Capítulo 5

Elizabeth

Eu ainda sentia o rastro do olhar do atendente na minha nuca quando saí do café. Hoje ele parecia mais estranho que o normal,ou seria só minha mente divagando.

Minha mente tentava decifrar o que ele quis dizer com "o que vem depois", mas o toque estridente do celular interrompeu meu raciocínio.

No visor: Mãe.

Respirei fundo, endireitando os ombros por puro reflexo, e atendi.

— Elizabeth, parabéns.

A voz dela veio impecável, sem uma nota fora do lugar, como se estivesse lendo um roteiro de etiqueta.

— Trinta anos. Uma idade para se consolidar, está no caminho certo.

— Obrigada, mãe.

Comecei a caminhar em direção ao escritório, o salto dos meus sapatos batendo no asfalto com a mesma cadência do meu coração.

— Sei que o seu dia deve estar transbordando de reuniões, então não vou tomar seu tempo. Mas já tomei a liberdade de organizar as coisas. Reservei uma mesa para nós no sábado à noite, no restaurante do clube. O Buffet será o clássico, nada dessas invenções modernas.

Eu abri a boca para mencionar que tinha planos de descansar, que queria um tempo para mim, mas a autoridade dela era uma barreira intransponível. Era assim desde que eu era pequena, os desejos da minha mãe eram os trilhos por onde a minha vida deveria correr.

Ela deve ter percebido minha hesitação.

— Estaremos lá, Elizabeth. Seu pai faz questão. É uma questão de imagem, você sabe.

— Tudo bem, mãe.

Respondi, sentindo o peso da rendição familiar de sempre.

— Eu vou. Eu estarei lá.

— Ótimo. Não se atrase e escolha um vestido sóbrio. Aproveite o seu dia... de forma produtiva.

Ela desligou. Olhei para o aparelho na minha mão, sentindo uma onda de rebeldia silenciosa me atingir. No sábado, eu seria a filha perfeita no jantar do clube. Mas hoje à noite... hoje à noite eu pertenceria a um estranho na Rua 4. Pela primeira vez, o "imprevisto" não era um erro, era a minha única saída.

...

Você deve achar que eu enlouqueci, que os trinta anos bateram na minha porta e levaram meu bom senso junto. Uma mulher na minha posição, com a minha carreira e o meu sobrenome,marcando para encontrar um estranho que se autodenomina "fantasma".

Mas a verdade é que, pela primeira vez em décadas, eu não sinto que estou seguindo o roteiro de outra pessoa.

Eu quero sentir esse medo. Quero essa batida desordenada no meu peito. Existe uma confiança estranha nas mensagens do Ghost. Ele é direto, ele é preciso, e ele não me trata como a "Dra. Sullivan" ou a "herdeira perfeita".

Ele me trata como um alvo. E, por algum motivo doentio, isso me faz sentir mais viva do que qualquer elogio da minha mãe.

Ele me garantiu que já fez isso antes. Que sabe onde está o limite entre o prazer do susto e o perigo real. Eu escolhi acreditar. Mas eu não cheguei ao topo do mundo corporativo sendo ingênua.

Eu sou uma mulher de negócios, e todo negócio precisa de um plano de contingência.O Ghost acha que está no controle total, mas ele não sabe que eu instalei o meu próprio "firewall" físico.

Antes de sair do escritório, ativei um protocolo que desenvolvi com um antigo contato de segurança da empresa. No meu pulso, sob a pulseira do meu relógio, há um adesivo térmico quase invisível.

Se o meu batimento cardíaco ultrapassar 140 batimentos por minuto por mais de cinco minutos seguidos, ou se eu pressionar o fecho do relógio de uma forma específica, um sinal de GPS criptografado é enviado para uma empresa de segurança privada.

Não para a polícia,eu não quero escândalos. Mas para homens que são pagos para aparecerem em cinco minutos e transformarem qualquer "fantasma" em poeira.

Além disso, agendei um e-mail automático para o servidor da minha empresa. Se eu não fizer o login e digitar minha senha de segurança até às 08:00 de amanhã, todos os registros das minhas conversas com o Ghost no The Void serão enviados para um servidor externo. Se eu desaparecer, ele cairá comigo.

Eu preparei o terreno. Eu cerquei os riscos. Ou, pelo menos, é o que eu digo a mim mesma para conseguir dar o próximo passo. E eu estou ansiosa por hoje a noite.

O relógio de parede do escritório marcou seis e meia com um clique que pareceu um tiro no silêncio da sala. Era hora. Minhas mãos estavam frias, contrastando com o calor que subia pelo meu pescoço. Eu havia revisado os protocolos, conferido o adesivo térmico no pulso e verificado o e-mail de segurança. Tudo estava no lugar.

Saí do prédio sentindo que cada pessoa que passava por mim na calçada conseguia ler o meu pecado estampado na testa. Precisava de uma distração. Entrei em um bar a duas quadras dali, um lugar de luz amarela e cheiro de carvalho.

— Um uísque. Dose única. Sem gelo.

Pedi, minha voz saindo mais rouca do que o normal.

O líquido desceu queimando, uma trilha de fogo que pareceu derreter parte da rigidez que me sustentava. Eu não queria ficar bêbada, precisava de todos os meus reflexos e da minha astúcia aguçados. Só precisava que o uísque silenciasse a voz da minha mãe na minha cabeça por algumas horas.

Paguei, saí e entrei no meu carro. O couro do banco parecia mais frio do que o normal. Liguei o motor e segui em direção à Rua 4.

À medida que eu me afastava do centro comercial iluminado, as luzes de neon davam lugar a lâmpadas de vapor de sódio piscantes e fachadas de prédios industriais esquecidos. Chicago mostrava seus dentes. Estacionei o carro. Desliguei os faróis e fiquei ali, no escuro, ouvindo apenas o estalo do metal do motor esfriando.

"Você ainda pode ir embora, Elizabeth", pensei. Mas minha mão já estava abrindo a porta.

Desci do carro. Ainda estava com o meu uniforme de guerra,o blazer de corte impecável, a saia lápis e os saltos agulha que ecoavam no asfalto molhado como um metrônomo da minha própria ansiedade. O som era alto demais, denunciando minha presença para quem quer que estivesse escondido naquelas sombras.

E eu sabia muito bem que havia alguém ali, pronto pra me pegar.

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