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CAPÍTULO 7 - A COBERTURA FERRARESI

A internet enlouqueceu depois da coletiva.

Maytê descobriu isso quinze minutos após sair do palco, quando Elisa colocou um tablet diante dela dentro do carro.

— O índice de aprovação pública do senhor Ferraresi subiu dezessete por cento. — informou calmamente.

Maytê encarou a mulher.

— Você fala como uma vilã extremamente organizada.

— Obrigada.

— Isso não foi elogio.

Elisa apenas ignorou, como sempre. Maytê voltou os olhos para a tela e imediatamente se arrependeu, fotos dela e Gustavo estavam espalhadas por todos os sites possíveis.

A mão dada, o olhar dele durante a coletiva, o momento em que ele puxou a cadeira para ela sentar. Tudo.

Os comentários eram um caos.

“ELE OLHANDO PRA ELA 😭”

“Isso tá fake mas eu já shippo.”

“Primeira vez que vejo Gustavo Ferraresi parecer humano.”

“Ela parece assustada.”

“Ele segurando a mão dela desse jeito????”

Maytê desligou o tablet imediatamente.

— Eu odeio a internet.

Ao lado dela, Gustavo continuava respondendo e-mails no celular como se não tivesse acabado de virar o assunto mais comentado do país.

Psicopata.

— Você vai se acostumar. — disse calmamente.

— Essa frase não tranquiliza ninguém.

Ele não respondeu.

O carro mergulhou no silêncio. Maytê então percebeu outra coisa estranha: Gustavo parecia ainda mais fechado depois da coletiva, mais quieto. Como se toda interação pública drenasse alguma coisa dele.

Ela observou discretamente o reflexo dele na janela: postura impecável, expressão neutra, controle absoluto. Mas os dedos batiam levemente contra o celular, inquietos. Ansiedade.

A descoberta pegou Maytê desprevenida. Gustavo Ferraresi não parecia o tipo de homem que sentia ansiedade, parecia o tipo de homem que causava ansiedade nos outros.

— Você sempre fica assim depois de eventos? — perguntou antes de pensar.

Ele nem levantou os olhos.

— Assim como?

— Como se quisesse desaparecer.

O silêncio durou tempo demais, então ele finalmente guardou o celular.

— Você observa muito.

— Você responde pouco.

Outra pausa.

Então, inesperadamente:

— Eventos sociais são cansativos.

A resposta saiu seca, automática, claramente ensaiada. Maytê percebeu na mesma hora e também percebeu outra coisa: ele não estava acostumado a alguém insistindo.

Ela cruzou os braços no banco.

— Você parece odiar metade da própria vida.

Agora ele olhou para ela, direto, intenso.

— Metade?

Ela sustentou o olhar por alguns segundos.

— Certo. Talvez mais.

Algo quase perigoso atravessou a expressão dele e então o carro parou.

Maytê ergueu os olhos para o prédio diante deles e perdeu completamente a linha de raciocínio.

Era absurdo. Enorme, luxuoso, intimidador. Parecia o tipo de lugar onde pessoas normais precisavam de autorização pra respirar.

— Isso aqui é um prédio ou um país pequeno? — murmurou.

O canto da boca dele quase se moveu, de novo aquele quase sorriso. Ela estava começando a odiar o quanto prestava atenção nisso.

O elevador subiu em silêncio absoluto.

Maytê segurava a própria bolsa com força enquanto observava os números aumentarem lentamente.

Sessenta. Sessenta e cinco. Setenta.

— Quantos andares essa porcaria tem?!

— O suficiente.

— Você responde perguntas como um personagem misterioso de série ruim.

— E você reclama compulsivamente.

— Porque estou entrando na toca de um bilionário emocionalmente problemático.

Silêncio.

Então:

— Justo.

O elevador finalmente parou, as portas se abriram diretamente dentro da cobertura e Maytê ficou imóvel, porque aquilo não parecia real.

O lugar era gigantesco. Paredes de vidro revelando a cidade inteira iluminada, móveis minimalistas, arte moderna, silêncio. Muito silêncio.

Tudo era bonito, perfeito, frio.

A cobertura parecia uma revista cara onde ninguém realmente vivia. Maytê entrou devagar, os próprios passos ecoavam no mármore.

— Meu Deus.

Gustavo apenas tirou o relógio do pulso enquanto caminhava para dentro como se aquilo fosse normal, talvez fosse.

— Seu quarto fica no corredor esquerdo. — informou calmamente.

Ela continuou olhando ao redor: nenhuma foto, nenhum objeto pessoal, nenhuma bagunça. Nada.

O lugar parecia vazio de gente.

— Você mora aqui sozinho?

— Sim.

Maytê franziu a testa. A cobertura era enorme e silenciosa demais. Solitária demais.

Aquilo não parecia casa, parecia prisão de luxo.

Ela deixou a bolsa sobre o sofá lentamente.

— Quantos quartos existem aqui?

— Sete.

Maytê virou tão rápido que quase sentiu dor no pescoço.

— SETE?!

— Sim.

— Pra quê?!

Ele deu de ombros.

— Arquitetura exagerada.

Ela soltou uma risada incrédula.

— Você tem problemas ricos demais.

Pela primeira vez desde que chegaram, algo parecido com cansaço atravessou o rosto dele. Não físico. Algo mais profundo, antigo.

— Talvez.

Maytê observou Gustavo em silêncio.

Então percebeu. Aquele homem vivia completamente sozinho dentro de um apartamento enorme e silencioso onde não existia nenhum sinal de vida real. Sem família, sem amigos, sem qualquer tipo de afeto. Nada.

Dinheiro não impedia solidão, só tornava ela mais elegante.

— Você come aqui sozinho? — perguntou antes de pensar.

O olhar dele encontrou o dela imediatamente, como se ninguém perguntasse coisas daquele tipo.

— Geralmente.

Ela mordeu o interior da bochecha. Droga.

Agora estava sentindo pena do bilionário arrogante de novo, precisava parar urgentemente.

— Certo. — disse rapidamente — Onde fica meu quarto?

Gustavo apontou o corredor.

— Segunda porta.

Maytê pegou a bolsa tentando ignorar a sensação estranha crescendo dentro do peito, mas antes de sair, algo chamou sua atenção.

Um piano. Preto, impecável, no canto da sala.

Ela piscou surpresa.

— Você toca?

O maxilar dele travou quase imperceptivelmente. Erro. Pergunta errada.

— Não mais.

A resposta saiu curta e fria demais.

Maytê percebeu imediatamente que havia alguma história ali, dolorosa, mas decidiu não insistir. Ainda.

Então caminhou até o corredor, o quarto era maior que o apartamento inteiro dela. Claro que era. A cama enorme, o banheiro luxuoso, o closet absurdo.

Ela soltou a bolsa no chão lentamente, tudo parecia surreal, como se estivesse vivendo a vida de outra pessoa.

Maytê caminhou até a janela, a cidade brilhava lá embaixo, tão distante, pequena e pela primeira vez desde que tudo começou… o peso da decisão caiu de verdade sobre ela.

Ela realmente estava morando com Gustavo Ferraresi. Casada de mentira, presa num contrato, dentro da vida de um homem que parecia incapaz de existir sem controle.

O medo apertou seu peito, mas junto dele, veio outra sensação. Curiosidade, perigosa e insistente.

Porque quanto mais observava Gustavo, mais Maytê percebia que existia alguma coisa profundamente triste dentro dele. Algo escondido sob ternos caros, arrogância e silêncio.

Ela estava tão distraída pensando nisso que quase não ouviu o som baixo vindo da sala. Música, piano.

Maytê franziu a testa imediatamente, então saiu do quarto devagar. Os acordes ecoavam baixos pela cobertura silenciosa. Bonitos, melancólicos, dolorosos.

Ela seguiu o som até parar discretamente na entrada da sala e encontrou Gustavo sentado diante do piano.

Os olhos fechados, as mangas da camisa dobradas, os dedos deslizando pelas teclas lentamente.

Sem máscara, sem postura impecável, sem frieza. Só solidão.

A música parecia triste o suficiente para quebrar alguma coisa dentro dela e naquele instante, Maytê percebeu uma verdade perigosa: talvez Gustavo Ferraresi estivesse muito mais quebrado do que o mundo imaginava.

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