Mundo de ficçãoIniciar sessãopara Calleb tudo havia se tornado distante, como se estivesse submerso em água profunda. Ele apoiou as mãos na bancada, respirando pesado, sentindo o peito arder como se algo estivesse sendo arrancado de dentro dele.
Não era dor física.
Era pior.Era ausência.
Um vazio pulsante, localizado bem no centro do peito, como se o coração tivesse esquecido o próprio ritmo. Cada inspiração vinha curta, difícil, e o ar parecia nunca ser suficiente.
Calian se agitava dentro dele.
Raivoso.
Confuso. Instintivo.Ela sentiu.
E se afastou.A certeza caiu como um golpe.
Não era dúvida.
Não era medo. Era recusa.A palavra ecoou dentro dele como um uivo quebrado.
Recusa não era negação simples — era escolha consciente.
Era o elo sendo sentido… e ainda assim colocado de lado.Calleb passou a mão pelo cabelo, andando de um lado para o outro do camarim. A adrenalina do palco ainda corria em suas veias, mas o brilho havia se apagado rápido demais, deixando apenas um cansaço profundo, antigo.
— Droga… — murmurou, pressionando o punho contra o peito.
O cheiro dela ainda estava ali.
Não como conforto. Mas como provocação.Jasmim branco.
Hortelã selvagem. Chuva.Cada nota daquele aroma lembrava o que ele não podia tocar.
Naquela noite, ele não dormiu.
Deitou-se na cama do hotel com os olhos abertos, encarando o teto escuro, sentindo o coração apertar a cada tentativa frustrada de relaxar. O corpo oscilava entre calor e frio. A mente repetia, em ciclos, o momento exato em que os olhos deles se encontraram.
Ao seu lado Charlotte fingia dormir, para evitar qualquer conversa confusa...Não havia sonhos.
Apenas uma vigília dolorosa, marcada por respirações pesadas e uma sensação constante de que algo essencial havia sido deslocado dentro dele.Ao amanhecer, Calleb levantou-se exausto.
O reflexo no espelho o assustou.
Olheiras profundas marcavam o rosto.
A pele parecia mais pálida. Os olhos, antes vivos, estavam opacos — como se a chama tivesse sido abafada de repente.Charlotte estava sentada à mesa do café da manhã, quieta demais para alguém que sempre parecia em movimento.
Ela não dizia nada.
Calleb percebeu o olhar dela antes mesmo de se permitir encará-la.
O silêncio entre os dois não era vazio.
Havia perguntas ali.
Calleb desviou o olhar primeiro.
No café da manhã com a banda, seu silêncio foi notado de imediato.
— Cara… você tá bem? — perguntou o baterista, cauteloso.
Calleb apenas assentiu, sem convicção.
Nada estava bem.
Durante os ensaios daquele dia, a música soava vazia.
O palco, que antes era refúgio, tornara-se peso.
Ele havia escolhido cantar.
E agora, pagava o preço.
Calian se agitava dentro dele, exigindo espaço, exigindo reconhecimento.
— A culpa é sua — Calleb murmurou em pensamento. — Você me empurrou para isso.
Mas a raiva não se sustentava.
Por trás dela vinha o arrependimento.
Calleb sentou-se no canto do camarim, apoiando os cotovelos nos joelhos, a cabeça baixa.
Pela primeira vez desde que deixara Blackpine, ele se perguntou se havia cometido o maior erro da própria vida.
E, naquele instante silencioso, uma verdade começou a se formar — incômoda, inevitável:
Ele não poderia continuar assim.
A recusa dela não o libertara.
Havia apenas despertado o colapso.
E, com ele, a necessidade urgente de voltar às origens — antes que perdesse não só o lobo, mas a si mesmo.







