Mundo de ficçãoIniciar sessão
Elizabeth
A minha vida tem a precisão de um relógio suíço. Cada segundo é calculado, cada movimento é deliberado. Acordo às 5:45, exatamente cinco minutos antes do despertador tocar, porque odeio ser surpreendida por ruídos. Às 7:15, minha mesa no escritório já está pronta para a guerra diária. Parei por um segundo, sentindo uma pontada de desconforto no peito. No meio do tampo de carvalho escuro, um lápis HB estava dois milímetros fora do alinhamento em relação à agenda de couro. Suspirei, sentindo o mundo voltar ao eixo assim que o empurrei para o lugar exato. Ordem é paz. Muitos me conhecem apenas como a 'Dama de Ferro' da Sullivan & Venture, uma das maiores firmas de Private Equity de Chicago. Meu trabalho é, essencialmente, decidir o destino de impérios. Eu compro empresas à beira da falência, disseco suas falhas com a precisão de um cirurgião e as revendo por três vezes o valor original. Depois de anos isso se tornou quase um dom natural e sou muito bem conhecida e reconhecida por isso. As reuniões da manhã foram, como sempre, um exercício de superioridade. Eu falava, eles anotavam. Eu decidia, eles executavam. Sou a arquiteta da minha carreira, a senhora desse lugar. Meus pais estão orgulhosos, eles me criaram para ser uma fortaleza que nunca cede, uma mulher que não deixa pontas soltas. Mas, por trás dessa armadura de alfaiataria, havia um segredo pulsando no meu bolso. Uma aba aberta no navegador do meu celular, protegida por três camadas de senha. Um fórum onde pessoas como eu buscam o que o sucesso não pode comprar: a liberdade de não ter escolha. Para o meu aniversário de trinta anos, eu não queria diamantes ou um jantar caro. Eu queria um erro. Eu queria ser tomada. ... Às 10:00 em ponto, cruzei a porta do café. O sino sobre a porta anunciou minha chegada, um som que eu já associava ao cheiro de grãos torrados e àquela leve irritação que eu sentia ao ver o atendente do balcão. Ele era a única variável não controlada da minha manhã. Yannis,era o que dizia seu crachá. Ele tinha uma beleza exótica, algo de ascendência grega a julgar ainda mais pelo seu nome incomum. Se ele não fosse tão irritante eu consideraria o achar ainda mais atraente. — O de sempre. Eu disse, sem nem olhar para o menu. Coloquei meu cartão sobre o balcão com um clique seco. Ele estava encostado na máquina de expresso, observando o movimento da rua com um desinteresse que me parecia quase ofensivo. Ele usava o avental preto sobre uma camiseta verde escuro e seus olhos escuros pousaram em mim com aquela lentidão irritante. — O de sempre. Ele repetiu, a voz carregada de um sarcasmo que ele nem tentava esconder. — Um capuccino com uma montanha de canela, certo? — É o meu gosto. Respondi, tentando manter a voz neutra. — É um gosto... específico. Ele comentou, enquanto preparava a bebida. — Você gosta que as coisas fiquem exatamente como você determinou. É fascinante observar. Se a canela cair um milímetro fora do lugar, você quase entra em curto-circuito, não é, Canelinha? Senti meu rosto esquentar. O apelido era ridículo, fofo demais para o tom de voz sombrio dele e sarcástico demais para a posição que ele ocupava ali. — É apenas eficiência. Algo que você deveria experimentar. Retruquei, pegando o copo. Acho que ele ficou ressentido pela última vez que bagunçou toda canela e teve que preparar outro capuccino pra mim. Ele deu aquele sorriso de canto, um movimento que nem chegava aos olhos e continuou. — A eficiência é superestimada. Às vezes, o que as pessoas precisam é de um pouco de imprevisto. Mas você não parece o tipo de pessoa que gosta de surpresas. — Eu detesto surpresas. Declarei, já me virando para sair. — É o que todos dizem. Ouvi ele murmurar atrás de mim, tão baixo que quase pareceu um pensamento. — Até que a surpresa b**e na porta. Saí dali a passos rápidos. Ele era apenas um atendente abusado que achava que podia ler as pessoas. Sentei-me na mesa de sempre, a última do canto esquerdo, protegida por uma pilastra e pela penumbra que o sol da manhã não conseguia alcançar. Era o meu bunker particular. Ali, eu podia ser qualquer pessoa, menos a mulher impecável que todos esperavam que eu fosse. Abri o navegador em modo anônimo e entrei no The Void. Encontrei o fórum meses atrás, enquanto pesquisava sobre psicologia do comportamento e mecanismos de escape para um relatório de gestão. Um clique errado em um link de bibliografia me levou a um subdiretório criptografado. O que começou como uma curiosidade acadêmica sobre "o desejo de entrega" rapidamente se tornou uma obsessão silenciosa. O site era limpo, quase clínico, frequentado com certeza por pessoas que, como eu, tinham controle demais e liberdade de menos. Meu celular vibrou em minhas mãos.Ghost: “Última verificação. Quer que eu te avise quando estiver chegando na esquina ou prefere a experiência completa? Você decide se quer marcar o segundo exato ou se quer ser pega de surpresa. ” Senti um calafrio percorrer minha espinha. Olhei em volta, sentindo-me exposta, mas o atendente estava ocupado demais recolhendo xícaras na mesa atrás de mim. Ele passou por mim segundos depois, o barulho da bandeja de metal ecoando pelo lugar, mas não me olhou. Ele apenas seguiu seu caminho. Voltei a atenção para a tela. Meus dedos hesitaram por um segundo sobre o teclado virtual. Marcar o horário me daria uma última migalha de controle, uma zona de segurança. Mas não era isso que eu tinha vindo buscar. Eu queria sentir o medo real. Queria que o mundo saísse do meu eixo sem que eu pudesse impedir. Digitei a resposta com o coração martelando contra as costelas:Canelinha:“Surpresa. Não me avise. Só faça.” Fechei a aba e bloqueei o celular. O contrato estava selado. Agora, eu era apenas um alvo esperando o momento do impacto.






