Mundo de ficçãoIniciar sessãoElizabeth
A tensão no escritório estava quase insuportável, mas não porque o trabalho estivesse difícil. Pelo contrário, tudo corria com uma perfeição irritante. Olhei para o relógio na parede: 15:30. Faltavam pouco mais de trinta horas. Amanhã, quando o sol se pusesse, eu não seria mais a Dra. Sullivan, a mulher que decide o destino de contratos milionários. Amanhã à noite, no meu aniversário, eu seria apenas uma mulher em uma esquina, esperando pelo desconhecido. Pressionei as têmporas, tentando focar na planilha de custos à minha frente, mas os números pareciam flutuar. Eu tinha tudo, uma carreira sólida, um apartamento de luxo, o respeito dos meus pais. E, no entanto, a única coisa que me fazia sentir viva era o segredo guardado no meu celular. Muitas pessoas ganham joias ou viagens de trinta anos. Eu me daria sexo proibido com um estranho em uma esquina em circunstâncias duvidosas. As palavras do meu ex namorado Marcus, ditas há cinco anos, ecoaram na minha mente como um veneno."Você é um bloco de gelo, Elizabeth. É frígida. Não se importa com mais nada além desse seu trabalho." Eu apertei o lápis com força entre meus dedos, tanto que ele se partiu ao meio. Ele estava errado. Eu não era frígida,eu apenas não tinha encontrado alguém com fogo o suficiente para me derreter. Até agora. O pensamento de encontrar aquele homem, o sujeito do fórum com quem eu vinha trocando mensagens cifradas, era como uma corrente elétrica constante sob a minha pele. Imaginei a cena pela centésima vez, o frio da noite, o silêncio da Rua 4, e o momento em que o controle deixaria de ser meu. Eu não sabia como era o rosto dele. Não sabia o nome dele. Só sua idade que era 29 e esperava que isso fosse verdade. E essa era a parte mais excitante. Pela primeira vez na vida, eu não era a roteirista da cena, eu era apenas a protagonista de um roteiro escrito por um estranho. O celular vibrou na mesa de cabeceira. Eu estava revisando um contrato. Era June Connor. Minha melhor amiga. — Trinta anos amanhã, Elizabeth. Já preparou o testamento? A voz dela veio seca, carregada do sarcasmo que só ela tinha permissão de usar comigo. — Engraçada como sempre, June. Fechei o notebook, massageando as têmporas. Ela merecia mais do que apenas metade da minha atenção. — Vou trabalhar até tarde. Amanhã é só mais um dia. — Nem pensar. Não vou deixar você passar o marco da década enterrada em planilhas. Amanhã, a tarde, a gente se encontra naquele café que você frequenta. Sem festa, sem drama. Só um café e um bolo para você não esquecer que é humana. Eu já resolvi tudo. — June, eu tenho planos... A mentira pesou na minha língua. — Seus "planos" podem esperar uma hora. Vejo você lá às três.Não se atrase, ou eu vou na sua empresa e te arrasto pelo blazer. ... Às três em ponto, eu estava lá. June já ocupava a mesa do canto, com um tablet na mão e um olhar de quem estava julgando a decoração do lugar. Quando me viu, apenas indicou a cadeira com a cabeça. — Sobreviveu ao primeiro dia da nova década? Perguntou, fechando o tablet. — Por enquanto. Ela me puxou para um abraço me parabenizando. Sentei-me, sentindo o peso do dia nos ombros. Ficamos ali conversando sobre o caos do escritório dela e as minhas metas para o semestre. Sobre uma viagem que ela planejava para daqui três meses. Era uma conversa de duas adultas, sem excessos, apenas a segurança de uma amizade de décadas. Mas eu não conseguia relaxar totalmente pensando no que aconteceria pela noite. O atendente engraçadinho hoje limpava uma máquina de café com uma lentidão que parecia calculada para me observar com desdém como sempre. — Aquele ali não tira os olhos de você. June comentou, sem nem mudar o tom de voz, enquanto tomava um gole do seu chá. — O que você fez com o garoto? Reclamou da temperatura da água? — Ele é só... pretensioso. Respondi, tentando ignorar o calor que subiu pela minha nuca. June deu um sorriso de canto, aquele olhar de quem sabe ler nas entrelinhas. Ela fez um sinal discreto para ele. Ele se aproximou da nossa mesa, mas não trouxe a conta. Ele segurava um prato pequeno, com um pedaço generoso de bolo de chocolate escuro, denso, quase preto. Colocou-o na minha frente com uma delicadeza que contrastava com o olhar afiado que me lançou. — Presente da sua amiga. Ele disse, a voz baixa, vibrando de um jeito que só eu parecia sentir. — Mas eu tomei a liberdade de escolher o sabor. Achei que você não ia querer nada... clichê hoje. — Obrigada. Respondi, curta. Sem entender o motivo específico desse comentário. Mas ele era sempre assim meio imprevisível nas palavras. Tentei ignorar. — De nada, Canelinha. Ele retrucou, usando o apelido como se fosse um segredo compartilhado. E o peso desse apelido depois que comecei a usa-lo no The Void sempre me deixava desconcertada. Ele olhou para o relógio na parede e depois de volta para mim. — Coma tudo. Você vai precisar de energia para o que vem depois do café. Eu gelei por dentro. Ele continuou: —O horário de pico ainda nem começou. Ele realmente sabia me deixar apreensiva. Então ele se retirou antes que eu pudesse processar a frase. — Canelinha? June arqueou uma sobrancelha, cruzando os braços. — Elizabeth, se eu soubesse que você vinha aqui para flertar com o atendente gato e sarcástico, teria vindo observar isso antes. — Não é flerte, June. É só... provocação da parte dele. Peguei o garfo, minhas mãos levemente trêmulas. — Se você diz... Ela deu de ombros, voltando a ficar séria. — Mas aproveita. A gente só faz trinta uma vez. E, honestamente? Você está precisando de um pouco de imprevisto na sua vida. Eu olhei para o bolo. O chocolate era amargo, exatamente como ele disse. A June não sabia de nada, mas ele...vi um leve sorriso no canto da sua boca antes que ele desviasse os olhos dos meus.






