Peculiar

NARRAÇÃO DE SARA...

Foi difícil permanecer no restaurante. Primeiro, porque eu não queria ser um fardo incontestável. Ele já havia parado tudo para nos levar ao hospital, e agora parava novamente para comer porque Julie pediu. Eu, no entanto, neguei o almoço. Não queria carregar mais um motivo para me sentir um estorvo. Meu estômago queimava, morria de fome. O cheiro da comida era uma tortura.

Fixei os olhos na janela, torcendo para que aquilo acabasse logo.

Uma coisa eu não entendi. Por que ele perguntou se eu sentia vergonha de estar perto dele? Por que carrega esses pensamentos? O que o faz imaginar que eu teria vergonha dele? Dom Dawson é bonito, e apesar do ar desleixado, resultado do desânimo que sente pela própria vida, não haveria motivo algum para eu me envergonhar dele. Eu, sim, estava de uniforme de empregada, suja depois de um longo dia de trabalho, cercada por CEOs e pessoas de grife.

Respirei aliviada quando chegamos ao hospital. Julie precisa parar com essa mania de ser carinhosa com todo mundo. Apesar de o Sr. Dawson ter demonstrado alguma gentileza, ainda o enxergo como um ogro — sem paciência, explosivo, de pavio curto. Tenho medo de que um dia ele se irrite com minha filha, porque não responderia por mim.

Entretanto, quando ele a pegou com tanta delicadeza, pude enxergar sua humanidade. Naquele momento, Julie era pura inocência... e ele também se tornou. Conheço bem quem gosta de verdade da minha filha; já passei por muitas provações para aprender a reconhecer. Por isso, permiti. Senti que seria bom para ambos.

A leveza do momento, no entanto, se tornou um fardo quando Julie se lembrou do coelho. Conheço minha filha como a palma da minha mão: ela jamais abriria mão dele. Dorme com aquele coelho desde os seis meses de idade. É seu protetor, seu aconchego durante a noite. Eu sabia que enfrentaria uma noite difícil.

Ao menos teria o dia inteiro para acalmá-la e explicar que seria apenas por uma noite. Apenas uma...

Ao entrar no hospital, um peso saiu dos meus ombros por me afastar dele. Sr. Dawson me assusta. É imprevisível, e nunca sei quando estará de bom humor — se é que isso ainda existe em sua vida.

Julie continuava chorando, chamando pelo “coelho fofo”, como ela mesma o apelidou. Afaguei suas costas, prometendo que amanhã ele estaria de volta.

Na recepção, informei o nome da minha mãe enquanto tentava ignorar o choro da minha filha. Era muita pressão: preocupação com minha mãe, Julie chorando, meu estômago queimando de fome. A atendente pediu que aguardássemos até o médico voltar. Fiquei um bom tempo na sala de espera. Julie acabou dormindo, ainda soluçando entre um suspiro e outro, até cair em sono profundo nos meus braços.

Não demorou para o médico aparecer, sério, com o jaleco branco impecável.

— Dona Sara, sua mãe vai precisar permanecer internada. A pressão dela está muito alta. — Meus olhos se encheram de lágrimas. Senti-me pequena, impotente dentro daquela sala, sem apoio algum, apenas eu e minha menina de quase quatro anos.

— Obrigada... — sussurrei, fechando os olhos, assustada.

— Ela corre algum risco? — perguntei, com a voz embargada.

— Não, ela está instável. Vamos tentar controlar a pressão. Recomendo que vá para casa e aguarde. — Ele lançou um olhar compreensivo para Julie dormindo nos meus braços.

Assenti. — Obrigada. — Levantei com dificuldade, sentindo a cabeça girar, talvez pela barriga vazia.

Peguei o ônibus e, em poucos minutos, estávamos em casa. Respirei aliviada quando coloquei Julie na cama. Fechei a porta devagar e fui para a sala. Sentei no sofá e chorei, pensando na minha mãe, em tudo. Minhas mãos tremiam. Balancei a cabeça, me repreendendo. Eu precisava ser forte. Mães são fortes.

Levantei e fui até a cozinha. Preparei um macarrão instantâneo. A cozinha estava impecável — minha mãe sempre deixa tudo limpo enquanto eu coloco Julie para dormir. Comi sozinha, as lágrimas turvando minha visão, sentindo uma falta imensa dela.

Como era meu dia de folga, ocupei-me limpando a casa inteira, até o quarto da minha mãe. Quando o sol começou a se pôr, Julie acordou choramingando, sentindo ainda mais falta do seu coelho. Preparei um lanche, distraí-a com seu desenho favorito na sala e voltei para a cozinha, preparando o jantar em silêncio.

Foi então que o celular vibrou sobre a bancada. Atendi, pensando ser o hospital.

— Sara? — A voz de Dom Brady me fez estremecer.

— Oi... — respondi nervosa, os dedos suando no celular.

— Estou em frente à sua casa. Encontrei o coelho no escritório. Acho que Julie vai se sentir melhor. — Perdi a fala. Franzi a testa, sem acreditar no que ouvira. — Não demore. Eu não gosto de esperar. — A voz dele era fria.

— C... claro, já vou. Obrigada! — desliguei, vestindo um casaco, pois o vento lá fora assobiava forte.

Passei pela sala e Julie me olhou curiosa.

— Mãe!

— Já volto, meu amor. Vou trazer o coelho. — Ela sorriu, pulou do sofá e correu até mim, estendendo os bracinhos. Sorri, a peguei no colo e coloquei o gorro em sua cabeça.

Quando abri a porta, prendi o ar. Dom Brady estava lá, encostado no carro de luxo, segurando o coelho. O brinquedo estava limpo, novinho, até o olho pendurado havia sido costurado. Julie gritou de alegria e quase saltou dos meus braços. Inspirei fundo, sentindo o coração disparar. Sempre sinto receio de me aproximar dele. Julie, ao contrário, correu até ele.

Dom Brady se abaixou e a recebeu, abraçando-a com carinho. Ele é... tão peculiar.

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