####CAPÍTULO 04

CHEGUEI EM CASA

Essa noite foi de surpresas, entrei em casa com a gravata afrouxada e o coração apertado, uma sensação que não condizia com uma festa beneficente.

O salão ainda está em minha mente: o brilho, os aplausos, a música e, no centro de tudo, ela.

—Sabine, seu nome, atravessou dois anos como se o tempo fosse apenas uma desculpa ridícula, como se o que aconteceu entre nós tivesse mudado de cenário, mas não de intensidade.

Ela estava ainda mais linda, uma mulher que me desarmou completamente.

—Seu corpo mais volumoso, cintura fina, seios cheios e quadris largos, refletindo o impacto do tempo de maneira silenciosa e madura.

Nervoso, peguei meu celular e digitei o nome dela, como se fosse um pecado.

— Fiz a busca em grego, como quem busca um endereço para escapar da própria culpa, e a tela me mostrou o que não esperava: o nome da clínica.

Um símbolo simples de um gato e um cachorro, o endereço, o horário e, surpreendentemente, uma foto dela.

—Ampliei a imagem, admirando seu rosto mais maduro, seu olhar firme, a expressão de alguém que se construiu sozinha.

Não sabia nada sobre ela, não sabia onde estava ou o que se passara em sua vida, mas ao vê-la naquela noite, percebi que meu corpo se lembrava dela melhor do que minha mente.

—Senti raiva de mim mesmo, porque se ela estava ali, com tanta clareza, como eu não percebi?

—Como não percebi que Sabine estava na Grécia, comigo, enquanto eu vivia um noivado falso, preso a uma rotina inventada?

A verdade era simples e dolorosa: sempre soube que deixaria algo importante para trás.

—“Eu preciso reconquistar essa mulher”, pensei, e a frase surgiu com uma urgência alarmante.

Torci para que ela não estivesse acompanhada. Fechei os olhos por um instante, tentando ignorar essa perda.

— Quando finalmente consegui dormir, foi um sono leve, que não descansava, apenas interrompe a consciência por alguns minutos.

Ao amanhecer, já estava de pé, colocando meu moletom e amarrando os tênis, tentando correr para dissipar a imagem dela dançando comigo, a palavra “noivo” atravessando a pista como uma lâmina, e a frieza com que ela havia me colocado em meu lugar.

—Meu personal trainer me aguardava pontualmente, com prancheta em mãos, excessivamente animado para alguém que não tinha o coração no lugar certo.

Assenti com a cabeça e começamos a correr, o ar frio da manhã cortava meu rosto.

—Quase acreditei que o cansaço do corpo apagaria os pensamentos. Quase. Então vi a gatinha.

Ela estava perto de um canteiro, encolhida, ao lado de dois filhotes tão pequenos que pareciam mais sombras do que vidas.

—Ao perceber minha aproximação, ela tentou se mover, mas se arrastou com um fraco miado, como se pedisse silêncio para não chamar a dor.

Parei imediatamente. — Christos — chamou meu personal, já irritado. — Você ainda tem exercício. — O exercício pode esperar — respondi, sem desviar o olhar.

— Essa mãezinha não pode esperar, abaixei com cuidado, estendi as mãos.

A gata rosnou, tentando arranhar seu instinto ainda vivo apesar da fraqueza.

— Calma, garota… calma — murmurei, aproximando meu moletom para aquecê-la.

— Eu vou te ajudar, você e seus filhotes também.

Ela tentou rosnar novamente, mas o som saiu falho.

—Seu corpo tremia, e o corte na pata estava aberto, feio e sujo, como se alguém a tivesse ferido de propósito ou ela tivesse sido chutada para longe de sua casa.

Tirei a toalha de rosto que carregava, cuidadosamente enrolei a gatinha e puxei os filhotes para perto dela, um de cada lado, protegendo-os com meu calor, meu personal se aproximou, incrédulo.

— Você vai interromper o treino por causa de um gato?

— Sim — respondi, simples.

— Amanhã seguimos, com as aulas, agora vou pra casa com essas três.

Caminhei de volta para casa com aquela pequena família grudada em mim.

Não tinha ideia do quanto precisava daquilo até sentir aquele peso frágil contra meu coração.

—Na cozinha, a governanta me olhou como se eu trouxesse um segredo. — Senhor…? — Preciso de sardinha — disse, sendo direto.

Aproximou-se, viu a gata e os filhotes, e seu rosto amoleceu.

— Coitadinha… — murmurou. — Sardinha eu tenho, mas atum também, vou abrir uma lata.

— E água — pedi.

— Uma vasilha com água, e… você acha que esses filhotes conseguem comer?

Ela riu baixinho.

— Não, senhor, eles são muito pequenos, só mamam.

Eles só mamam, assenti, observando a gata tentando erguer a cabeça, desconfiada, mas menos agressiva.

— Então coloca atum para ela — pedi. — Ela precisa de força.

Enquanto a governanta organizava tudo, sentei à mesa, colocando a gata sobre uma toalha, mantendo os filhotes por perto.

Ela comeu devagar, como se desconfiada, como se temesse que sua comida fosse retirada.

A cena apertou meu peito de uma forma inesperada.

— Você veio em boa hora — murmurei para mim mesmo.

— Deus está me ajudando.

A gata elevou o olhar e soltou um miado curto, como se eu estivesse falando uma língua estranha.

— Como eu vou te chamar? — perguntei, a pergunta saiu naturalmente.

— Vênus, você será uma deusa.

Ela piscou devagar.

— E como foi que te machucaram? — continuei, olhando para a pata ferida.

— Esse corte está feio, Vênus… muito feio. — Miou — respondeu ela, como se o mundo estivesse reduzido a essa reclamação. — Sorri minimamente, sem alegria.

— Agora você é minha — murmurei, e essa frase teve um peso estranho.

— Se você apareceu, você é minha.

—Vou tomar um banho, tomar café e te levar na clínica veterinária da mulher da minha vida. Essa é a desculpa perfeita para ir até lá.

Tomei um banho rápido, vesti roupas simples, tomei café sem sentir o gosto, enquanto minha mente repetia o mesmo nome como uma oração e uma sentença simultaneamente: Sabine, ás nove horas, pedi ao motorista que preparasse o carro. — Não coloquei Vênus em qualquer embalagem.

— Usei uma caixa de sapatos, sim, mas forrei com toalhas macias e improvisei um ninho para os filhotes.

Carregava a caixa como se tivesse nas mãos algo que poderia mudar meu destino.

—Durante o percurso, olhei pela janela e uma impaciência infantil crescia dentro de mim. Eu não queria apenas vê-la.

Queria entender por que ela estava ali, por que nunca me procurou.

—Desejava consertar o que foi quebrado, ansiava que olhasse para mim sem aquele gelo.

Cheguei à clínica e vi a fachada simples, profissional, sem ostentação, mas bem cuidada. O símbolo do gato e cachorro estava lá, o nome em grego, a porta de vidro, o interior limpo e organizado.

Assim que entrei, uma atendente levantou os olhos.

— Bom dia — disse ela.

— Em que posso ajudar?

— Gostaria de falar com a doutora Sabine.

A atendente me avaliou rapidamente, com um olhar treinado para distinguir urgência de capricho.

— Ela está atendendo um paciente e fazendo uma visita no canil, quando ela voltar, o senhor será o primeiro. É uma consulta marcada?

— Resgatei uma gata com dois filhotes hoje de manhã, ela está ferida.

O rosto da atendente se transformou. — O senhor sabe a idade dela? — Não, a encontrei hoje, quando estava me exercitando

Ela anotou algo e respirou fundo antes de perguntar se eu poderia descrever o estado dela. — Ela comeu um pouco de atum, ofereci água, mas não sei se bebeu.

Parece com dor e não consegue ficar em pé, a atendente respirou fundo e começou a falar com calma.

— Assim que ela entrar em consulta, precisaremos colocá-la em uma caixa de transporte adequada.

Caixas de sapato não são seguras. —O senhor também vai precisar de uma caminhada, comedouro e bebedouro.

Eu aconselho também a colocação de um chip, se você for ficar com ela. — Eu vou ficar — respondi prontamente. — Com ela e os filhotes.

A atendente sorriu sinceramente. — Que bom, não deveriam existir mais pessoas como você.

— Eu já comprei algumas coisas — expliquei. — E planejo construir um playground quando eles se recuperarem.

Ela riu, — Você está levando isso a sério.

— Estou, pois sempre quis ter um pet.

— Posso ver os filhotes? — pediu, abri um pouco a caixa para que ela visse.

— Um macho e uma fêmea — disse.

— O macho se chamará Odin, a fêmea, Hera.

— E a mãe? — Vênus, e ela riu novamente, como se esse detalhe tornasse tudo mais humano.

— Vou avisar a doutora Sabine — disse, pegando o interfone.

— Esperei com a caixa sobre o colo, ouvindo os sons de animais ao fundo, latidos distantes.

O tempo ali dentro parecia ter uma densidade diferente, pelo interfone, escutei a voz dela, primeiro distante, depois mais clara.

— Vou lavar as mãos e já entro no consultório, pode mandar o primeiro paciente.

A atendente respondeu: — Só tem um até agora, doutora, é um resgate.

— Tudo bem — a voz dela soou firme e profissional.

— Peça para aguardar dez minutos. Já atendo.

Prendi a respiração inconscientemente. Dez minutos pareceram uma hora.

— Quando o interfone chamou novamente, a atendente sorriu para mim. — Pode entrar com a gata e os filhotes.

Levantei-me e dei o primeiro passo até o consultório parecia mais pesado do que deveria, abri a porta e vi Sabine.

—Ela estava de jaleco, cabelo preso, sem maquiagem, o rosto limpo e bonito, austero de concentração.

Ela levantou os olhos e, por um instante, vi a mulher da festa desaparecer e a mulher do estábulo aparecer, com a mesma rigidez, a mesma defesa.

— Ah, não… — ela disse, sua voz carregada de irritação e incredulidade. — Isso é perseguição.

— Não — respondi, com a voz calma.

— A única veterinária que eu conheço é você.

Ela apertou os lábios, decidida a não acreditar em nada que eu disse.

— Você comprou um filhote só para vir atrás de mim? — acusou.

— Não — reafirmei.

— Eu estava correndo no condomínio onde moro.

Vi essa gata ferida com os dois filhotes, eu a resgatei.

O olhar dela desceu até a caixa e percebi a mudança, Sabine não resistia a ajudar um animal ferido.

— Diante de um resgate genuíno, seu instinto falou mais alto que a raiva.

— Deixe-me ver — ordenou, estendendo as mãos. Aproximando-me, abri a caixa.

Vênus tentou rosnar, mas o som saiu fraco, Sabine a pegou com uma firmeza delicada, como se segurasse algo valioso.

— Calma… — murmurou, sua voz se suavizando apenas o suficiente para a gata entender.

Ela examinou a pata, o corte, a sujeira, a profundidade, e eu observei sua concentração.

— Como você a chamou? — perguntou, direcionando seu olhar à gata.

— Vênus. Sabine ergueu uma sobrancelha, quase rindo, mas segurou a emoção.

— Vênus… — repetiu. — E os filhotes? — Odin e Hera. Finalmente, ela me olhou. — Você gosta de mitologia.

— Eu sou grego — respondi, de forma objetiva.

Ela voltou ao exame. — Isso é um corte profundo, mas não parece fratura — disse.

— Vou limpar, fazer um curativo, e ela precisará de antibiótico e anti-inflamatório. Repouso absoluto.

Assenti. — O que for necessário. Sabine examinou os filhotes com zelo.

— Eles estão bem, e mamaram. — Vou ficar com todos — repeti.

Ela fez uma pausa, parecendo avaliar a gravidade da minha decisão.

— Não deveriam existir mais pessoas assim — disse, e a frase saiu antes que pudesse evitar.

Não respondi com orgulho, pois não estava ali para isso.

— Ela teve sua primeira cria recentemente — comentou Sabine.

— Deve ter pouco de seis meses um.

Anotou algo e então levantou os olhos para mim, mas apenas por um segundo.

— Onde você a encontrou?

— No condomínio, perto de um canteiro.

— Então alguém a deixou ali — concluiu. — Ou alguém a machucou.

Fechei a mandíbula, frustrado. — Eu não entendo como fazem isso.

— Eu entendo — respondeu Sabine de forma seca.

— E é por isso que prefiro os animais às pessoas.

—Essa declaração atingiu o que ainda estava aberto em meu coração, ela já havia dito algo semelhante no Texas.

Ela finalizou o curativo, organizou a medicação e explicou sobre o retorno.

— Ela precisa de mais observação, seria melhor eles ficarem internados, alguns dias para que possamos trocar o curativo e avaliar a cicatrização.

— Faça o que for preciso para que ela não sinta mais dores, eu volto a noite para vê-los.

— Sabine fechou a ficha e me encarou agora como mulher.

— Eu não disse que precisa ser comigo.

Sustentei seu olhar, e o silêncio se estendeu entre nós como uma corda esticada demais.

— Não faça isso — pediu, com a voz baixa e firme.

— Não transforme esses três inocentes em um jogo Christos.

— Não é um jogo Sabine , olhe para esses anjos.— reiterei.

— Eu não usaria uma gata ferida para me aproximar de você, mas a situação criou a ocasião.

Ela me estudou por um instante e percebi que algo cedia.

— Certo — ela concordou, voltando ao seu tom profissional.

Não forcei a situação, naquele momento, minha preocupação é com Vênus e os filhotes, mas não perdi a oportunidade de falar o quanto ela estava linda ontem.

— Você estava linda ontem, está mais mulher, não sei explicar— disse, apenas uma verdade.

Sabine não respondeu imediatamente, seu olhar desceu para a caixa, onde Vênus e os filhotes, como se fosse mais fácil lidar com a dor nos animais do que consigo mesma.

— Cuide dela, por favor, Ela sofreu muito nas ruas— foi tudo o que disse.

Sai, mas saiu com a certeza de que uma porta havia se aberto, nem que fosse uma fresta, e não pretendia desperdiçar essa oportunidade.

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