Mundo de ficçãoIniciar sessãoA música chegou ao fim, envolta em aplausos no salão, elegantemente, iluminado por lustres brilhantes.
O ar estava pesado com o perfume de flores exóticas e uma eletricidade palpável dançava entre os convidados. — Christos me conduziu ao centro da pista, suas mãos firmes mas gentis em torno das minhas. Com delicadeza, ele soltou minha mão, fez uma breve inclinação de cabeça, e o que deveria ser uma simples comunicação entre duas almas se transformou em um momento carregado de não-ditos. — O silêncio dele pesava mais do que qualquer palavra que poderia ter sido pronunciada, como um suspense que se arrasta lentamente, prenunciando uma revelação inevitável. Assim como em uma cena de um filme de suspense, quando o protagonista enfrenta um dilema emocional que pode mudar o curso de sua vida, eu também não consegui pronunciar uma palavra. — Um turbilhão de emoções me invadia; a confusão e a expectativa se misturavam, formando um nó apertado em meu estômago. Com a postura ereta e o coração acelerado, retornei à mesa dos meus pais, ciente de que nada naquela noite era inocente. — O brilho das taças de cristal refletia a luz, mas a verdadeira clareza estava em falta. Eles tentaram se comunicar, mas suas vozes se perderam no ruído ao meu redor, convertendo-se em meros sussurros anônimos em meio a risadas e conversas superficiais. — Minha atenção permanecia fixada no palco, naquele homem que eu tentara enterrar em um passado que parecia tão distante e, ao mesmo tempo, tão presente. Ele teimava em reaparecer, como um espectro do meu passado, assombrando cada pensamento e cada passo que eu dava, um lembrete constante de histórias não contadas e de verdades que eu tentava evitar encarar. — Quinhentos mil euros podem fazer a diferença para muitas crianças — respondeu ele, em um tom frio que ecoava uma realidade crua, ressaltando que o dinheiro pode ser utilizado de forma altruísta ou egoísta, dependendo da perspectiva do doador. Ele refletiu sobre as numerosas iniciativas altruístas que floresceram ao longo dos anos, onde doações generosas não apenas transformaram instituições de caridade, mas também trouxeram um novo fôlego de esperança para inúmeras crianças em necessidade, tirando-as da obscuridade e oferecendo-lhes um futuro promissor. — Não era esse o objetivo? — questionou ele, suas palavras pesando no ar, como uma pergunta retórica destinada a provocar reflexão. Os olhos de Atena brilharam com intensidade, capturando a seriedade da conversa. — Você viu aquele sheik? — perguntou, apontando discretamente com o queixo em direção a um homem distinto sentado ao fundo, sua presença cercada por um halo de requinte e poder. — Samir Al-Hassan, ele não tirou os olhos dela em nenhum momento. — O modo como seus olhos se fixaram, nela era quase hipnótica, uma intensidade que parecia esmiuçar cada movimento dela, como se ele estivesse avaliando seu valor. Christos seguiu o olhar de Atena, um misto de curiosidade e cautela. — Vi — fez uma pausa calculada, permitindo que a tensão quase palpável entre os dois se intensificar. Havia uma certa eletricidade no ar, uma mistura de desejo e cautela. — Mas, até onde sei, ele já tem uma esposa, ou talvez pretenda torná-la a segunda? Essa possibilidade pairava entre eles, um dilema moral que refletia a complexidade dos relacionamentos e as convenções sociais que ainda dominavam a região. — O que parecia ser um jogo de interesses se tornava uma intersecção entre amor, ambição e, quem sabe, um desejo oculto de liberdade que ambas as partes pareciam compreender, mas estavam relutantes em explorar. Atena esboçou um sorriso lento, impregnado de veneno, como se tivesse saboreado uma fruta proibida. — Quem sabe? — Eu adoraria ser a segunda esposa de um sheik — disse, sua voz suave, mas carregada de intenções ocultas. — Com todas aquelas joias… — seus olhos cintilaram, perdidos em uma fantasia luxuosa enquanto se via adornada com colares e anéis requintados, típicos da aristocracia do Oriente Médio. —Ela se lembrava das histórias hipnotizantes de mulheres que desfrutavam de vidas repletas de privilégios e status, vivendo em palácios ornamentados, cercadas por guardas leais e ansiosos para atender a cada capricho. O deslumbre dessa imagem a encantava, como uma borboleta atraída pela luz brilhante de uma chama. — O status seria incomparável. — Em vez de viver às sombras de compromissos e obrigações familiares, eu teria meu próprio espaço, meu próprio poder. Finalmente, Christos a encarou, divertindo-se com a reviravolta da conversa, cada palavra dela servindo como um novo toque de pincel em uma pintura que ele já tinha em mente. — Fique à vontade para se volutariar. Nós ainda não estamos casados — disse ele, sua voz baixa e controlada, como um maestro regendo uma orquestra de emoções em perfeita harmonia. — E você sabe que este casamento nunca foi por amor. Sua frieza era um escudo, bem acreditado por ele, que impedia qualquer aproximação. — Você fala disso com uma naturalidade impressionante — retrucou ela, surpresa, achando que havia um ar de desumanidade em sua resposta, como se estivesse desconcertada pela frieza dele. O choque reverberou dentro dela, fazendo-a reconsiderar se estava apenas vendo a superfície de uma pessoa que era, de fato, muito mais complexa. — Estou sendo honesto — ele se aproximou, mantendo o olhar fixo, semelhante a um predador que observa sua presa, sua energia quase palpável entre eles. — O que faço é caridade, estou apenas ajudando sua família, nada mais. Poderia assumir as empresas do seu pai e gerir tudo, sem precisar desse teatro. — À medida que falava, cada palavra parecia afundar mais e mais na atmosfera pesada que os cercava. Atena estreitou os olhos, percebendo as implicações disso, como um jogador que descobre um blefe em uma partida de pôquer; ele estava manipulando as cartas a seu favor, e a pergunta que ecoava em sua mente era: a que custo? — Então você só quer se livrar de mim, não é? — questionou, tentando esconder a incerteza em sua voz, embora cada sílaba tremesse com a realidade que se impunha. O que antes parecia uma conversa leve agora se tornava um campo de batalha silencioso, onde o amor ou a controle ainda eram incógnitas, e o jogo de poder poderia decidir o destino de ambos. — Louco, não — respondeu ele, com uma frieza cortante que desafiava qualquer tentativa de intimidade, como um iceberg à deriva em águas geladas, indestrutível e impassível, refletindo o brilho distante do sol apenas para se manter à tona em um mar de emoções turbulentas. — Mas, sendo a segunda esposa de um sheik, você teria exatamente o que deseja: atenção, status, luxo. — Coisas que eu nunca prometi e que, no fundo, você sabe que são efêmeras, como flores que desabrocham na primavera apenas para murchar no final do verão. Essa vida repleta de aparências poderia ser sua, mas a que preço? — Você se relaciona com outras mulheres — ela sussurrou, a raiva transparecendo em sua voz contida, como se um vulcão estivesse prestes a entrar em erupção, pronto para expelir toda sua insatisfação que se acumulava em seu interior, eruptiva e fervente. — Nunca comigo, nesses dois anos, nunca me convidou para ir à sua casa. — Exatamente, nem você nem mulher alguma, meus encontros são íntimos com mulheres pagas, e em hotéis ou outros lugares que não seja minha casa — confirmou ele, sem hesitação, com uma sinceridade cortante que parecia cortar como o gelo em um dia gélido. — Sempre foi assim. Somos apenas uma fachada, um contrato, como dois atores em um palco iluminado, interpretando um papel que não escolhemos e que, dadas as circunstâncias, interpretamos até o fim. — Nem casamento religioso haverá, apenas no civil, porque é um acordo de negócios entre duas famílias em um mundo onde emoções e meros adereços, mas completamente descartável com narrativas frias que nos foi imposta. O rosto de Atena se tornou uma máscara de determinação, seus olhos brilhando com a intensidade de uma tempestade que se aproxima. — E por falar nisso… você está me enrolando demais, já era para esse casamento ter acontecido. — Eu não sou um mero peão no seu jogo, exijo respeito e cansei de esperar— afirmou, sua voz firme como thunder, ecoando os desafios que sentia em seu próprio coração. Christos respirou fundo, como se algo dentro dele tivesse mudado, uma espécie de transformação complicada, mas necessária. — Quer saber, Atena? — disse, com uma firmeza que cortava o ar, como um abalo sísmico que revelava falhas profundas sob a superfície de sua vida até então inabalável. — Este casamento não vai acontecer, estou cansado dessa farsa, dois anos aparecendo com você, sem te amar, apenas por conveniência. Seu tom era tão decisivo que cortou a tensão no ambiente, mas também fez Atena empalidecer, o choque refletido em seu olhar, como se as palavras dele tivessem o poder de desintegrar seus sonhos em um instante. — O quê? Você não pode romper nosso noivado! — Ele respondeu, transformando a hesitação do passado em uma certeza inabalável, cada sílaba ressaltando a gravidade do que acabara de anunciar. — Se dois anos atrás eu hesitava, agora eu tenho certeza de que não quero mais. E tenha certeza, posso e vou, acabou Atena! — O eco de suas palavras ainda ressoava no ar, flutuando em um espaço carregado de emoções não ditas e esperanças desfeitas. Ele se virou, deixando-a sozinha, imóvel e humilhada em meio ao brilho do salão, onde as luzes cintilantes dançavam ao ritmo de uma melodia suave, fazendo com que a atmosfera festiva contrastasse brutalmente com a tempestade emocional que se formava dentro dela. — Atena levou alguns segundos para processar suas palavras; cada uma delas repercutindo em sua mente, e como um eco de desespero, um lamento silencioso que a consumia lentamente. Caminhou rapidamente até o Petros, o pai Christos, com os olhos ardendo de indignação, um fogo que iluminava seu semblante e fazia seus passos cortarem o ar tenso como facas. — Christos acabou de dizer que não vai se casar comigo, Petros você precisa dar um jeito nessa situação. — disparou, em um tom baixo e carregado de indignação, como se cada sílaba fosse uma carga de pólvora pronta para explodir. A promessa que fora feita agora parecia pesada como uma ilusão, borrada pela realidade cruel, e sua frustração transparecia em sua expressão feroz. — Você prometeu, disse que ele faria o que você mandasse, mas ele me enrolou por dois anos, nunca me tocou. — Petros franziu o cenho, a perplexidade tomando conta de seu rosto enquanto o peso da situação se tornava inegável. A tensão crescente estava claramente visível em seus olhos, que passavam de uma expectativa otimista para um desespero latente. — Atena… ele começou a protestar, mas ela o interrompeu, a voz quase um sussurro, mas firme como uma espada desembainhada —, se você não obrigar Christos a casar comigo, todo mundo vai saber que você é meu amante. O silêncio entre eles foi absoluto, como se o ar estivesse pesado com as revelações não ditas, uma cortina invisível que separava o mundo festivo do caos emocional que se desenrolava à vista de todos. A atmosfera estava carregada de segredos e promessas quebradas, e cada olhar ao redor parecia se tornar um julgamento silencioso. Naquela noite, mais um segredo ameaçava vir à tona, envolvendo não apenas o futuro dela, mas também a reputação de todos os envolvidos, como se uma bomba-relógio estivesse prestes a explodir. —O peso das consequências pairava como uma nuvem sombria sobre eles, tornando cada respiração quase angustiante, enquanto ela se perguntava até onde estava disposta a ir para proteger o que restava de sua dignidade e o que significava para sua vida a escolha que Christos havia feito.






