Estou perdido em meus pensamentos sombrios quando ela entra. Ela não bate. Isso, por si só, já é uma revolução.
Natália fecha a porta atrás de si com um cuidado excessivo, como se não quisesse fazer barulho nem ao romper o silêncio que nos separa. Fica parada, as mãos juntas à frente do corpo, o rosto sério demais.
— Aconteceu alguma coisa? — pergunto, sem levantar os olhos.
— Aconteceu — ela diz. — Faz tempo. Eu só não sei o nome ainda.
Levanto os olhos devagar. Ela me encara e o olhar não vacila. Isso é novo. A submissão deu lugar a uma dignidade ferida que é muito mais perigosa.
— Quer se sentar?
— Não.
Firme. Direta. Ela dá dois passos para dentro da sala e a luz da janela desenha o contorno do seu corpo com uma precisão cruel. Linda. Sempre linda. Hoje, inquieta como uma tempestade que finalmente decidiu desabar.
— O que está acontecendo com você, Ricardo? — ela pergunta, sem levantar a voz, mas com uma força que me faz recuar internamente.
— Nada.
Ela ri. Um riso curto, sem humo