####CAPÍTULO 03

GEMIMA

O PATRÃO

Quando saio do escritório de dona Marina, ainda sinto o coração batendo com um ritmo descompassado contra as costelas. O ar parece mais pesado, ou talvez seja apenas a minha consciência pesada por ter falado mais do que deveria.

Eu só queria compartilhar uma ideia, algo simples que me ocorreu durante as manhãs intermináveis de separação dos frutos. Pensava nos temperos e ervas que minha família sempre utilizou em nossa mesa, lá em Noto.

Mas, agora que caminho pelo corredor de pedra, o silêncio ao meu redor parece amplificar minha hesitação. Tenho apenas nove meses de casa e sei, por tudo o que ouço nos corredores, que o senhor Matheus não é um homem que aprecia funcionários tomando liberdades.

No instante exato em que me viro para seguir rumo à fábrica, meus passos travam. Há um homem parado a poucos metros, encostado na parede próxima à porta por onde saí.

Ele é alto, imponente, com uma presença que parece preencher todo o espaço. Preciso erguer o rosto para encará-lo, mas, antes que meu olhar alcance o seu, o constrangimento me faz desviar depressa.

Ele veste um terno de corte impecável e o aroma do seu perfume — algo amadeirado, caro, sofisticado — atinge-me antes que eu consiga formular um único pensamento coerente. Sinto meu rosto arder num rubor que começa no pescoço.

Ele me observa, e a intensidade do seu olhar é tão palpável que, por um segundo, tenho a terrível impressão de que ouviu cada palavra que troquei com dona Marina.

— Com licença. — murmuro, a voz saindo mais fina do que eu gostaria.

Ele se afasta, abrindo caminho com uma elegância natural. Passo por ele contendo a respiração, evitando a todo custo encarar seus olhos azuis, cujo brilho periférico já foi o suficiente para me desequilibrar.

Continuo a caminhada pelo corredor com os dedos apertando nervosamente a lateral do avental de trabalho, buscando ali alguma âncora para a minha ansiedade. A dúvida me persegue como uma sombra: quem é esse homem?

Será que ele é alguém importante? Será que ouviu sobre os azeites e o meu medo do senhor Matheus? Preciso desse emprego, preciso desesperadamente de cada centavo para ajudar minha família em Noto.

O risco de ser vista como uma funcionária insolente me faz caminhar ainda mais rápido, tentando forçar minha mente a focar na tarefa que me aguarda na prensa.

Entro no refeitório já perto do final do horário de almoço. O ambiente está barulhento, com o som de talheres contra os pratos e conversas misturadas.

Procuro logo por Pepita, minha única aliada neste lugar onde me sinto tão estrangeira. Ela está sentada no lugar de sempre, mastigando com aquele jeito esperto de quem lê o mundo ao seu redor antes mesmo de qualquer um abrir a boca.

Pepita é mexicana, uma mulher que carrega a força do seu país na fala e que me acolheu desde o dia em que cheguei, sem me olhar como se eu fosse apenas uma mão de obra barata vinda do campo.

Assim que me aproximo, ela ergue as sobrancelhas, observando meu estado visivelmente agitado.

— Você quase perde o horário, Gemima. — diz ela, indicando a cadeira ao lado com o queixo.

Sento-me, mas a comida não parece apetitosa. Aproximo-me dela, baixando o tom de voz para que apenas ela me ouça.

— É que fui conversar com dona Marina sobre umas sugestões para a produção. Falei dos azeites temperados, com pimenta, alho, limão siciliano... Mas, menina, quando saí do escritório, dei de cara com um homem.

— Ele é tão alto, tão elegante, com uma barba aparada com perfeição e um perfume que... bom, acho que perdi o fôlego por um segundo.

Pepita para de mastigar, encarando-me com um brilho divertido nos olhos.

— Como assim? Os homens daqui são todos brutos do campo, vivem suados debaixo do sol. Esse que você viu cheiroso desse jeito só pode ser um visitante.

— Pois é. Eu não faço ideia de quem ele seja. Só sei que entrou no escritório assim que saí. Fiquei com as pernas bambas, Pepita. Nunca vi tanta beleza reunida em uma única pessoa.

Ela solta uma risada contida, cautelosa para não atrair a atenção das mesas vizinhas.

— Deve ser algum cliente importante. Alguém que veio fechar contrato de distribuição ou fazer um pedido grande para hotéis da cidade. Esse povo de gravata só aparece aqui quando o dinheiro fala alto.

Assinto, tentando forçar minha mente a aceitar essa explicação lógica. Gente importante passa por nós, trabalhadores, como se fôssemos parte da paisagem.

O almoço segue, mas minha cabeça está em outro lugar. Repasso mentalmente a cena: a forma como ele se afastou, a seriedade que parecia esconder uma curiosidade profunda.

É uma bobagem sem tamanho, Gemima. Você está aqui para trabalhar, não para perder tempo reparando em homens que não fazem parte do seu mundo.

Repentinamente, o burburinho no refeitório muda de tom. O clima, antes descontraído, torna-se subitamente tenso.

Alguns funcionários endireitam a postura, outras conversas morrem antes mesmo de se completarem. Instintivamente, ergo os olhos.

O homem do corredor acaba de entrar no refeitório, caminhando logo atrás do senhor Matheus. Meu estômago despenca.

— É aquele homem ali. — sussurro para Pepita, quase sem voz.

Ela se vira, acompanha o movimento deles com o olhar e, no mesmo instante, sua expressão muda de diversão para seriedade absoluta.

— Aquele?

— Sim.

Pepita volta-se para mim, baixando ainda mais a voz, como se o nome do homem fosse um segredo perigoso.

— Gemima, aquele é o senhor Giorgio. Ele é o filho do senhor Matheus.

O sangue sobe pelo meu pescoço, tingindo meu rosto de um vermelho escarlate.

— Meu Deus do céu. Esquece tudo o que eu disse. Esquece que eu falei qualquer coisa.

Pepita tenta segurar o riso, mas percebo que ela entendeu o tamanho do meu desespero.

— Não esquenta, menina. Ele é o oposto do pai dele. Enquanto o senhor Matheus trata a gente como se fôssemos ferramentas gastas, o senhor Giorgio trata todo mundo como ser humano.

Olho rapidamente para a mesa onde eles se sentam, distante da nossa, e volto a me esconder atrás do meu prato.

A comida, antes sem graça, torna-se subitamente a única coisa que me impede de desmaiar de vergonha.

— Mesmo assim, não devia ter falado nada. Eu nem sabia quem ele era. Que gafe terrível.

— Você só disse que ele é bonito e cheiroso, Gemima. Isso não é crime, é constatação de fato.

— Pepita!

— Está bem, está bem. Eu esqueço. Mas olha, só toma cuidado para o senhor Matheus não saber que você comentou sobre o filho dele. Você sabe como ele é. Ele tem outros planos para o senhor Giorgio.

A frase me faz levantar o olhar novamente.

— Outros planos?

— Casamento, negócios, alianças de família. Esse povo não pensa como a gente. Para eles, o filho é apenas uma peça num tabuleiro de xadrez financeiro.

Aperto os dedos nos talheres, sentindo a frieza do metal.

— Deus me livre. Eu só fiz um comentário, não tenho interesse nenhum. Meu único objetivo aqui é ganhar meu dinheiro para ajudar minha família em Noto. Não tenho tempo para sonhos de gente rica.

Pepita me observa por alguns segundos, o olhar perspicaz como se tentasse decifrar se estou sendo honesta comigo mesma.

— Eu sei. Mas às vezes a gente não escolhe quem olha para a gente.

— Pois eu espero que ninguém olhe.

Mal termino de falar e sinto um formigamento, um arrepio discreto percorrendo minha nuca. A sensação de ser observada é tão forte que, por um instante, penso que o próprio senhor Matheus está me encarando.

Levanto os olhos com cautela.

Ele está olhando para mim.

Giorgio está ao lado do pai, mas, por um breve momento, parece alheio à conversa de Matheus.

Seu olhar encontra o meu com uma franqueza absoluta, uma calma que me desconcerta. Meu coração dispara como um pássaro preso em uma gaiola.

Ele então faz um meio sorriso — um gesto quase imperceptível, educado, mas carregado de uma intenção que não consigo definir — e inclina levemente a cabeça.

Abaixo os olhos imediatamente, sentindo o peito arder.

— Você despertou a curiosidade dele, menina. — Pepita comenta, cutucando meu braço.

— Nego. Deve ter sido impressão minha. Deus me livre que ele olhe mais uma vez.

Ela apenas sorri, como se soubesse segredos que eu ainda não estou pronta para compreender.

— Vamos ver no que vai dar isso, Gemima.

Seguro o copo com as duas mãos, bebendo um gole de água enquanto tento forçar meu coração a retomar o compasso normal.

Quero acreditar que Pepita está exagerando, que o cumprimento do senhor Giorgio foi apenas um gesto de educação.

Mas, mesmo repetindo isso para mim, a inquietação permanece, um nó cego no meio do meu peito. Volto a comer devagar, forçando-me a pensar nas tarefas que me esperam à tarde.

Preciso separar os frutos, preciso da prensa, preciso da rotina. É a única coisa que me manteve inteira até hoje.

Só que, pela primeira vez desde que cheguei à fazenda Trovato, sinto que algo fundamental saiu do lugar. E essa sensação, mais do que qualquer repreensão do senhor Matheus, é o que realmente me assusta.

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