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CAPÍTULO 6 - SORRIA PARA AS CÂMERAS

— Eu vou desmaiar.

Maytê falou aquilo no instante em que as portas do elevador se fecharam e os flashes desapareceram. Os jornalistas haviam ficado para trás e o silêncio finalmente caiu. Mesmo assim, seu coração continuava disparado.

Ela levou a mão ao peito tentando respirar normalmente enquanto encarava o reflexo dourado das paredes do elevador.

— Isso definitivamente vai virar matéria: “Mulher misteriosa morre antes da coletiva.”

Ao lado dela, Gustavo permaneceu imóvel, calmo demais. Como se multidões gritando seu nome fossem apenas parte da rotina, provavelmente eram.

— Você não vai desmaiar. — ele respondeu.

— Ah, claro. — sorriu, irônica — Obrigada, doutor arrogância.

O canto da boca dele quase se moveu, quase. Maytê apontou imediatamente.

— Não faz isso.

— Isso o quê?

— Esse quase sorriso psicopata, confunde as pessoas.

Agora ele realmente pareceu minimamente divertido, inacreditável.

O elevador finalmente parou no último andar e assim que as portas se abriram, Maytê viu movimento por toda parte. Assessores, seguranças, maquiadores, pessoas falando ao telefone. Parecia uma operação militar e no centro do caos, uma enorme parede com o símbolo do Grupo Ferraresi preparada para a coletiva. Microfones, luzes, câmeras.

Maytê parou abruptamente.

— Não.

Gustavo olhou para ela.

— Não?

— Eu achei que coletiva fosse uma palavra simbólica.

— Geralmente não é assim que palavras funcionam.

Ela lançou um olhar mortal na direção dele.

— Você é irritante em níveis alarmantes.

— E você reclama demais.

— Porque minha vida virou um episódio ruim de escândalo corporativo.

Antes que ele pudesse responder, Elisa apareceu rapidamente. Elegante, organizada e assustadora como sempre.

— Senhor Ferraresi, a imprensa está pronta.

Maytê sentiu o estômago despencar. Pronta. Ótimo, ela definitivamente não estava. Elisa então virou para ela segurando uma pequena bolsa.

— Trouxe isso para a senhorita.

Maytê pegou automaticamente e dentro havia maquiagem, escova, perfume, até um salto novo.

— Isso é… estranho.

— Eficiência. — Elisa respondeu calmamente.

Claro. Pessoas ricas chamavam invasão de privacidade de eficiência.

— Temos vinte minutos. — Elisa continuou — A equipe está esperando.

Maytê virou lentamente para Gustavo.

— Existe equipe?

— Sim.

— Você contratou pessoas pra transformar isso num relacionamento convincente?

— Tecnicamente, sim.

Ela soltou uma risada nervosa.

— Meu Deus. Isso é assustador.

Gustavo apenas sustentou o olhar dela e então respondeu:

— Bem-vinda à minha vida.

A frase saiu simples, sem ironia e pela primeira vez desde que chegara ali, Maytê percebeu que talvez aquele homem realmente vivesse assim o tempo inteiro. Performance. Controle. Imagem. Tudo calculado e artificial. Que vida horrível.

Vinte minutos depois, Maytê quase não se reconhecia. O cabelo estava alinhado, a maquiagem leve escondia o cansaço, o vestido preto elegante parecia caro demais para alguém que ainda devia aluguel.

Ela encarou o próprio reflexo em silêncio. Estranho. Parecia outra pessoa, talvez fosse exatamente isso que assustava.

A porta atrás dela abriu, Maytê encontrou Gustavo parado ali. E infelizmente o homem parecia ter sido desenhado especificamente para destruir estabilidade emocional feminina. Terno preto, relógio caro, postura impecável. Mas o olhar… o olhar estava preso nela, intenso e silencioso demais.

Maytê cruzou os braços imediatamente.

— O quê?

Ele demorou dois segundos para responder, longos demais.

— Você limpa bem.

Ela arregalou os olhos.

— Isso foi um elogio ou uma análise de produto?

Algo perigoso atravessou a expressão dele.

— Ainda estou decidindo.

O estômago dela fez uma coisa estranha e irritante, definitivamente irritante.

Maytê pegou a bolsa rapidamente.

— Certo. Vamos acabar logo com isso.

Mas quando tentou passar por ele, Gustavo segurou suavemente seu braço. Ela congelou instantaneamente, porque aquele era o primeiro toque real entre eles. Sem fotógrafos, sem atuação, sem necessidade. Apenas a mão dele na pele dela. Quente, firme, perigosa.

Os olhos dos dois se encontraram automaticamente e Maytê odiou a mudança no ar entre eles: pesada, elétrica, estranha. Gustavo soltou o braço dela imediatamente, como se tivesse percebido também.

— Tem uma coisa importante. — disse em voz baixa.

Ela tentou ignorar o próprio coração acelerado.

— O quê?

— Não importa o que perguntem… não demonstre medo.

Maytê franziu a testa.

— Isso foi surpreendentemente específico.

O olhar dele endureceu discretamente.

— A imprensa sente medo e destrói pessoas vulneráveis.

Silêncio.

Então ela percebeu, ele não estava falando só dela, estava falando dele também.

Antes que pudesse responder, Elisa apareceu outra vez.

— Está na hora.

E foi naquele momento que Maytê percebeu: não existia mais volta.

As luzes quase cegavam, os flashes explodiam sem parar, as vozes se misturavam e os jornalistas praticamente avançavam sobre o palco. Maytê sentiu o pânico subir instantaneamente.

Era gente demais, olhares demais, pressão demais. Ela quase parou de andar, quase. Mas então, os dedos de Gustavo encontraram os dela, entrelaçando suas mãos naturalmente. Como se fosse automático, como se ele tivesse percebido o exato segundo em que ela começou a entrar em colapso.

Maytê prendeu a respiração, porque a mão dele era absurdamente quente e segura. Grande o suficiente para envolver a dela completamente. Os flashes aumentaram imediatamente ao perceberem o gesto.

— Gustavo!

— Desde quando estão juntos?

— O casamento já tem data?

— Maytê, você ama o senhor Ferraresi?

Ela quase tropeçou.

Ama? Meu Deus!

Gustavo apertou discretamente sua mão, pequeno, sutil, mas firme. Então puxou a cadeira para ela sentar antes de ocupar o lugar ao lado, controle absoluto, ele nascera para aquilo.

Maytê percebeu imediatamente, aquela era a arena dele e talvez fosse por isso que parecia tão perigoso diante das câmeras. Porque Gustavo Ferraresi sabia exatamente como sobreviver ali.

Os jornalistas continuavam disparando perguntas sem parar.

Até que um deles perguntou:

— Senhor Ferraresi, esse noivado surgiu convenientemente após as acusações contra sua imagem. O relacionamento é real?

O ambiente inteiro ficou silencioso, tenso. Maytê sentiu o corpo travar. Ali estava, a pergunta.

Gustavo permaneceu imóvel por um segundo, então virou lentamente o rosto para Maytê, o olhar encontrou o dela. Calmo, seguro e de repente, ela entendeu. Ele estava dando escolha. Ela podia recuar, negar, fugir, mesmo agora.

O coração dela disparou, porque ninguém nunca dava escolhas reais para Maytê. Ninguém.

Então, antes que pudesse pensar demais, ela apertou levemente a mão dele de volta. Gesto pequeno, mas suficiente. O olhar de Gustavo mudou por um instante, algo quase vulnerável atravessou sua expressão e então desapareceu.

Ele voltou-se para os jornalistas.

— Meu relacionamento com Maytê não começou por causa da imprensa. — respondeu firme, grave, controlado — Mas talvez ela tenha sido a primeira coisa verdadeira que aconteceu comigo em muito tempo.

O mundo pareceu parar.

Os jornalistas enlouqueceram imediatamente: perguntas, flashes, movimento. Mas Maytê não conseguia ouvir nada, porque ainda estava olhando para Gustavo Ferraresi.

E pela primeira vez, ela não conseguiu distinguir atuação de verdade.

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