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Capítulo 3 - Linhas Invisíveis

A rotina começou a se estabelecer mais rápido do que eu esperava. No terceiro dia naquela casa, já não me sentia uma visitante, mas também não era parte dela. Eu existia naquele espaço intermediário, entre o que era permitido e o que ninguém dizia em voz alta.

Laura acordou bem-humorada naquela manhã. Vestiu-se sozinha, escolheu os próprios sapatos e me contou, orgulhosa, que tinha sonhado comigo. Não soube exatamente o que responder, apenas sorri e a ajudei a prender o cabelo.

— Você fica hoje também? — perguntou.

— Fico, sim.

Ela pareceu aliviada.

Na cozinha, preparei o café enquanto Laura desenhava à mesa. Augusto entrou poucos minutos depois, falando ao telefone, a voz firme, controlada. Encerrou a ligação ao nos ver e ficou parado por um instante, observando a cena simples diante dele.

— Bom dia — disse.

— Bom dia — respondi, mantendo a distância dentro de mim.

Ele se aproximou da filha, beijou-lhe o topo da cabeça e pegou uma xícara. Seus olhos passaram por mim rápido demais, como se evitar contato fosse uma regra recém-criada.

— O motorista chega às nove — informou. — Laura tem consulta à tarde.

— Estaremos prontas.

Ele assentiu e saiu. Laura observou a porta se fechar.

— Ele fica estranho quando pensa muito — comentou.

Não discordei.

Mais tarde, enquanto eu organizava a mochila de Laura, o interfone tocou. Era o técnico da internet. Abri a porta e expliquei o problema. Ele sorriu, educado demais, e comentou algo sobre a casa ser grande demais para uma pessoa só.

— Deve dar trabalho — disse, olhando em volta.

— Dá — respondi, curta.

Quando me virei, vi Augusto parado no corredor, observando a cena. Seu maxilar estava rígido. Agradeceu o técnico com frieza e acompanhou-o até a saída sem dizer mais nada.

— Não precisamos de conversas desnecessárias aqui — disse, quando voltou.

— Ele só estava fazendo o trabalho dele — respondi.

— Ainda assim.

Respirei fundo.

— Se houver alguma regra nova, é melhor me dizer claramente.

Ele me encarou, surpreso com o tom.

— Não se trata de regras novas — respondeu. — Trata-se de limites.

— Então confie que eu sei respeitá-los.

O silêncio que se seguiu foi denso. Ele parecia medir cada palavra antes de falar.

— Laura se apega com facilidade — disse, por fim. — E eu não posso permitir instabilidade.

— Eu não sou instável — respondi. — Nem emocionalmente irresponsável.

Ele me observou por alguns segundos, como se tentasse decidir se aquilo era verdade.

— Espero que não.

Laura interrompeu o clima ao correr até nós, mostrando um desenho. Augusto se abaixou para olhar, e algo em sua expressão mudou. Vi ali o homem que ele escondia do mundo.

À tarde, após a consulta, Laura teve dificuldade para dormir. Chorou em silêncio, agarrada ao travesseiro, dizendo sentir falta da mãe. Sentei ao lado dela, sem pressa, deixando que falasse. Quando finalmente adormeceu, encontrei Augusto parado à porta.

— Ela não costuma chorar — disse, baixo.

— Crianças sentem falta mesmo quando não sabem explicar — respondi.

Ele assentiu.

— Obrigado por ficar com ela.

Foi a segunda vez que agradeceu. E aquilo pareceu mais importante do que deveria.

À noite, enquanto eu guardava os pratos, Augusto apareceu outra vez. Havia algo diferente em sua postura. Menos rigidez. Mais cansaço.

— Precisamos conversar — disse.

Meu estômago se contraiu.

— Sobre o quê?

— Sobre o que está acontecendo

.

— O que exatamente?

Ele hesitou.

— Essa proximidade. A rotina. Não quero confusão.

— Eu também não — respondi. — Mas confusão não surge do nada.

Ele deu um passo à frente.

— Você precisa entender que esta casa já passou por muita coisa.

— E eu preciso entender onde piso — rebati. — Não sou invisível.

O olhar dele escureceu.

— Você foi contratada para cuidar da minha filha.

— E é exatamente o que faço.

O silêncio voltou a se impor. Dessa vez, mais carregado. Ele parecia prestes a dizer algo que não deveria.

— A mãe da Laura vem amanhã — disse, por fim.

Senti o impacto da frase.

— Ela não avisa quando vem — continuou. — Mas avisou desta vez.

— E isso muda alguma coisa? — perguntei.

Ele me encarou com intensidade.

— Muda tudo.

Ficamos ali, frente a frente, separados por regras frágeis demais para sustentar o que crescia no ar. Pela primeira vez, tive certeza de que aquele trabalho não seria apenas temporário. Ele seria decisivo.

E talvez perigoso.

Fui para o quarto de hóspedes mais tarde do que pretendia. O relógio marcava quase onze, mas o cansaço não vinha. Tomei um banho demorado, tentando organizar pensamentos que insistiam em se embaralhar. O vapor quente não conseguiu afastar a lembrança do olhar de Augusto, nem a forma como ele dissera que tudo mudaria.

Vesti o pijama e me sentei na cama, quando ouvi passos no corredor. Lentos. Contidos. Reconheci o ritmo antes mesmo de a sombra passar sob a porta.

Ela se abriu com um clique discreto. Augusto apareceu no vão, sem entrar completamente.

— Laura teve um pesadelo — disse, baixo. — Já voltou a dormir.

— Posso ir lá ver se ela está bem — ofereci, levantando.

— Não precisa — respondeu rápido demais. — Ela só… quis saber se você estava aqui.

A frase ficou suspensa entre nós, tudo parecia mais pequeno e sufocante. Ficou nítido o quanto a pequena Laura tem medo do abandono, e isso dói mais do que qualquer ferimento invisível.

— Eu estou — respondi. — Não vou desaparecer durante a noite.

Ele assentiu uma vez, os ombros visivelmente tensos.

— Essa casa ficou silenciosa demais depois do divórcio — disse, como se falasse consigo mesmo. — Não estou acostumado a ouvir passos além dos meus.

— Silêncio também cansa — falei, sem pensar muito.

Ele me encarou, e por um instante achei que tivesse ultrapassado um limite invisível. Mas Augusto não se afastou. Pelo contrário, deu um passo para dentro do quarto. A distância entre nós diminuiu, trazendo de volta aquela sensação incômoda de proximidade excessiva.

— Boa noite, Helena — disse, finalmente.

— Boa noite.

Ele fechou a porta com cuidado. Fiquei parada, ouvindo seus passos se afastarem, com a estranha certeza de que aquele breve diálogo tinha significado mais do que deveria. Não fora sobre Laura. Nem sobre rotina. Fora sobre presença.

E presença, eu começava a entender, era algo perigoso naquela casa. Talvez eu esteja correndo risco de ultrapassar linhas que não deveria.

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