver dentro de mim. É uma afronta pessoal.
— Sim, Átila, eu sei — ele diz, a voz monótona, sem um pingo de empatia.
— Então por que eu? O senhor sempre me suportou, meu tio — pergunto, sentindo a frustração se transformar em desespero. — Por que não encontra outra pessoa para essa tarefa? Alguém mais jovem, por exemplo? Alguém que não seja eu, o eterno fracasso aos seus olhos?
Digo, lembrando-me de Ícaro, de como ele sempre foi o herdeiro perfeito, o filho modelo que nunca cometia erros. E aqui estou eu, um reflexo quebrado daquilo que se esperava de um Megalos. Petros quer que eu tome o lugar de Ícaro, que assuma uma responsabilidade que nunca imaginei ter, porque ele sempre me negou qualquer papel de importância na família. É uma ironia cruel.
— Porque você é o único que pode garantir que o legado de nossa família continue intacto — responde ele, a voz firme, cortante. — E porque você me deve isso. Esta é a sua chance de pagar a mão que te estendi, ainda que sua mãe tenha manchado o nome da nossa família com aquele cigano desgraçado.
As palavras de meu tio ecoam na minha mente, despertando uma mistura de ressentimento e tristeza. Ele sempre foi implacável quando se tratava do meu pai, e eu sabia exatamente por quê. Lembro-me de como minha mãe se apaixonou pelo meu pai, um homem de origem cigana, e como isso foi um escândalo para a família. Meu avô não entendeu e Petros, sendo o irmão mais velho e o guardião do legado familiar, também viu a união como uma traição imperdoável. Na visão dele, meu pai nunca seria digno da linhagem dos Papadakis Lykaios. Ele considerava os ciganos como oportunistas e sempre suspeitou que meu pai estivesse apenas atrás da riqueza e do prestígio da família. Crescendo, ouvi muitas histórias sobre como meu avô tentou impedir o casamento. Quando eu nasci, ele mal reconheceu minha existência. Para ele, eu era uma constante lembrança da "traição" de minha mãe e da "mancha" que meu pai representava. Porém, quando meus pais morreram em um acidente e com a morte de meu avô, Petros se viu na obrigação de me criar. Ele fez isso mais por dever, não por afeto. Sempre que podia, me lembrava da "dívida" que eu tinha com ele, pela educação e pelas oportunidades que ele me proporcionou. Essa dívida era uma corrente invisível que ele usava para me controlar, sempre me lembrando de que, na sua visão, minha própria existência era uma mácula no legado dos Papadakis Lykaios.
Agora, ele usa essa mesma dívida para me pressionar novamente. Sua insistência em manter o "legado da família" intacto é, na verdade, uma tentativa de purgar qualquer vestígio do que ele considera uma impureza trazida pelo meu pai. É uma vingança tardia.
— E se eu me recusar? — pergunto, desafiador, a voz carregada de um cansaço que me consome.
Petros me encara com uma expressão de aço, seus olhos frios e calculistas. — Se você se recusar, Átila, trairá não apenas sua família, mas também a memória de Ícaro e se condenará ao ostracismo. Nunca mais terá a chance de se redimir. Esta é sua oportunidade de remição. Não a desperdice. Se aceitar se casar com Sasha, quando eu morrer, passarei toda a minha herança a você e todo o domínio das empresas. Mas se não fizer isso, eu acabarei com sua raça, com sua carreira. Você só arrumará emprego de lavador de carros.







