Confronto e Conveniência

Petros

A tarde em Surrey estava tingida por um cinza melancólico, com nuvens pesadas que pareciam prontas para desabar a qualquer momento. Cheguei à mansão dos Demétrio sentindo o peso do mundo sobre meus ombros, uma ansiedade corrosiva que fazia meu peito arder. Fui recebido com uma cortesia impecável, mas gélida, pelo Sr. Angelos Ioannis Demétrio e sua esposa, Leila. O ambiente que me rodeava era de uma opulência absoluta, um luxo que não gritava, mas sussurrava poder e tradição em cada detalhe decorativo, em cada móvel de antiquário. Senti uma mistura desconcertante de respeito e uma apreensão que me subia pela garganta.

— Oh Theós! — pensei, enquanto meus olhos percorriam a sala. — Jamais, em minha mais profunda arrogância, imaginei que a garota que meu filho amava vinha de uma linhagem tão rica.

A verdade me atingiu como um soco no estômago. Elena nunca revelara sua origem a Ícaro, provavelmente esperando que ele a amasse pelo que ela era, e não pelo que possuía. Ela queria que ele lutasse por ela, que provasse seu valor, mas Ícaro... meu pobre e fraco Ícaro, entregou os pontos, esmagado pela minha própria intolerância. Saber que a culpa de tudo — da morte solitária daquela jovem, da autodestruição do meu único filho — repousava inteiramente sobre a minha cabeça era um fardo que eu não sabia se conseguiria carregar por muito mais tempo. Era uma herança de cinzas.

— Sr. Demétrio, Sra. Demétrio, agradeço profundamente por me receberem em sua casa — comecei, forçando uma compostura que eu estava longe de sentir. — Como devem imaginar, meu coração não conhece descanso. Não vejo a hora de conhecer meu neto, o único pedaço que me resta de Ícaro.

Angelos e Leila trocaram olhares rápidos, mas carregados de significados que eu ainda não conseguia decifrar, antes de me convidarem a sentar em uma poltrona de veludo que parecia me engolir. O silêncio que se seguiu foi interrompido pelo som de passos leves. Foi então que ela entrou na sala.

Uma jovem deslumbrante, de cabelos castanhos claros que caíam em ondas suaves e olhos verdes que faiscavam com uma inteligência afiada. Ela carregava o menino nos braços com uma naturalidade protetora. Aquela deveria ser Sasha, a irmã de Elena. No instante em que meus olhos pousaram no pequeno Leo, meu coração falhou uma batida. Era como ver um fantasma. Ele era a imagem esculpida de Ícaro quando bebê. Naquele momento, a dor dilacerante da perda misturou-se a uma ternura que eu acreditava ter morrido dentro de mim há décadas.

Sasha parou abruptamente, como se tivesse colidido com uma parede invisível. Seu olhar percorreu minhas roupas, meu rosto cansado, e se fixou em mim com uma intensidade perturbadora. Ela deu um passo instintivo para trás, apertando o menino contra o peito, os nós de seus dedos ficando brancos.

— Papas, quem é esse homem? — a pergunta saiu como um chicote, a voz tensa, vibrando com uma ira que ela não tentava esconder.

Angelos levantou-se prontamente, tentando agir como um amortecedor para a tensão que agora eletrificava o ar da sala.

— Sasha, acalme-se — disse ele, a voz calma, mas com aquele tom de autoridade que não admite réplicas. — Este é o pai de Ícaro, o senhor Petros Papadakis Lykaios. Ele veio de longe. Infelizmente, como já conversamos, Ícaro faleceu apenas um mês após a partida de sua irmã. Hoje, o Sr. Petros está aqui para conhecer o neto e levá-lo consigo para a Grécia.

Eu os vira por videochamada, e a postura de Angelos e Leila me dera a impressão de que eles facilitariam o processo, ansiosos por se livrar do que consideravam uma "mancha" na reputação da família. Mas Sasha... Sasha era uma força da natureza. O olhar de puro ódio e revolta que ela lançou ao próprio pai me disse que a batalha seria muito mais difícil do que eu antecipara.

— Papas! — ela gritou, a voz embargada. — Esse homem não tem o direito! Ele não tem o direito de levar o filho da Elena como se fosse um troféu!

— Sasha, já chega. Não adianta lutar contra o inevitável — Angelos retrucou, a frieza em sua voz me surpreendendo. — Já está tudo acertado e documentado com ele.

— Acertado? — Sasha avançou um passo, as lágrimas começando a brilhar em seus olhos verdes. — Papas, aquele homem, o filho dele, rejeitou a Elena quando ela mais precisou! Minha irmã morreu por puro desgosto, com o coração partido por um Lykaios, e agora a família dele quer ficar com o Leo? Isso é inaceitável! É uma crueldade que eu não vou permitir!

— Não é você quem decide os rumos desta família, Sasha — Angelos sentenciou, endurecendo o semblante.

— Você não vai levar esse menino — Sasha declarou, virando-se para mim. Ela se aproximou, Leo aninhado em seus braços, a voz tremendo de uma emoção crua. — Eu não vou deixar.

Ela apertava o bebê com tanta força, com um instinto de proteção tão visceral, que eu pude sentir o tremor em seus braços. Embora fosse apenas uma jovem de dezoito anos, havia uma determinação em seu rosto que impunha respeito. O amor que ela sentia por aquele menino era palpável, uma barreira de fogo entre mim e meu neto. Senti uma pontada de dor ao perceber que eu estava prestes a arrancar o coração daquela garota, mas a minha resolução era de aço. O menino era meu sangue.

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