Capítulo 2

Yannis

O sino da porta tocou às 10:00 em ponto. Eu nem precisei olhar para o relógio para confirmar. Ela é pontual, metódica e terrivelmente previsível. Também é gata e gostosa. Eu gosto disso nela.

Gosto de como ela entra aqui como se fosse a dona do quarteirão, com aquele blazer que nunca tem uma dobra e o perfume que corta o cheiro de café torrado como uma lâmina de vidro.

Ela acha que fica invisível quando vai pra mesa do canto, protegida pela penumbra, mas eu a observo. Eu sempre a observo.

Preparei o capuccino dela antes mesmo de ela abrir a boca. Três gramas de canela. Nem mais, nem menos. Ela odeia imprevistos (como já aconteceu uma vez quando segundo ela, adicionei canela demais ) e eu adoro ser o imprevisto na vida dela.

— O de sempre.

Ela disse, sem me olhar.

O cartão dela estalou no balcão. Um gesto seco, quase um comando. Eu sorri por dentro. Ela me trata como uma ferramenta, um objeto que serve café e limpa mesas, e isso só faz com que eu fique ainda mais obcecado em irritá-la.

Ela não gosta do meu jeito, não gosta da minha audácia de chamá-la de "Canelinha", e é exatamente por isso que eu continuo fazendo. Cada vez que ela franze a testa ou tenta me colocar no meu lugar com um comentário ácido, eu sinto que estou um passo mais perto de quebrar essa fachada de porcelana.

— É um gosto específico...

Provoquei, entregando a xícara.

Ela me deu aquela resposta padrão sobre "eficiência". Pobre garota. Ela acha que eficiência vai protegê-la do mundo ou de mim.

Eu não deveria estar aqui, servindo cafés e ouvindo reclamações de executivos estressados. Três anos atrás, eu estava derrubando firewalls que pessoas comuns nem sabem que existem. Mas o sistema é uma criatura vingativa.

A polícia não me prendeu por muito tempo, mas eles fizeram questão de queimar minha ficha. Agora, sou o cara que faz o café perfeito e observa, através do Wi-Fi clandestino que criei, cada movimento de quem entra aqui e da mulher mais interessante que já entrou por aquela porta.

Sempre tive uma facilidade irritante para ler as entrelinhas. Para a maioria, o café é apenas um lugar de passagem, mas para mim, é um laboratório.

Gosto de observar as pessoas, o jeito como evitam o olhar, como batem os dedos no balcão quando estão ansiosas ou como a postura muda quando recebem um e-mail importante. Mas, acima de tudo, gosto das que tentam ser especiais. Aquelas que exalam uma aura de controle tão rígida que você quase consegue ouvir o vidro trincando.

Elizabeth era o meu espécime favorito.

Desde a primeira vez que ela entrou, com seus terninhos sob medida e aquele perfume com certeza importado que custa mais do que o aluguel de muita gente, eu soube que havia algo diferente. Ela não era apenas rica, ela era uma fortaleza. E eu sempre tive uma obsessão em encontrar as rachaduras em fortalezas.

O Wi-Fi da cafeteria era a minha janela para o mundo delas. As pessoas são descuidadas. Elas se conectam a redes públicas sem pensar que cada pacote de dados, cada busca no histórico, deixa um rastro.

Eu não preciso de muito, apenas de um acesso, um descuido tecnológico, e de repente eu sei quais são os seus medos, seus fetiches e as perguntas que elas fazem ao G****e às três da manhã quando ninguém está olhando.

Em uma dessas descobri mais sobre ela do que ela possa imaginar.

Mas voltando ao presente, passei por ela com a bandeja de metal, mantendo os olhos baixos, mas a visão periférica treinada não falha. No brilho da tela do celular dela, as cores do The Void saltaram aos meus olhos. Eu reconheceria aquele azul abissal e a interface minimalista em qualquer lugar,passei metade da minha vida dentro de fóruns como aquele.

Mas foi o que vi no canto superior da tela que me fez quase perder o equilíbrio.

O nome de usuário dela: Canelinha.

O apelido que eu dei a ela por puro sarcasmo, para irritar sua pose de executiva, era o mesmo que ela usava no submundo da internet. Senti um formigamento na ponta dos dedos.

O que uma mulher que vive de agendas e regras estaria fazendo no The Void? O fórum não era para amadores, era um lugar para desejos bem obscuros. Isso me intrigava de uma forma que eu nem conseguia explicar.

Passei direto, sem dar um segundo de atenção a mais, mas aquela informação ficou martelando na minha cabeça durante todo o resto do turno. Cada xícara que lavei, cada pedido que anotei, era apenas um ruído de fundo enquanto meu cérebro processava as possibilidades.

Quando finalmente cheguei em casa, nem tirei os sapatos. Fui direto para o meu santuário, o computador que o sistema não conseguiu confiscar. No café, eu era apenas um atendente de avental, aqui, eu era o comandante.

Usei o rastro digital que ela deixou no Wi-Fi do café para filtrar as portas de entrada. Não precisei de muito. Ela poderia ser meticulosa com a vida real, mas no mundo virtual, ela era uma porta aberta para alguém como eu. Em menos de vinte minutos, eu estava dentro.

Naveguei pelas camadas de criptografia até encontrar o que eu queria: a caixa de mensagens privada do perfil dela.

Cliquei na última conversa. E, conforme lia as mensagens, a surpresa se transformou em algo muito mais sombrio e excitante.

Eu não fazia ideia do motivo que a levou a entrar escolher um cara aleatório e propor aquilo. Esse tipo de coisa era comum no The Void,mas nunca imaginaria que ela curtisse coisas do tipo.

E agora mais do que nunca ela havia se tornado ainda mais o objeto dos meus desejos,ela era ainda mais fascinante do que eu imaginava.

E eu estava louco e decidido que iria fazer parte disso. Era só encontrar a brecha certa e eu até já sabia o que fazer.

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