####CAPÍTULO 02

CONTINUAÇÃO

Saio do escritório de Marina sentindo o ambiente da fazenda de uma maneira completamente nova. — O ar parece mais carregado, saturado com o cheiro da terra e das oliveiras, mas agora, há algo mais.

— Um rastro cítrico, uma nota de limão siciliano que parece ter ficado impregnada no corredor, um eco invisível daquela funcionária que, sem saber, acabara de desafiar a estagnação que meu pai impunha a este lugar.

Enquanto caminho de volta para o meu carro, verifico o relógio.

— O tempo para Milão está apertado, mas minha mente, teimosa, recusa-se a focar nos contratos hoteleiros que me esperam.

A imagem daquela jovem — o rabo de cavalo simples, o rubor nas bochechas, a intensidade dos olhos verdes — repete-se em um loop incessante. Por que ela me causou um impacto tão súbito?

— Já conheci mulheres da alta sociedade, herdeiras de impérios, profissionais brilhantes, e ainda assim, nenhuma delas conseguiu, com apenas uma frase, desviar meu eixo daquela maneira.

Chego ao estacionamento onde meu motorista aguarda ao lado do sedã preto. — Entro no banco de trás, sentindo o conforto estéril do couro, que agora parece excessivo, quase frio.

— Pego meu celular, mas não abro a planilha de resultados trimestrais. — Em vez disso, fico parado, observando o movimento dos trabalhadores que passam perto da entrada principal, esperando, talvez, ver aquela silhueta castanho-clara atravessar o pátio novamente.

— Senhor, já podemos partir? — meu motorista pergunta, com a educação polida de sempre.

— Espere um instante. — respondo, a voz mais rouca do que eu pretendia.

Observo cada funcionária que caminha em direção aos pomares, buscando a vivacidade que aquela desconhecida exalava.

— A frustração por não saber o nome dela começa a crescer, misturada a uma vontade inusitada de descer do carro, voltar àquele escritório e exigir que Marina me entregue a ficha cadastral daquela moça.

— Mas isso seria um gesto impulsivo demais, algo que um homem na minha posição, sob o olhar vigilante do meu pai, não deveria cometer.

— Não é nada. Vamos. — ordeno, inclinando a cabeça para trás e fechando os olhos, tentando acalmar a pulsação.

O motor arranca com suavidade, enquanto a fazenda Trovato começa a diminuir pelo espelho retrovisor, sinto uma pontada de descontentamento.

— Aquela breve sugestão sobre os azeites aromatizados não era apenas uma ideia de negócio. — Era uma afronta ao conservadorismo do meu pai, uma brecha na armadura que ele construiu ao redor de nossas vidas.

Ao implementar aquela linha de produtos, eu não estaria apenas inovando; estaria, pela primeira vez em anos, desafiando a estrutura de poder que ele mantinha sobre mim.

Pego meu tablet, ignorando as notificações de e-mail dos hotéis, e começo a redigir uma nota mental sobre a logística dos novos azeites.

— Precisarei de uma equipe técnica de confiança, alguém que saiba manter o silêncio até que o primeiro lote esteja pronto.

E, acima de tudo, precisarei garantir que a "autora" da ideia esteja presente.

— Preciso dela por perto, preciso observar de onde vem aquela criatividade, aquela audácia de sugerir algo tão simples e tão revolucionário.

A viagem para o aeroporto é silenciosa, mas meus pensamentos estão longe de ser tranquilos. A sensação de que algo fundamental mudou é persistente.

— Como um magnata acostumado a controlar cada variável de seus investimentos, sinto-me desconfortável com essa variável inesperada: uma funcionária de nove meses, vinda dos limões, que sem um único toque, conseguiu desestabilizar minha rotina.

— Se ela soubesse que um simples comentário sobre temperos acabou de dar início a uma guerra silenciosa dentro da família Trovato... — penso, soltando um suspiro entrecortado.

Bettina, minha esposa, provavelmente estranhará meu entusiasmo repentino quando eu chegar a Milão.

— Ela, com seu perfeccionismo e sua gravidez de risco que a mantém sob cuidados médicos constantes, está acostumada a um Giorgio que lida com o trabalho como uma extensão fria do dever.

Ela não sabe lidar com o lado que acaba de ser despertado. — Não sabe que, enquanto ela espera por um marido previsível, eu estou voltando para casa com o plano de criar uma linha de azeites que leva o nome de um dos sentimentos mais intensos e proibidos que já experimentei.

Enquanto o jato decola, observando as colinas da — Sicília se tornarem pequenas manchas verdes lá embaixo, tomo uma decisão: esta linha de produtos terá o nome dela, mesmo que, por enquanto, o nome dela ainda seja um mistério para mim.

O azeite "Limão Siciliano" será o projeto que me trará de volta a esta fazenda o mais rápido possível.

— E da próxima vez que eu cruzar o corredor, não serei apenas um estranho parado à porta. — Eu serei o homem que vai descobrir exatamente quem é a moça que, com apenas algumas palavras, mudou o curso de tudo o que eu achava que conhecia sobre o meu próprio destino.

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