Mundo de ficçãoIniciar sessãoMaytê descobriu que estava oficialmente noiva de Gustavo Ferraresi enquanto escovava os dentes. Ela saiu do banheiro ainda sonolenta, cabelo preso de qualquer jeito, camiseta velha e o cérebro funcionando em velocidade mínima quando o celular começou a vibrar sem parar em cima da cama. Uma, duas, cindo, dez vezes. Ela franziu a testa.
— Que inferno…
Pegou o aparelho esperando cobrança bancária. Infelizmente, era pior. Muito pior. Mais de noventa notificações, mensagens, chamadas, marcações, números desconhecidos.
O coração dela desacelerou por um segundo, depois disparou. Maytê abriu a primeira mensagem.
“AMIGA?????”
Depois outra.
“VOCÊ TÁ NOIVA DO GUSTAVO FERRARESI????”
Outra.
“MAYTÊ ME RESPONDE AGORA!”
Ela sentiu o estômago afundar lentamente, então abriu a internet e viu. A foto ocupava praticamente toda a tela, ela entrando no prédio do Grupo Ferraresi no dia anterior enquanto Gustavo aparecia logo atrás.
O título da matéria vinha logo abaixo:
“Após escândalos, Gustavo Ferraresi surge com mulher misteriosa e anuncia noivado.”
Maytê ficou parada, imóvel com a escova de dentes ainda na mão. Porque existiam momentos em que a vida simplesmente decidia enlouquecer completamente e aquele definitivamente era um deles.
Ela abriu outra matéria, depois outra e depois mais uma.
“Quem é Maytê Lopes?”
“Nova noiva de Ferraresi aparece após crise de imagem.”
“Funcionária? Interesseira? Saiba tudo sobre a mulher que conquistou o bilionário.”
— Meu Deus…
Seu rosto começou a esquentar, não de vergonha, de puro pânico. Ela abriu os comentários. Erro fatal.
“Cara de golpe.”
“Mais uma atrás de dinheiro.”
“Ela parece pobre.”
“Isso tá muito fake.”
“Ninguém namora Gustavo Ferraresi por amor.”
Maytê desligou o celular imediatamente, respirando fundo. Uma, duas, três vezes. Não funcionou.
O apartamento de repente parecia pequeno e sufocante demais. Ela sabia que haveria exposição, sabia que existiriam manchetes, mas ler pessoas transformando sua vida em entretenimento era diferente. Muito diferente.
O celular voltou a tocar, Gustavo. Claro. Maytê atendeu sem nem tentar esconder a irritação.
— Você enlouqueceu?!
Do outro lado, silêncio por dois segundos. Então a voz calma dele atravessou a linha.
— Bom dia pra você também.
— TEM GENTE ANALISANDO MINHA FOTO COMO SE EU FOSSE SUSPEITA DE ASSASSINATO.
— Tecnicamente, isso significa que a imprensa acreditou na história.
— Gustavo!
Ela ouviu um suspiro baixo do outro lado, cansado.
— Respira.
— Para de mandar eu respirar!
— Então para de gritar.
Aquilo só fez Maytê querer gritar mais, ela começou a andar pelo apartamento nervosamente.
— Você disse coletiva hoje à noite! NÃO AGORA!
— O vazamento foi antecipado.
— Vazamento?
Silêncio pequeno demais, sutil demais. Mas Maytê percebeu.
— Você sabia que isso ia acontecer.
— Imaginei.
— E não me avisou?!
A resposta demorou alguns segundos.
— Você teria fugido.
Ela abriu a boca imediatamente, depois fechou. Porque o pior era: ele provavelmente estava certo.
Ódio. Muito ódio.
— Eu odeio você.
— Essa frase vai perder impacto se repetir toda hora.
Maytê encarou a parede, inacrédula. O homem conseguia ser irritante até por telefone.
— Tem jornalista na porta do seu prédio. — ele disse calmamente.
Ela congelou.
— O quê?
— Dois fotógrafos, uma repórter e provavelmente mais gente chegando.
O coração dela despencou, instintivamente, Maytê foi até a janela. Erro número dois. Assim que afastou a cortina discretamente, flashes explodiram lá embaixo, ela se afastou na mesma hora.
— Meu Deus.
— Um carro está indo te buscar.
— NÃO.
— Maytê...
— Eu não quero ir pra esse circo!
O silêncio dele mudou, ficou mais sério, mais firme.
— Escuta com atenção. — a voz grave atravessou ela imediatamente, controle puro — Isso só vai piorar se você sumir agora.
Ela apertou os olhos com força. Droga. Droga porque ele estava certo, de novo.
— Você devia ter me preparado pra isso.
Pela primeira vez, Gustavo demorou a responder. Quando falou, a voz parecia diferente, mais baixa.
— Eu não sei preparar alguém pra minha vida.
A frase atingiu Maytê sem aviso, forte demais. Porque não parecia arrogante, nem manipuladora. Parecia honesta. Ela odiou sentir pena dele outra vez.
— Quinze minutos. — ele continuou — O motorista está chegando.
A ligação terminou antes que ela pudesse responder.
Maytê ficou parada no meio do apartamento em silêncio absoluto, então olhou ao redor: a bagunça, as contas, a vida inteira desmontada em poucos metros quadrados e pela primeira vez desde que assinara o contrato, o medo ficou real.
O prédio do Grupo Ferraresi estava um caos: fotógrafos, repórteres, seguranças, câmeras. Maytê quase teve uma crise nervosa dentro do carro.
— Eu vou morrer. — murmurou.
O motorista claramente fingiu não ouvir. Covarde. Assim que o veículo parou na entrada principal, flashes explodiram em todas as direções. Maytê congelou instantaneamente.
— Senhorita Maytê!
— Como conheceu Gustavo? — O relacionamento começou antes dos escândalos? — Está grávida? — É verdade que vocês vão morar juntos?— Meu Deus do céu…
Ela saiu do carro completamente desnorteada enquanto os seguranças abriam caminho entre os jornalistas, as pernas tremiam, o coração parecia prestes a sair pela boca e então, uma mão segurou firmemente sua cintura. Quente, segura, firme. Maytê virou o rosto assustada. Gustavo.
Ele estava parado ao lado dela, terno escuro, expressão fria, controle absoluto. Mas os dedos apertaram discretamente sua cintura como se dissessem:
“Continua andando.”
Os flashes aumentaram imediatamente.
— Senhor Ferraresi!
— Gustavo! — Ela é sua noiva?! — O casamento é real?!Maytê sentiu o corpo inteiro tensionar, mas Gustavo não hesitou nem por um segundo.
Ele apenas puxou Maytê ligeiramente mais para perto do próprio corpo e respondeu calmamente diante das câmeras:
— Sim, Maytê Lopes é minha noiva.
O mundo pareceu explodir ao redor deles, os jornalistas começaram a falar ao mesmo tempo. Um misto de perguntas, gritos e flashes. Mas Maytê não conseguia prestar atenção em nada, porque ainda sentia a mão dele em sua cintura. Firme, protetora. Como se aquele homem arrogante e emocionalmente quebrado estivesse tentando impedir que ela afundasse.
Então Gustavo abaixou o rosto discretamente perto do ouvido dela, perto demais.
— Sorri pras câmeras, esposa.
O arrepio percorreu a espinha dela imediatamente. Ódio. Muito ódio.
Mas quando Maytê ergueu os olhos para ele, percebeu uma coisa perigosa: Gustavo Ferraresi parecia perfeitamente confortável em meio ao caos, como um homem acostumado a sobreviver dentro de guerras e talvez aquilo fosse o mais assustador sobre ele.







