####CAPÍTULO 06

O CONVITE

Sinalizei discretamente para um dos funcionários do serviço, um rapaz jovem que mantinha o refeitório em ordem. Troquei algumas palavras rápidas com ele, mantendo o tom baixo, e apontei para a mesa onde Gemima ainda se encontrava, quase escondida atrás da amiga.

Vi o garçom assentir com um respeito automático e começar a caminhar pelo salão. Ele desviava entre as mesas com uma seriedade profissional, mas havia algo na sua postura que deixou o ambiente em estado de alerta. Pude ver o momento exato em que a mensagem chegou até ela.

Gemima sentiu-se minúscula, sentada ali com o avental manchado pelo trabalho pesado da manhã. O burburinho ao seu redor começou a crescer, com outros funcionários sussurrando e lançando olhares curiosos sobre o movimento incomum de um magnata enviando um garçom até a mesa de uma simples trabalhadora.

O rapaz limpou a garganta ao se aproximar, mantendo a postura firme, mas seus olhos mostravam que ele também estava surpreso. Gemima, ao ser abordada, parecia querer sumir sob a cadeira. Seu coração disparava tanto que, da distância onde eu estava, percebi a respiração dela acelerada.

Ela tentou engolir o seco, mas a garganta parecia travada pela tensão. Respondeu algo curto, tentando controlar o tremor nas mãos que ela tentava, inutilmente, esconder sob a mesa. O garçom indicou a minha direção, e pude ver o terror e a curiosidade se misturando no olhar dela.

O silêncio ao redor pareceu se intensificar, como se cada pessoa no refeitório estivesse suspensa no tempo, esperando para ver qual seria a reação daquela moça perante o convite. Eu a observava com calma, esperando que ela encontrasse a coragem necessária para dar o passo seguinte.

Ela não tinha como recusar. O filho do patrão acabara de convocar uma funcionária comum para uma conversa particular, e eu sabia que, a partir daquele segundo, o seu anonimato na fazenda Trovato deixaria de existir. O peso de ser o centro das atenções era o que ela mais temia, mas o medo do que eu poderia querer saber sobre sua ideia era ainda maior.

Levantou-se devagar, sentindo as pernas bambas, como se o chão tivesse se tornado instável sob seus pés. Ajeitou o avental instintivamente, tentando limpar qualquer vestígio de desleixo antes de encarar o magnata. Era uma tentativa vã, mas revelava muito sobre o seu caráter.

Cada passo em direção à minha mesa parecia durar uma eternidade, com dezenas de pares de olhos acompanhando sua trajetória hesitante. Aquele era o limiar de um novo capítulo para ela, e eu sabia que não haveria caminho de volta para a simplicidade que ela tanto tentava proteger.

— Boa tarde, senhor. O senhor gostaria de falar comigo? — ela perguntou, tentando manter a voz estável enquanto apertava as pontas dos dedos contra a madeira da mesa.

Levantei o olhar, e a intensidade de seus olhos verdes, mesmo nublados pelo medo, deixou-me momentaneamente sem fôlego. Havia ali uma centelha de inteligência que eu não conseguia ignorar.

— Sim. Sente-se, por favor. Você se chama Gemima, não é?

— Sim, senhor. — ela sentou-se na ponta da cadeira, sentindo-se uma intrusa em um espaço que, tecnicamente, era de sua própria labuta diária.

— Você já terminou seu almoço? Quer pedir algo mais para terminar?

— Não, senhor. Pode falar logo, por favor. Eu tenho que voltar para o trabalho.

Soltei um riso curto, um som que serviu para suavizar o ambiente tenso que criamos.

— Eu ouvi o seu diálogo com Marina hoje cedo. Achei extremamente interessante. Quais sugestões você tem exatamente? E por que você mencionou aquela ideia dos sabores?

Senti o calor subir novamente pelo rosto dela. O nervosismo lutava contra a sua paixão pelo que fazia, e o resultado era fascinante.

— É que... bem, o azeite de vocês é o melhor que já provei na vida. Mas, quando fazemos uma salada em casa, a gente precisa adicionar sal, alecrim, especiarias. Pensei que, como o azeite de vocês já tem essa qualidade superior, poderiam criar uma receita própria, já com os temperos que as pessoas mais usam.

Ela falava com uma convicção que me impressionava, superando a timidez inicial. Continuei ouvindo cada palavra com uma atenção absoluta, fascinado pela simplicidade daquela lógica.

— Por exemplo, para saladas, o azeite já viria infusionado com limão e ervas finas. Para carnes, pimenta, alho e alecrim. Eu faço isso nas minhas garrafas quando cozinho no alojamento à noite. Já experimentei em massas e até em camarões... fica muito saboroso.

Inclinei-me para frente, apoiando os cotovelos na mesa, com um interesse genuíno. A forma como ela descrevia as combinações mostrava que ela não apenas seguia receitas, mas as inventava.

— Interessante. Gostei muito. Você realmente faz isso?

— Sim, senhor. Como não nos dão o jantar, eu gosto de preparar minha própria comida e acabo testando essas combinações.

Observei-a por um longo momento, em silêncio, processando a oportunidade que estava diante de mim, antes de tomar uma decisão que fez o coração dela disparar.

— Eu gostaria que você preparasse um prato e uma salada para eu degustar com o seu azeite temperado. — fiz uma pausa, baixando o tom para algo mais íntimo. — Hoje à noite, posso ir até o seu alojamento para provar?

O mundo parou. Meus olhos fixaram-se nos dela, que estavam arregalados em um choque absoluto.

— Meu Deus... acho que não é apropriado, senhor.

— É uma questão de negócio, Gemima. Eu preciso provar para decidir se investimos nessa ideia. Prepararia para mim?

Vi a luta interna dela. A necessidade de obedecer versus o medo paralisante da exposição.

— Eu preparo. A que horas o senhor pode ir?

— Estarei lá às 20 horas. É tempo suficiente para você providenciar os ingredientes?

— Sim, senhor, eu consigo.

Sorri para ela, um sorriso verdadeiro que iluminou meu rosto e pareceu desarmá-la completamente.

— Então, nos vemos às 20 horas.

Ela saiu da mesa como se estivesse caminhando sobre um precipício. Observei-a voltar para a fábrica, sua silhueta diminuindo entre as oliveiras. A noite chegaria logo, e com ela, a chance de provar que uma simples funcionária poderia, de fato, mudar o futuro de toda a família Trovato.

Após se afastar da mesa de Giorgio, senti que meus pulmões finalmente voltaram a captar oxigênio, embora o desespero tivesse apenas mudado de endereço. Caminhei de volta para a mesa de Pepita, tentando manter uma postura neutra diante de todos os olhares que me fuzilavam.

Ao me sentar, Pepita se inclinou imediatamente em minha direção. Seus olhos eram janelas escancaradas para a curiosidade desenfreada.

— E então, Gemima? — ela sussurrou, a voz contida por um esforço hercúleo. — O que ele queria? Você demorou uma eternidade e parecia que ia desmaiar a qualquer segundo.

Eu tremia, segurando a borda da mesa para que minhas mãos não denunciassem o turbilhão interno.

— Pepita... ele quer provar meu azeite. Ele vai lá no alojamento às oito da noite.

Ela soltou um som de choque quase imperceptível, cobrindo a boca com as mãos. O susto em seus olhos foi genuíno e imediato.

— Você está brincando! O filho do patrão, no nosso alojamento? Gemima, isso é um absurdo! Se o senhor Matheus descobre, a gente está na rua em cinco minutos, sem direito nem a explicar.

— Eu sei, eu sei! — eu choramingava baixinho, sem saber se ria de nervoso ou se chorava de pavor. — Mas ele disse que é negócio. Ele quer provar o azeite temperado da Série Sabores. Não tive como dizer não.

— Pois vá logo trabalhar, menina! E reze para que nada dê errado. Esse homem pode ser gentil, mas o pai dele é o próprio diabo em pessoa quando o assunto é o controle da família.

O resto da tarde foi um borrão cinzento na minha memória. Minha mente não estava mais focada nas azeitonas ou na esteira de seleção; ela estava no relógio, que parecia correr com uma velocidade desumana. Cada minuto que passava me aproximava do momento mais assustador da minha vida na fazenda.

Às 17 horas, o apito que marcava o fim do turno soou como uma sentença libertadora e, ao mesmo tempo, como um aviso de perigo. Corri, quase tropeçando nos próprios pés, em direção à pequena venda nos limites da propriedade antes que baixassem as portas.

O coração na boca, comprei os ingredientes que me faltavam: alho fresco, pimentas selecionadas que davam um brilho especial ao molho, alecrim de qualidade e o básico que faltava na minha dispensa improvisada.

Com os sacos pesando nas mãos e o suor escorrendo pelo rosto pelo esforço e pela ansiedade, fui direto para o alojamento das moças. O lugar estava silencioso, com a maioria das colegas ainda espalhada pela fazenda ou descansando em seus aposentos.

Entrei no meu quarto e fechei a porta atrás de mim, sentindo o peso da responsabilidade sobre os ombros. Ajeitei tudo sobre a pequena mesa, lavei os ingredientes com um cuidado cirúrgico que nunca tive nem com as minhas próprias roupas.

A preparação começou em um ritual de nervosismo. O cheiro dos temperos invadiu o pequeno quarto, misturando-se à minha ansiedade constante. Piquei o alho, selecionei as ervas, tudo com uma precisão que eu não sabia possuir. Precisava estar impecável.

Depois de horas de preparo, tomei um banho rápido, tentando lavar a exaustão daquela jornada física e emocional. Vesti a roupa mais decente que eu guardava, algo simples, mas que passava uma ideia de organização e dignidade. Arrumei o prato, a salada e as garrafas de azeite aromatizado que eu criara.

Olhei para o relógio na parede. 19h55. O silêncio do alojamento parecia me julgar, cada ruído do corredor soando como o início de uma catástrofe. Eu estava pronta, mas o medo de estar cometendo o maior erro da minha vida me fazia querer desaparecer.

Foi então que o som cortou o ar, seco e definitivo. Três batidas na porta.

Meu coração parou por um segundo. O toque não era de ninguém do alojamento; era firme, autoritário e carregado de uma expectativa que eu não sabia se poderia corresponder. Caminhei até a porta, sentindo que cada passo era um salto no escuro. Estendi a mão, segurei a maçaneta e, com um suspiro trêmulo, abri a porta.

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