Mundo de ficçãoIniciar sessãoDepois quando ele voltou e a porta se abriu, Charlotte o encontrou primeiro com o sorriso que sempre trazia paz aos ambientes.
— Você foi incrível hoje.
Ela se aproximou devagar, como sempre fazia, respeitando o espaço dele após as apresentações. Seus olhos verdes buscavam os dele com carinho genuíno, não com cobrança.
Calleb tentou sorrir.
E conseguiu… por poucos segundos.
Havia tensão em seus ombros. Seus dedos estavam cerrados sobre a mesa, como se segurassem algo invisível.
Charlotte percebeu — mas com aquela sensibilidade que aprendera a desenvolver ao lado dele ao longo de dois anos.
Ela se aproximou mais, pousando a mão sobre o braço dele.
— Você está bem?
A pergunta era simples. O tom, suave.
Não era rejeição.
Era conflito.
Ele cobriu a mão dela com a sua, num gesto automático de carinho.
— Só cansado.
A resposta saiu baixa, controlada demais.
Charlotte assentiu, mas não recuou. Seus olhos observavam os detalhes que outros ignorariam: a respiração mais pesada, o olhar distante, a energia agitada sob a superfície.
Ela conhecia aquele homem.
Conhecia o silêncio dele.
Calleb desviou o olhar.
E a memória veio sem pedir permissão.
Ottawa.
Ele havia saído para caminhar sozinho após o ensaio — fugindo de entrevistas, de luzes, do próprio cansaço. O ar morno carregava o cheiro de água e grama aquecida pelo sol.
Foi quando a viu.
Charlotte caminhava à margem do canal, os cabelos claros iluminados pela luz dourada do fim do dia. O vestido leve se movia com a brisa, e por um instante o mundo pareceu desacelerar ao redor dela.
Ele realmente perdera o fôlego.
Não por desejo imediato, mas por uma sensação rara de quietude. Como se algo dentro dele tivesse encontrado descanso.
Ela o salvou de uma solidão que ele já não sabia nomear.
E agora…
Agora havia outra presença ocupando o espaço que sempre fora dela.
Não por escolha.
Por destino.
O pensamento o atingiu com peso cruel.
Como dizer a uma mulher que sempre ofereceu carinho… que o coração dele respondia a um chamado que não podia explicar?
Charlotte inclinou levemente a cabeça, estudando o rosto dele.
— Algo aconteceu hoje — disse com suavidade, não como acusação, mas como constatação.
Calleb fechou os olhos por um instante.
Havia raiva nele, sim — mas não direcionada a ela.
Ele abriu os olhos e segurou as mãos dela entre as suas.
Com cuidado.
Com respeito.
Com uma ternura que tornava tudo ainda mais difícil.
— Eu nunca quis te ferir.
Charlotte não respondeu.
Ela não sabia o que estava acontecendo… apenas que algo havia se deslocado dentro dele de forma irreversível.
E, mesmo sem compreender, ela sentiu.
Calleb percebeu naquele instante que o verdadeiro desafio não seria enfrentar matilhas, treinamentos ou destino.
Seria encontrar uma forma de partir…
E essa era uma batalha para a qual ele não tinha preparo algum.







