####CAPÍTULO 05

O ALMOÇO

Sento-me diante do meu pai no refeitório da fazenda, um ritual que mantenho religiosamente sempre que venho à Sicília.

— Gosto de observar a rotina, conversar com os funcionários e entender, na prática, como as engrenagens da empresa giram.

Não existe relatório de diretoria que substitua o contato direto com as pessoas que fazem este negócio funcionar todos os dias. — Meu pai, como de costume, exibe seu descontentamento evidente antes mesmo de levar o primeiro bocado de comida à boca.

— Eu não sei por que você insiste nisso, Giorgio. — Ele diz, com um desdém que mal tenta esconder.

Continuo cortando um pedaço de carne, movendo a faca com precisão, antes de levantar os olhos para encará-lo.

— Insisto em quê, exatamente?

Ele faz um gesto amplo com a mão, uma demonstração de repulsa que engloba todo o refeitório, as mesas simples e o pessoal da produção.

— Você passou a manhã inteira sobrevoando a fazenda, olhando oliveiras, verificando a produção, conversando com gerentes e funcionários... Agora resolve me chamar para almoçar aqui, junto com essa ralé.

Seguro o garfo por alguns segundos, sentindo a tensão subir pela nuca. — Já ouvi esse discurso tantas vezes que poderia repetir cada palavra antes mesmo de ele pronunciá-las. Levanto os olhos com calma, mantendo a voz baixa e controlada.

— Acontece, papai, que é essa "ralé" que lhe dá todo o conforto que o senhor tem hoje.

Ele franze a testa, o rosto ficando avermelhado pela ousadia da minha resposta. Eu não recuo.

— É essa gente que paga o seu avião, o seu helicóptero, seus carros de luxo e as suas mansões. São essas pessoas que acordam antes do sol nascer para cuidar das oliveiras enquanto nós ainda estamos dormindo em camas confortáveis. Se eles pararem um único dia, toda essa sua fortuna começa a desmoronar.

Meu pai balança a cabeça, claramente irritado com minha falta de submissão à sua visão de mundo arcaica.

— Você puxou isso da sua mãe. Essa mania ridícula de tratar funcionário como se fosse da família.

Sorrio discretamente, uma lembrança agridoce invadindo meus pensamentos.

— Mas eles são, de certa forma, uma extensão da nossa família. Sem eles, nós não existiríamos como empresa. O respeito não diminui a nossa posição; pelo contrário, fortalece a lealdade deles.

Ele revira os olhos, descartando minhas palavras como se fossem ruído. — Percebo que não adianta insistir naquele assunto; meu pai nasceu acreditando que patrão precisa ser temido para ser respeitado.

— Eu penso exatamente o contrário: a liderança é um elo de confiança. Resolvo mudar o foco da conversa, sentindo uma pontada de curiosidade ao lembrar do corredor.

— Por falar nisso, hoje ouvi uma funcionária conversando com dona Marina. Ela sugeria que criássemos uma linha de azeites com sabores diferentes. Achei a ideia fascinante.

Meu pai larga os talheres sobre o prato com um baque seco.

— Lá vem você novamente com essas suas invenções moderninhas.

Espero que ele termine seu protesto, mantendo a postura serena.

— Nosso azeite é o melhor da Itália, Giorgio. O mundo inteiro compra nossos produtos. Nunca precisamos dessas modinhas de mercado para manter nosso nome no topo.

— Justamente porque somos os melhores, temos a obrigação de inovar, papai.

Ele balança a cabeça com desdém.

— Agora você quer inventar essa série de sabores? Daqui a pouco vai querer colocar perfume dentro do azeite também.

Respiro fundo, contando até três mentalmente para não perder a paciência.

— Eu vou chamar essa funcionária para conversar. Quero ouvir todas as ideias dela. Pelo que escutei, ela entende muito bem de combinações de sabores.

Meu pai ri de maneira debochada, como se eu tivesse contado uma piada de mau gosto.

— Agora deu mesmo. O dono da empresa vai receber consultoria de uma funcionária da colheita.

Olho diretamente para ele, com a voz firme.

— As melhores ideias nem sempre vêm de quem ocupa a melhor cadeira, papai. Às vezes, vêm justamente de quem coloca a mão no produto todos os dias.

Ele fica alguns segundos em silêncio, a mandíbula travada. Depois, decide mudar de assunto, como se eu fosse um caso perdido.

— Hoje eu tenho um compromisso.

Não respondo, apenas volto a comer, já imaginando para onde a conversa vai desaguar.

— Aliás, você sabe que Bettina vem para a fazenda nos próximos dias.

Continuo almoçando, sem demonstrar qualquer emoção.

— E o que eu tenho a ver com Bettina?

Meu pai sorri, um sorriso calculado.

— Você sabe muito bem qual é o meu sonho. Ver você casado com ela e unir definitivamente as nossas famílias.

Largo os talheres e olho para ele com seriedade.

— Mas esse nunca foi o meu sonho.

Ele estreita os olhos, a voz caindo para um tom perigosamente baixo.

— Bettina é uma excelente moça, de família, com a mesma visão que nós.

— Nunca disse o contrário. Gosto muito dela. É uma boa amiga.

— Então qual é o problema?

Olho fixamente para o meu pai, a verdade saindo sem filtros.

— O problema é que eu quero me casar por amor.

Ele ri, uma risada seca e sem qualquer brilho nos olhos.

— Eu também não me casei por amor com sua mãe. E vivemos muitos anos "felizes".

Sinto um aperto atravessar meu peito, uma dor física que nem o tempo conseguiu atenuar. Minha mãe. Mesmo depois de dez anos, basta alguém mencionar seu nome para que a saudade volte inteira, latejante. Olho para meu pai sem desviar os olhos, desafiando-o.

— Felicidade? — minha voz sai muito mais baixa do que eu esperava. — O senhor chama aquilo de felicidade?

Ele fecha a expressão, o orgulho ferido transparecendo.

— Sua mãe foi uma excelente esposa, Giorgio.

— Minha mãe foi uma mulher apagada, pai.

O silêncio toma conta da mesa, um silêncio pesado e opressor. Continuo antes que ele tente me interromper com outra desculpa.

— Ela morreu de tristeza. Passou anos fingindo que não via suas traições. Passou anos sorrindo apenas para esconder a dor. Faz exatamente dez anos que minha mãe morreu.

Meu pai aperta os lábios, visivelmente desconfortável com a lembrança.

— Respeite seu pai.

— Eu respeito. Mas também respeito a memória da minha mãe. — minha voz endurece, ganhando um peso novo. — Um mês depois da morte dela, o senhor já estava nas suas festas, rodeado de mulheres, como se nada tivesse acontecido. O senhor não vai fazer da minha vida uma repetição da vida dela. Eu não vou me casar por obrigação, nem por dinheiro, muito menos por tradição.

Ele empurra a cadeira para trás, levantando-se.

— Você continua tão teimoso quanto ela.

— Se isso significa acreditar no amor, então continuo mesmo.

Meu pai pega o paletó, já caminhando para se retirar.

— Tenho um encontro. Não vou perder mais tempo discutindo esse assunto.

Faço um leve movimento com a cabeça, desdenhando da sua fuga.

— Então vá para o seu encontro.

Ele se afasta sem olhar para trás, deixando o silêncio preencher o vazio entre nós. Sempre que conversamos sobre ela, tudo termina exatamente assim. Respiro fundo, tentando limpar a mente daquela amargura. Faço um sinal discreto para uma das garçonetes, que se aproxima rapidamente.

— O senhor deseja alguma coisa?

— Sim. — olho discretamente em direção às mesas dos funcionários.

Gemima continua sentada ali, conversando baixo enquanto termina o almoço. Volto minha atenção para a garçonete, mantendo a voz neutra.

— Você pode chamar aquela senhorita para conversar comigo?

Ela acompanha meu olhar, surpresa.

— O senhor está falando da Gemima?

Sorrio levemente, sentindo um alívio inexplicável ao descobrir o nome dela.

— Gemima... então esse é o nome dela?

— Sim, senhor.

— Faz muito tempo que trabalha aqui?

— Não, senhor. Uns oito ou nove meses, mais ou menos.

— Ela é uma boa funcionária?

A garçonete sorri, com uma espontaneidade que me agrada.

— Todo mundo gosta muito dela. É muito educada, muito esforçada e aprende rápido. Nunca tivemos problema.

Assinto lentamente. Era exatamente a impressão que tive. Uma mulher simples, observadora, inteligente. E, pelo visto, bastante querida por todos.

— Ela mora aqui na sede da fazenda?

— Sim, senhor. No alojamento das moças.

Volto os olhos discretamente para Gemima. Ela continua conversando com a amiga, completamente alheia ao fato de que estou investigando sua vida e seus passos dentro da fazenda. Sorrio de leve.

— Muito obrigado.

A garçonete faz um pequeno cumprimento.

— Deseja que eu a chame agora?

Seguro o guardanapo por um instante, sentindo a decisão tomar forma. Quero ouvir todas aquelas ideias sobre os azeites e, por um motivo que nem eu consigo explicar racionalmente, quero conhecer melhor a jovem que teve a audácia de enxergar possibilidades onde todos, durante décadas, viram apenas a mesma tradição estagnada.

— Sim. Por favor... diga que eu gostaria de conversar com ela.

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