O chamado

Após o episódio de ira e a visão da sua companheira sendo levada por outro homem, Calleb ouviu seu nome ser chamado novamente — distante, distorcido — enquanto Calian gritava dentro dele, exigindo controle.

O som da multidão mudou.

Primeiro vieram os murmúrios.

Depois, gritos confusos.

Alguns rostos carregavam raiva. Outros, medo.

Calleb piscou, voltando a si.

O palco.

As luzes.

As milhares de pessoas.

— Desculpem… — disse ao microfone, a voz rouca, humana demais para conter o caos que ardia por dentro. — Vamos… vamos recomeçar.

Fez um sinal para a banda.

O show continuou.

Ele cantou.

Afinado. Perfeito. Profissional.

Mas sem alma.

Não naquela noite.

Durante cada música, Calian batia contra as grades invisíveis que o mantinham preso havia anos. Não aceitava mais o silêncio imposto. Não aceitava mais ser domado.

Calian urrava pela dor de não sentir o chão sob as patas. Pela ausência do vento atravessando a pelagem. Pela falta da matilha. Pelo chamado antigo de liderar, proteger, construir.

A dor de negar a própria natureza queimava mais do que qualquer ferida física.

Por muito tempo, Calian sobrevivera escondido — afogado em bebidas, em noites vazias, em uma alegria falsa que nunca durava até o amanhecer. Calleb dizia a si mesmo que a solidão era o preço do sucesso.

Mas a verdade era outra.

Ele estava cansado.

Cansado das festas intermináveis.

Das risadas sem verdade.

Dos rostos que vinham e partiam como fumaça.

Até Charlotte.

A lembrança dela surgiu inesperadamente entre um acorde e outro.

Ela havia sido luz quando tudo era ruína.

A calmaria quando o mundo interno era tempestade.

O primeiro amanhecer depois de muitas noites escuras.

Ele a encontrara em Ottawa, à beira do canal, sob o entardecer de verão — e, por um tempo, acreditou que poderia ser inteiro ao lado dela. Charlotte não exigia o lobo. Amava o homem. E isso o havia salvado.

Mas salvar não é o mesmo que pertencer.

Quando o show terminou, Calleb mal percebeu os aplausos.

No camarim, seu empresário, Richard, foi direto:

— Que diabos foi aquilo no palco?

Calleb passou a mão pelos cabelos, andando de um lado para o outro. O ar parecia pequeno demais para seus pulmões.

— Tudo mudou — murmurou. — Essa… essa não é a vida que eu quero.

Richard riu, curto e descrente.

— Não é hora pra drama existencial. Amanhã seguimos viagem. Tem turnê, contratos, dinheiro envolvido. Você vai colocar a cabeça no lugar.

As palavras ecoaram como correntes se fechando.

Do outro lado do corredor, parcialmente encoberta pela parede, Charlotte observava.

Ela não ouvira todas as palavras — mas sentiu tudo.

A tensão no corpo dele.

A rigidez nos ombros.

O modo como o ar ao redor parecia vibrar.

Ela deu um passo à frente… e parou.

Algo nele estava ferido de um jeito que não era humano. E, pela primeira vez desde que se conheceram, ela compreendeu que havia uma dor à qual não tinha acesso.

Escolheu não invadir.

Ficou.

Apenas observando. Apenas presente.

Dentro do camarim, Calian rompeu.

Os olhos de Calleb mudaram — do escuro profundo para um âmbar intenso, quase líquido. Por um instante, o ar pareceu mais pesado.

Richard recuou um passo, o riso morrendo no rosto, o coração disparando sem entender o porquê.

A voz que saiu da boca de Calleb não era só dele.

— Eu não aguento mais isso aqui.

Era rouca. Antiga. Cheia de ira contida.

Sem dizer mais nada, Calleb saiu.

Ao passar pelo corredor, sentiu o perfume de Charlotte antes mesmo de vê-la. Parou por um segundo. Os olhos se encontraram.

Tantos anos de carinho silencioso naquele olhar.

Ela não perguntou nada.

Não o tocou.

Apenas assentiu, como quem diz: “Vá. Eu estou aqui.”

E deu espaço.

Do lado de fora, a brisa noturna tocou seu rosto. Ele ergueu os olhos e encontrou a lua — inteira, silenciosa, observando tudo.

O peito apertou.

— Deusa da Lua… — sussurrou, a voz quebrando pela primeira vez em anos. — Me ajuda a encontrar minha companheira novamente.

Calian se aquietou, não por força, mas por esperança.

E, ainda assim, uma culpa profunda atravessou o peito de Calleb ao pensar em Charlotte — na mulher que o tirou da escuridão quando ele não tinha mais forças para sair sozinho.

— Nem que seja a última coisa que eu faça nessa vida.

A lua brilhou um pouco mais forte.

E, em algum lugar distante, uma loba sentiu o chamado — sem saber por quê.

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