Inicio / Lobisomem / O Elo da lua / Quando o elo é negado
Quando o elo é negado

A casa estava silenciosa demais.

Yvy deitou na cama ainda com a roupa do show, o tênis jogado em algum canto do quarto, o cabelo solto espalhado pelo travesseiro. O corpo exausto implorava por descanso, mas a mente… a mente não obedecia.

Ela fechou os olhos.

E então ele voltou.

O cheiro.

Não era apenas uma lembrança. Era como se ainda estivesse ali, impregnado em sua pele, em suas roupas, no ar do quarto. O cheiro amadeirado quente, como pão saindo do forno. Um aroma impossível de esquecer — porque não era feito para ser esquecido.

O coração apertou com força, como se alguém o tivesse segurado com as duas mãos.

Yvy virou de lado, abraçando o próprio corpo.

Toda vez que respirava fundo, era ele.

Toda vez que tentava relaxar, vinha a imagem dos olhos escuros encontrando os seus em meio à multidão.

Aquele segundo suspenso no tempo.

A certeza brutal.

Ela não dormiu.

Não naquela noite.

Nem na seguinte.

O elo havia se formado — e isso mudava tudo.

Quando dois lobos se reconhecem, algo antigo desperta. Não é escolha. Não é desejo. É uma verdade biológica e espiritual que atravessa gerações. O corpo responde antes da mente. O lobo sente antes do humano compreender.

E quando o elo é aceito, ele fortalece.

Mas quando é negado…

Ele cobra.

Yvy sentia o peito apertar sem motivo aparente.

Sentia uma melancolia estranha, como saudade de algo que nunca viveu.

O corpo alternava entre calor e frio.

O sono vinha fragmentado, povoado por sonhos confusos — florestas que não conhecia, uma voz que a chamava pelo nome, mãos que nunca a tocaram, mas que ela reconhecia.

Do outro lado, ela sabia… Calleb sentiria também.

O elo não punia apenas quem recusava.

Ele não escolhia lados.

Ele apenas existia.

Calleb sentiria o vazio.

A inquietação.

A sensação constante de estar incompleto, mesmo cercado por aplausos e pessoas.

Ela levou a mão ao peito, respirando fundo.

— Não — sussurrou para si mesma. — Eu não posso.

Não podia abandonar sua matilha.

Não podia ferir seus pais.

Não podia destruir Josh.

Não podia rasgar a própria história por algo que, por mais intenso que fosse, ainda era desconhecido.

Ela havia sido criada para honrar a coletividade.

Para entender que o amor, para os lobos, não era apenas sentimento — era responsabilidade.

E ela tinha uma.

Yvy levantou-se, caminhando até a janela. Do lado de fora, a lua iluminava as copas das árvores. A floresta que sempre fora seu lar respirava junto com ela.

Ali tudo era simples.

Seguro.

Conhecido.

Ela encostou a testa no vidro frio.

Talvez aquele reconhecimento tivesse sido um teste.

Uma encruzilhada.

Nem todo elo nasce para ser vivido.

Alguns existem para ensinar.

Para fortalecer escolhas difíceis.

Para lembrar que destino não é sinônimo de entrega cega.

Ainda assim… doía.

Doía saber que algo tão raro havia sido colocado em seu caminho apenas para ser recusado.

Doía imaginar Calleb sentindo o mesmo aperto, a mesma confusão, sem entender o porquê ou talvez não, porque ele tinha a sua noiva.

Ela fechou os olhos, deixando uma lágrima escapar.

— Me perdoa — murmurou, sem saber se falava com ele, com a Deusa da Lua ou consigo mesma.

Naquela noite, Yvy fez sua escolha.

Aceitou a dor silenciosa do elo negado.

Aceitou carregar a consequência.

Aceitou que algumas histórias não nascem para acontecer — apenas para transformar.

E, enquanto o mundo dormia, dois lobos, separados por quilômetros e por decisões, aprenderam a conviver com a ausência de algo que jamais deixaria de existir.

Porque quando um elo é formado,

ele nunca desaparece.

Ele apenas espera.

Sigue leyendo este libro gratis
Escanea el código para descargar la APP
Explora y lee buenas novelas sin costo
Miles de novelas gratis en BueNovela. ¡Descarga y lee en cualquier momento!
Lee libros gratis en la app
Escanea el código para leer en la APP