####CAPÍTULO 07

O JANTAR

A noite cai sobre a fazenda trazendo aquele silêncio profundo que só existe no campo, onde o único som é o das folhas sob a brisa noturna. Da varanda da casa principal, observo as fileiras de oliveiras balançando suavemente enquanto seguro uma garrafa de vinho que seleciono cuidadosamente na adega, um tinto robusto que parecia adequado para a ocasião. Sorrio sozinho, sentindo uma expectativa que não sabia que ainda era capaz de nutrir. Vamos ver o que Gemima preparou para eu degustar com os azeites.

Mal dou os primeiros passos em direção aos alojamentos quando o brilho do meu celular interrompe a paz da noite. O toque é insistente, irritante. Nem preciso olhar para a tela para identificar a origem daquela interrupção. Já sei exatamente quem é. Atendo sem diminuir o ritmo, mantendo o tom de voz gelado.

— O que você quer, Bettina?

Do outro lado da linha, sua voz sai carregada de reclamação e de uma possessividade que, ultimamente, me causa náuseas.

— Quando você volta para a Sicília? Por que demora tanto nessa fazenda?

Franzo a testa, sentindo o peso daquela obrigação social.

— Não sei, Bettina. Por quê?

— Seu pai me convidou para passar alguns dias aí. Quero te ver.

Fecho os olhos por um instante, respirando fundo para não explodir. Era só o que me faltava em meio a tantos planos.

— Não venha.

Ela permanece em silêncio durante alguns segundos, surpresa com a minha franqueza direta.

— Como assim, Giorgio? Eu sou sua esposa, o convite veio do seu pai!

— Eu estou trabalhando, Bettina. Você vem para cá e fica querendo passear, conversar, contar histórias fúteis. Eu não tenho tempo nem paciência para isso agora.

Ela suspira, um som dramático que me causa um revirar de olhos.

— Nossa, Giorgio... você tem mania de me tratar com esse desprezo. Só me trata bem naquela hora específica em que nós estamos abraçados em uma cama.

Seguro a vontade de encerrar a ligação imediatamente. O nível de infantilidade naquelas palavras é exaustivo.

— Aquilo é um momento de lazer e distração, não o centro da nossa vida. Agora estou trabalhando e tenho um jantar de negócios. Boa noite.

Sem esperar por uma réplica, encerro a chamada e guardo o aparelho no bolso do paletó. Só faltava essa distração, pensei comigo mesmo, retomando o caminho em direção aos alojamentos. Enquanto caminho, percebo que meu pai, por mais que tenha seus defeitos, realmente cuidou de melhorar as condições onde os funcionários vivem. Os jardins estão bem cuidados, as paredes receberam pintura nova e a iluminação amarelada deixa o ambiente muito mais acolhedor do que eu me lembrava de visitas anteriores.

Perto da escada de acesso aos blocos, encontro uma das senhoras que trabalha na limpeza da sede. Ela me reconhece imediatamente e para, fazendo uma pequena reverência.

— Boa noite, senhor Giorgio.

— Boa noite. A senhora poderia me dizer onde fica a kitnet da senhorita Gemima?

Ela aponta para o segundo andar com um sorriso prestativo.

— Número seis, senhor. É a primeira da direita.

— Obrigado.

Subo os degraus lentamente, sentindo o coração em um ritmo atípico. Não sei explicar por que estou tão curioso, nem por que esse jantar parece ter mais importância do que qualquer fechamento de contrato hoteleiro. Talvez seja pelos azeites. Talvez pelas ideias. Ou talvez, no fundo, seja apenas pela jovem que falou delas com uma paixão que eu não via há muito tempo.

Paro diante da porta de madeira pintada de branco. Bato duas vezes, num ritmo contido. Alguns segundos depois, a trava gira e a porta se abre, revelando uma Gemima que eu mal reconheço, mas que me deixa instantaneamente fascinado.

Ela acabou de tomar banho. Os cabelos castanho-claros estão soltos sobre os ombros, descendo pelas costas em ondas ainda levemente úmidas que brilham sob a luz do corredor. O rosto corado combina com o brilho intenso dos olhos verdes, e um perfume delicado, algo que remete à alfazema, invade meu espaço pessoal assim que a porta se abre.

Ela sorri, visivelmente surpresa com a minha pontualidade.

— O senhor chegou exatamente na hora.

Ela se afasta um pouco, abrindo espaço para eu entrar.

— Entre, senhor Giorgio.

Entro no ambiente. O pequeno apartamento é simples, quase espartano em termos de móveis, mas extremamente organizado. Há flores do campo sobre a mesa de refeições, uma toalha imaculadamente limpa, pratos dispostos com esmero e panelas ainda soltando um aroma irresistível que me abre o apetite.

Levanto discretamente a garrafa de vinho que trouxe.

— Trouxe um tinto para acompanharmos o jantar.

Ela sorri, sentindo-se mais à vontade.

— Vou colocá-lo no balde de gelo, embora o senhor talvez prefira beber em temperatura ambiente.

Enquanto ela se ocupa com o serviço, observo a mesa. Há um espaguete fumegante que exala um perfume de manjericão, duas saladas caprichadas e pequenos recipientes contendo diferentes amostras dos azeites. Ela percebe meu interesse e se aproxima.

— Espero que o senhor goste. Preparei duas opções de salada e alguns dos azeites que já havia desenvolvido com os temperos que lhe contei.

Sentamo-nos frente a frente. Ela serve o jantar com uma simplicidade desarmante, mas cada gesto seu carrega um cuidado que me chama a atenção. Não existe ostentação, não há o luxo frio ao qual estou acostumado em Milão. Existe apenas carinho e dedicação. Antes de provar qualquer coisa, resolvo que quero conhecê-la para além da funcionária.

— Marina comentou que você veio da região dos limões sicilianos.

Ela confirma com um sorriso nostálgico, os olhos brilhando.

— Sim. Minha família mora em Noto. Tenho pai, mãe e irmãos. Nós temos uma pequena plantação de limão siciliano que é o orgulho deles.

— Então vocês vivem apenas disso?

Ela balança a cabeça, em um gesto negativo.

— A plantação é pequena. Não sustenta toda a família o ano todo. Por isso meus pais também trabalham em outra fazenda próxima. Eu vim para cá justamente para aprender como funciona a colheita das olivas e todo o processo de produção do azeite em larga escala.

Escuto cada detalhe, notando a força nas palavras dela.

— Meu sonho sempre foi desenvolver azeites com temperos diferentes, para facilitar a vida das pessoas na cozinha. Um azeite pronto para saladas, outro para massas, outro para carnes... coisas assim.

Sorrio, confirmando que a visão dela era tão clara quanto a minha. Enrolo um pouco do espaguete no garfo e levo à boca, observando-a enquanto ela aguarda minha reação com uma expectativa quase tímida. O sabor me surpreende instantaneamente.

Fecho os olhos por um instante, saboreando. O alho aparece primeiro, profundo e tostado. Depois vem o alecrim, fresco e herbal. No final, um equilíbrio perfeito que não permite que nenhum ingrediente domine o outro. Abro os olhos e encaro a dona daquelas mãos.

— Meu Deus... isso está divino. Realmente divino.

Ela sorri, genuinamente envergonhada, o que a deixa ainda mais atraente.

— Que bom que o senhor gostou. Fico aliviada.

Pego um dos pequenos recipientes com azeite temperado.

— O que você colocou exatamente aqui?

Ela ri, um som doce e espontâneo.

— Só aquilo que falei para o senhor. Alho, alecrim... e uma receita secreta que não vem ao caso agora.

Acabo rindo também, contagiado pelo seu bom humor.

— Receita secreta? Então estamos falando de uma alquimista?

Ela confirma com um aceno, os olhos rindo.

— Toda família tem seus segredos, senhor Giorgio. Esse é o meu.

Provo a salada. O sabor é igualmente surpreendente, natural, sem excessos. Olho novamente para Gemima, sentindo que, em apenas algumas horas, essa jovem ocupou um espaço que Bettina nunca conseguiu, em anos.

— Vou precisar voltar outras vezes, Gemima.

Ela arregala levemente os olhos, surpresa.

— Para quê? O senhor já está jantando...

— Para provar os outros sabores que você mencionou.

Ela sorri, dessa vez sem esconder a alegria. Continuo a conversa, mudando para temas mais leves. As horas passam sem que eu perceba o relógio. Falamos sobre a Sicília, sobre as dificuldades da agricultura, sobre a diferença entre a vida na metrópole e a vida no campo.

Quando finalmente olho para o relógio na parede, já passam das nove da noite. Levanto-me, sentindo uma relutância real em partir.

— Preciso ir. Amanhã teremos uma reunião cedo.

Ela também se levanta, acompanhando-me até a porta.

— Obrigada por ter vindo, senhor.

Pego a caixa com as garrafas que ela separou para mim. Antes de sair, olho uma última vez para aquele pequeno alojamento. Tudo ali reflete quem ela é: simplicidade, dedicação e um talento bruto que implora para ser lapidado.

Ao deixar o alojamento, caminho lentamente em direção à casa principal. O vento da noite traz novamente aquele perfume de alfazema que parece ter ficado preso ao meu terno. Esses azeites precisam passar pelo laboratório, preciso da validação técnica. Se a análise confirmar o que acabei de provar, não tenho dúvida nenhuma sobre o próximo passo.

Vou lançar uma nova linha de produtos. E ela terá participação direta nesse projeto. Sorrio sozinho, pensando na surpresa que isso causará ao meu pai. Gemima não me apresentou apenas uma receita, ela me apresentou o futuro da família Trovato, e eu farei questão de que ela seja devidamente reconhecida por isso.

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