Capítulo 4

Yannis

O user Ghost era um amador. Um mercenário de baixo nível que provavelmente vendia sensações baratas no The Void apenas para manter o aluguel de algum cubículo úmido e o estoque de comida congelada em dia.

Encontrá-lo foi um exercício ridículo, como resolver um quebra-cabeça de dez peças destinado a crianças. Um dia depois de ter flagrado o nome de usuário dela brilhando na tela do celular enquanto eu recolhia as xícaras da mesa atrás da sua, eu já tinha o endereço real dele, o IP, o histórico bancário e todas as vulnerabilidades que ele tentava esconder atrás de um firewall de segunda categoria.

Eu não precisei sair de casa para destruí-lo. O mundo digital é o meu reino, lá eu era uma espécie de rei,a começar pela forma como era conhecido no meio.

Na noite de terça-feira, enquanto o resto da cidade dormia sob a falsa segurança de suas senhas alfanuméricas, eu iniciei o protocolo. Abri uma janela de chat criptografada, direta e invasiva, que saltou na tela dele como um espectro.

Alphaking: Você tem um encontro na Rua 4 amanhã à noite. Um encontro com a usuária 'Canelinha'.

Ghost: Quem é você? Como entrou aqui?

Alphaking: : Alguém que pode apagar sua existência digital em dez segundos ou dobrar o valor do seu contrato em cinco. Você escolhe.

Enviei o comprovante da transferência. Uma fração das minhas carteiras frias de criptomoedas, dinheiro que a polícia, em sua infinita inexperiência, nunca conseguiu rastrear quando queimaram minha ficha criminal.

Eles acham que me reabilitaram, que me transformaram em um cidadão comum que ganha a vida atrás de um balcão de cafeteria. Eles precisam dessa ilusão e eu preciso daquele avental para manter as aparências.

O emprego estável é minha camuflagem perfeita contra os oficiais de condicional, ninguém suspeita do cara que decora se você prefere adoçante ou açúcar mascavo.

Mas, por baixo da camiseta verde e do cheiro de café torrado, eu ainda sou o arquiteto do mundo digital. E eu tenho liquidez suficiente para comprar aquela cafeteria dez vezes antes do fechamento do caixa.

Alphaking: O dinheiro está na sua conta. Agora, passe as credenciais do fórum e suma. Se eu detectar um único login seu, ou se você chegar a cem metros daquela esquina, eu envio seu histórico de buscas para a divisão de crimes cibernéticos. Entendido?

A resposta foi imediata. O medo tem um cheiro específico, mesmo através de fibras ópticas. As credenciais foram entregues. O contrato dela agora era meu. Eu não estava apenas assumindo um papel,eu estava comprando o direito de possuir a noite de Elizabeth.

...

Agora, no café, o relógio na parede parece zombar da minha paciência. Cada segundo é um arquivo carregando com uma lentidão desesperadora.

Eu estou em um estado de alerta que não sentia há anos, uma vibração sob a pele que me lembra de quem eu realmente sou.

Às 15:00 em ponto, o sino da porta toca. É ela.

Mas hoje ela não está sozinha. Elizabeth, minha canelinha, minha obsessão impecável entra e vai ao encontro de uma amiga. Eu as observo enquanto finjo limpar o balcão.

A acompanhante é uma mulher por volta dos trinta anos, com um olhar pragmático e uma postura relaxada, o oposto da rigidez quase aristocrática de Elizabeth.

Elas se cumprimentam,se abraçam e sorriem. Sei que é seu aniversário,a mulher que está com ela já havia me feito um pedido especial antes dela chegar. Estão em uma mesa reservada e começam uma conversa que, para qualquer ouvido comum, seria apenas o diálogo natural de duas adultas comemorando um aniversário.

Mas eu não sou um ouvido comum. Eu a escaneio. Vejo o tremor imperceptível nas mãos de Elizabeth quando ela ajusta o relógio de pulso. Noto como seus olhos fogem para a janela, buscando alguma passagem de tempo.

Ela está interpretando o papel da executiva bem-sucedida, da amiga presente, mas o seu "código" está falhando. O desejo de ser quebrada está vazando pelas frestas da armadura que ela mesma deve ter construído por anos.

Quando a amiga me chama para trazer o bolo, sinto o gosto metálico da vitória. Vou até a cozinha e preparo o prato. Ignoro os bolos coloridos e infantis. Escolho uma fatia de chocolate amargo, denso, quase negro.

É um teste de resistência. Quero ver se ela consegue digerir a intensidade do que está por vir antes mesmo de chegarmos à rua. É incrível pensar que ela planejou isso pra hoje,seu próprio presente de aniversário.

Caminho até a mesa. O som dos meus passos parece ecoar no silêncio que eu projetei em volta dela. Coloco o bolo na mesa com precisão.

— Presente da sua amiga.

Digo, a voz baixa, calibrada para vibrar apenas na frequência dela.

— Achei que você não ia querer nada... clichê hoje.

Eu disse, deixando minha voz descer um oitavo.

A palavra "clichê" flutuou entre nós como um código.

— Obrigada.

Ela respondeu.

Curta. Seca. Uma tentativa desesperada de retomar as rédeas da interação e me colocar de volta na caixa de "apenas o atendente".

Eu dei um meio sorriso, aquele que eu sabia que a tirava do eixo, e me inclinei um pouco mais, invadindo o espaço pessoal que ela protegia com tanto zelo.

— De nada, Canelinha.

Retruquei, saboreando a forma como o apelido soou como um segredo compartilhado entre dois cúmplices.

Vi o pulso dela saltar no pescoço.

— Coma tudo.

Sussurro, inclinando-me o suficiente para que ela sinta o calor da minha presença.

— Você vai precisar de energia para o que vem depois....O horário de pico ainda nem começou.

A amiga ri, fazendo algum comentário sobre minha atenção aos detalhes, mas Elizabeth não consegue acompanhar a brincadeira. Ela está paralisada.

Eu volto para trás do balcão e observo-as de longe. Ela mexe no chocolate com o garfo, mas sei que não está sentindo sabor nenhum.

Ela está pensando na Rua 4. Está imaginando o homem sem rosto que ela contratou para dominá-la. Mal sabe ela que o verdadeiro"Ghost" foi deletado. O contrato foi atualizado.

Meu turno acaba em uma hora. Vou para casa, trocarei o avental pelo preto que me funde às sombras e estarei lá, esperando na esquina. Ela pediu uma surpresa. Eu vou entregar isso a ela.

A noite vai ser longa, Elizabeth. E eu mal posso esperar para ter o controle de todo o seu prazer.

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