####CAPÍTULO 04

CONTINUAÇÃO

O clima no refeitório tornou-se subitamente denso, quase palpável, como se o ar tivesse adquirido uma densidade física que dificultava a respiração.

— Cada vez que eu tentava levar o talher à boca, minha mão hesitava no meio do caminho, traída por um tremor involuntário.

Meus olhos insistiam em desafiar minha própria vontade, desviando-se constantemente para a mesa de madeira maciça onde a família Trovato estava sentada.

— O senhor Matheus falava algo com rispidez, gesticulando com o dedo indicador, enquanto Giorgio, o filho, mantinha uma postura contida, quase alheia ao sermão do patriarca.

— Coma, Gemima. Se você parar de comer, vai parecer que está passando mal ou escondendo algo.

— Pepita sussurrou, mantendo o rosto voltado para o prato e o tom de voz quase inaudível.

Tentei forçar uma garfada, mas o gosto da comida parecia ter se perdido por completo.

— A conversa na mesa dos patrões era impossível de escutar, mas a tensão que emanava dali era clara para qualquer um que observasse com um pouco mais de atenção.

Vi o senhor Matheus levantar-se de repente, com uma brusquidão que chamou a atenção de quem estava próximo.

— A cadeira arrastou-se contra o piso de pedra com um som metálico agudo que fez o refeitório inteiro prender a respiração por um breve instante.

Ele caminhou a passos largos em direção à saída, sem olhar para ninguém, o rosto fechado pela autoridade que carregava como uma armadura impenetrável.

— Giorgio, no entanto, não o seguiu como seria de costume; ele permaneceu sentado por um momento, observando o pai partir com uma expressão pensativa e distante.

Senti meu peito apertar, um aperto que misturava medo e uma estranha e indesejada expectativa. — Era o momento ideal para eu terminar meu almoço, pedir licença para Pepita e fugir dali, retornando para a segurança quase bucólica das esteiras de seleção e dos cestos de azeitonas.

Eu deveria me levantar agora mesmo e me retirar. Mas, quando finalmente criei coragem para erguer o corpo, o olhar de Giorgio atravessou o espaço entre as mesas e ancorou-se diretamente em mim, travando qualquer movimento que eu pudesse esboçar.

Enquanto ele continuava ali, sozinho, vi quando sinaliza algo de forma discreta para um dos funcionários. — Ele não se levantou, nem caminhou em minha direção, mantendo uma calma que me deixava ainda mais vulnerável.

Apenas chamou um dos funcionários do serviço, um rapaz que cuidava da organização do refeitório, e trocou algumas palavras rápidas com ele.

— Vi o garçom assentir com um respeito que beirava a reverência e começar a caminhar pelo salão, desviando entre as mesas com uma seriedade que me deixou em estado de alerta.

— Ele está vindo para cá, Gemima. E não parece que vai atender ninguém além de nós. — Pepita sussurrou, a voz carregada de um nervosismo que eu mal conseguia conter.

O garçom parou ao lado da nossa mesa, bloqueando a visão dos outros funcionários. Eu me senti minúscula, sentada ali com o avental manchado de trabalho enquanto notava o início de um burburinho sobre o movimento incomum.

O rapaz limpou a garganta, mantendo uma postura profissional, mas seus olhos mostravam que ele também estava surpreso e desconfortável com a natureza do pedido que precisava entregar.

— Com licença. — ele começou, olhando diretamente para mim, como se pedisse desculpas pelo incômodo.

Meu coração parecia querer saltar pela boca e ecoar pelas paredes do refeitório. Tentei engolir o seco, mas a garganta estava completamente travada, como se tivessem depositado cinzas nela.

— A senhorita é a Gemima, correto?

— Sim, sou eu. — respondi, tentando controlar o tremor nas mãos, que escondi prontamente sob a mesa para que ninguém notasse.

O garçom fez uma breve pausa, indicando a direção da mesa onde o senhor Giorgio ainda permanecia sentado, observando-nos com uma calma desconcertante.

— O senhor Giorgio gostaria que a senhorita fosse até a mesa dele agora. Ele disse que precisa conversar com você sobre um assunto de trabalho.

O silêncio ao redor pareceu se intensificar, como se cada pessoa no refeitório estivesse suspensa, esperando para ver qual seria minha reação. Senti o olhar de Pepita em mim, um misto de incentivo mudo e receio, enquanto a realidade do pedido se instalava pesadamente no meu peito.

Eu não tinha como recusar, o filho do patrão acabara de convocar uma funcionária comum para uma conversa particular, e eu sabia que, a partir daquele segundo, o meu anonimato na fazenda Trovato deixaria de existir.

— O peso de ser o centro das atenções era o que eu mais temia, mas o medo do que ele poderia querer saber sobre minha ideia era ainda maior.

Levantei-me devagar, sentindo as pernas bambas, como se o chão tivesse se tornado instável.

— Ajeitei o avental instintivamente, tentando limpar qualquer vestígio de desleixo antes de encarar o magnata.

— Cada passo em direção à mesa dele parecia durar uma eternidade, com dezenas de pares de olhos acompanhando minha trajetória.

Aquele era o limiar de um novo capítulo, e eu sabia que não havia caminho de volta para a simplicidade de antes.

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