####CAPÍTULO 03

CHRISTOS

Assim que deixei Atena para trás, a busca por Sabine tornou-se uma missão que eu não estava verdadeiramente preparado para encarar.

— O salão ainda pulsava com o ritmo contagiante da música e as vozes alegres dos convidados que pareciam ter se entregado completamente à noite de celebração.

No entanto, para mim, tudo aquilo havia perdido sua magia encantadora, transformando-se em um mero pano de fundo para a tempestade que se formava em meu coração.

— Percorri a pista de dança, observando aqueles rostos sorridentes e descontraídos, mas cada risada que ecoava ao meu redor parecia um lembrete do que eu não tinha: a presença da mulher que amava.

Olhei perto do palco, os músicos animados tocando encantadoras melodias, e chequei as mesas onde os convidados se divertiam, mas não consegui encontrá-la.

— O espaço que ela ocupava momentos antes parecia agora vazio e solitário, como se toda a vida tivesse se esvaído dele, deixando apenas um eco da sua luz.

Finalmente, ao longe, avistei-a sentada à mesa com seus pais, a expressão dela tão delicada quanto a lua refletida na água calma.

— Respirei fundo, sentindo o peso do momento; sabia que minha próxima ação era decisiva, como uma jogada em um tabuleiro de xadrez, antes de me aproximar.

— Boa noite — cumprimentei, adotando uma postura formal que contra balançou o turbilhão de emoções dentro de mim.

— O senhor e a senhora são os pais da Sabine?

— O homem me observou com atenção, como se estivesse examinando cada detalhe do meu rosto em busca de algo que não podia ser visto, e então desviou o olhar para sua esposa.

Havia entre eles uma troca silenciosa, uma conexão profunda que parecia transcender palavras, como se compartilhassem uma certeza mútua sobre minha presença ali.

— Era evidente que eles eram protetores de sua filha, e a atmosfera ao redor deles no momento era densa, carregada de expectativas e desconfianças.

— Sim, somos — respondeu ele, finalmente, com um tom que misturava curiosidade e cautela.

— E o senhor é…?

— Christos — disse, apresentando-me, tentando transmitir uma confiança que mal sentia.

— Gostaria de conversar com a Sabine, é importante.

Uma pausa severa pairou no ar, o silêncio era quase palpável, como se o tempo tivesse parado para absorver o impacto da minha solicitação.

— A tensão pulsava como um fio esticado prestes a romper, e eu sabia que cada segundo contava.

Minha sogra, percebendo o clima carregado que se havia instalado, foi a primeira a quebrar o silêncio, seu olhar maternamente inquieto mostrando que ela compreendia o peso da situação:

— Ela já se retirou — informou, com uma voz educada, mas decidida.

— Sabine tem compromissos na clínica amanhã.

— Ela veio apenas para nos acompanhar e representar a família, como uma sombra que ilumina a presença familiar, mas que, neste momento, se tornou uma figura distante, quase etérea.

A lembrança da sua presença fugaz ainda pairava no ar, como o perfume de flores que desaparece com a brisa.

— A realidade daquela revelação me atingiu com a força de uma onda quebrando na costa, embasbacado, sentindo-me como se tivesse sido precipitado em um abismo, longe de qualquer esperança de contato tangível.

O frio na minha barriga se intensificou, disparando uma sensação visceral de impotência.

— Como eu poderia acessar aquele vínculo familiar que tanto ansiava, que me parecia tão desejado e, ao mesmo tempo, tão distante?

— Entendo… — concordei, lutando contra a frustração que se acumulava dentro de mim como uma tempestade prestes a estourar, relâmpagos de desespero iluminando a escuridão da minha mente.

— Eu realmente gostaria de falar com ela. Poderiam me passar o telefone?

— A ideia de ter que seguir um caminho incerto rumo à clínica, sem garantia de que teria a chance de vê-la, fazia meu coração acelerar com ansiedade.

Ela me encarou por alguns momentos, avaliando meu pedido com o olhar de uma águia que observa sua presa, uma mistura de consideração e defesa refletida em seus olhos.

— Minha vulnerabilidade não parecia impressionar, e a determinação que ela exibia era quase palpável, como uma barreira invisível construída ao longo de anos de experiências e desafios.

Antes de responder, ela respirou fundo, como se estivesse se preparando para uma declaração crucial:

— Não — respondeu ela, de forma direta, como se erguesse um muro intransponível entre nós.

— Mas o senhor pode procurá-la na clínica.

— Essa frase, mais do que uma recusa, soou como um destino que não podia ser ignorado.

Em seguida, retirou um cartão de sua bolsa e o estendeu em minha direção, como se estivesse oferecendo uma ponte temporária entre as nossas realidades.

— Aqui estão os contatos profissionais dela.

— Numa perspectiva além do simples gesto, percebi que aquele papel continha uma gama de emoções complexas — esperança, desapontamento, e um reconhecimento tácito daquelas barreiras que existem entre famílias e suas dinâmicas delicadas.

Agradeci pelo cartão, consciente de que aquele gesto representava mais uma barreira a ser respeitada do que um verdadeiro convite.

— O toque do papel frio nas minhas mãos simbolizava talvez não apenas uma conexão, mas um lembrete claro de que existem limites a serem respeitados nas relações humanas, especialmente em momentos delicados.

O cartão continha informações que poderiam ser a chave para um entendimento maior, mas também era um sinal de que eu teria que navegar por caminhos que ainda não conhecia, em busca de um encontro que parecia cada vez mais evasivo.

— Obrigado. Boa noite — disse, com um nó na garganta, lutando para manter a compostura enquanto me afastava, cada passo ecoando a incerteza que me acompanhava.

A noite envolveu-me como um manto escuro, trazendo a realidade de que a comunicação, por mais que desejada, poderia se revelar uma estrada longa e solitária.

— Afastei-me da mesa, uma sensação de desamparo me invadindo ao perceber que Sabine já havia se resguardado, como um pássaro que se retira para seu ninho, buscando segurança entre as suas penas, antes que eu tivesse a chance de me aproximar e expressar o que realmente sentia.

Era como se, nesta sala cheia de gente, uma barreira invisível se erguesse entre nós, e a solidão desse instante pesasse em meu coração.

— Minha decisão estava tomada: não falaria mais com ninguém, pois a única coisa que eu desejava naquele momento era seguir diretamente até meu pai, onde as questões mal resolvidas poderiam finalmente encontrar um desfecho.

— Estou indo embora — avisei, e ele me olhou como se eu estivesse fazendo uma afirmação absurda, uma negação a uma realidade que ele considerava inegável, como se eu tivesse desafiado as leis fundamentais do universo.

— A expressão em seu rosto era de incredulidade misturada a raiva, um reflexo da sua incapacidade de aceitar que eu pudesse tomar uma decisão que não se encaixava no seu plano.

— Que história é essa de romper o noivado com Atena? — perguntou, sua voz cortante ressoando desenfreada, como se estivesse tentando esfaquear a verdade com suas palavras.

— Você se envolveu com ela por dois anos, e agora, por causa de um capricho, decide jogar tudo para o alto?

—Não está sendo justo, nem com ela, nem consigo mesmo.

Observei-o intensamente, mantendo o olhar fixo no dele, como se buscasse um farol em meio à tempestade de emoções que pairava entre nós.

— O que ele não entendia era que minha escolha não era um capricho, mas sim uma busca por autenticidade e paz interior.

O peso do compromisso, que deveria ter sido uma celebração da união entre dois corações, se transformara em uma prisão silenciosa.

— Eu não enganei ninguém, pai, sempre deixei claro que não me casaria com ela.

Pense nas promessas que fiz; um compromisso é como uma ponte: não se pode construir algo sólido sem sinceridade e sentimentos verdadeiros.

— Não é apenas um acordo; é uma ligação que se deve respeitar, e o que temos agora é apenas um papel assinado.

Preciso ser verdadeiro comigo mesmo, mesmo que isso signifique desagradar a muitos.

— Essa sua atitude o que você pensa, para os outros, a situação parece diferente.

O que dirão de você se simplesmente abandonar tudo? — ele insistiu, como se tentasse colocar uma venda sobre meus olhos, ocultando a visão do que realmente importava.

— Suas palavras eram como correntes que tentavam me prender a uma expectativa social, uma pressão que não buscava o meu bem, mas sim preservar as aparências.

No fundo, eu sabia que essa era a maior sentença de solidão: viver a vida pela aprovação dos outros, enquanto as próprias vozes internas eram silenciadas.

— Não me importa com o que os outros pensam — afirmei, firme, como um rochedo que resiste à força do mar, inabalável diante das tempestades da vida.

— Mamãe concorda comigo, e sua opinião não me interessa.

Desde sempre, ela nunca viu com bons olhos Atena, e as razões para isso são mais profundas do que uma simples antipatia.

— Ela sempre acreditou que aquelas amarras que nos ligam não podem ser amarradas por alguém que não compreende as nossas verdadeiras necessidades, não vou ser forçado a fazer o que não quero, e não o farei.

Esse casamento é como um contrato: deve ser respeitado por ambas as partes, não imposto unilateralmente, como uma obrigação que pesa sobre os ombros de um filho relutante.

— Então, encontre outra pessoa para cumpri-lo.

— As palavras dele flutuavam no ar, carregadas de uma frustração que mal conseguia esconder.

Respirando fundo, permitiu que a ideia se fixasse por um momento, examinando suas implicações. — O sheik está interessado em uma segunda esposa.

Deixe Atena se casar com ele. Comigo, isso não vai acontecer; não seria justo para nenhum de nós.

A liberdade existe na escolha, e não gostaria de viver uma vida na qual o amor fosse apenas uma imposição, uma espera amarga pela aprovação alheia.

— Meu pai cerrou os dentes, sua irritação tornava-se palpável, como um vendaval prestes a explodir.

Era como se a sala estivesse carregada de eletricidade estática, prestes a soltar uma tempestade de emoções reprimidas.

— Você está sendo irresponsável — ele atirou, seu tom cortante tão afiado quanto uma faca, cada palavra era um golpe bem calculado.

A raiva dele não era apenas por mim, mas por toda a situação, um eco de expectativas não correspondidas que pesavam sobre sua mente.

— Estou sendo honesto — respondi, dando um passo para trás, como quem evita uma tempestade que já se anuncia no céu.

— Vim apenas informá-lo que estou indo para casa. Não posso permanecer aqui e ser um prisioneiro das suas vontades.

Minha mãe imediatamente se levantou, a preocupação estampada em seu rosto como uma nuvem densa prestes a descarregar chuva. — Seus olhos refletiam o medo de que nosso pequeno conflito pudesse se transformar em algo muito maior, algo capaz de romper os laços que ainda nos uniam.

— Meu filho… — começou ela, sua voz tremendo como se estivesse prestes a quebrar, mas eu a interrompi suavemente, tentando suavizar a tensão no ar.

— Depois conversamos, mamãe. — Inclinei-me e beijei seu rosto delicadamente, um gesto de carinho em meio ao caos.

— Era um lembrete de que, apesar de todo o tumulto, havia amor e compreensão entre nós.

— Apenas passei para me despedir.

Sem olhar para meu pai, virei-me e deixei o salão. — O som de sua desaprovação ecoou atrás de mim, uma voz baixa e carregada de irritação, como um trovão longe no horizonte: uma promessa de que esta conversa não estava longe de ser retomada.

Sabia que a batalha estava longe de acabar, mas naquele momento, eu precisava encontrar meu próprio caminho.

— Você mimou demais esse menino, agora, ele acha que pode fazer o que quiser, sem considerar as consequências das suas ações e decisões.

— Não é só uma questão de disciplina; é sobre preparar os filhos para o mundo real, que é implacável e não aceita fraquezas.

Minha mãe não hesitou em responder, sua voz firme e determinada, apesar do cansaço que a cercava como uma névoa densa nas primeiras horas da manhã:

— E você sempre tentou impor demais a sua vontade, como se ele fosse uma extensão de seus próprios desejos.

Ele não é você; ele tem o direito de escolher seu próprio caminho, de explorar suas paixões e aprender com seus erros.

— Lembre-se, as experiências que o moldarão virão de sua própria jornada, não da tua sombra pairando sobre ele.

Um silêncio tenso pairou entre nós, como um fio esticado prestes a se romper, a expectativa no ar era palpável, carregada de tudo o que não havíamos dito até agora.

— O peso da minhas escolhas parecia adensar-se entre nós, tornando a cada momento a atmosfera mais pesada e opressiva.

— Além disso, quero que você pare de tentar forçar nossos filhos a se casarem com aquela mulher — continuou ela, sua voz crescendo em intensidade, a determinação em suas palavras tão firme quanto uma rocha resistindo às ondas do mar revolto.

— Ele não será feliz assim, apenas se transformará em um prisioneiro de suas obrigações.

E não quero que ele viva uma vida como a minha, onde as expectativas dos outros moldaram sua identidade, fazendo-o esquecer quem realmente é e o que desejar.

— Quando saí do salão, percebi que a noite ainda estava longe de seu fim; na verdade, estava apenas começando, repleta de incertezas e possibilidades, reflexões que aguardavam por mim nas sombras da noite e os sussurros da liberdade que tanto desejei em silêncio.

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