Mundo de ficçãoIniciar sessãoAcordei antes do despertador tocar, com a sensação estranha de estar em uma casa alheia. O quarto de hóspedes era grande, silencioso e organizado demais, como se ninguém tivesse vivido ali por muito tempo. Levantei devagar, tentando lembrar que aquele não era um teste, mas meu primeiro dia oficial como babá de Laura Menezes.
Vesti uma calça confortável, uma blusa clara e prendi o cabelo num coque simples. Nada que chamasse atenção. Nada que pudesse ser interpretado como algo além de profissional. Repeti isso mentalmente enquanto atravessava o corredor em direção à cozinha. O cheiro de café já estava no ar. Augusto estava ali, encostado na bancada, lendo algo no tablet. Sem terno dessa vez, apenas uma camisa social de mangas dobradas. A imagem doméstica combinava pouco com o homem frio do escritório, e precisei me lembrar de manter distância. — Bom dia — cumprimentei, baixa. Ele ergueu o olhar apenas o suficiente para me registrar, parecendo desinteressado, mas intrigado ao mesmo tempo. — Bom dia. Laura acorda às sete. O café dela é simples. Frutas, leite e pão. — Certo. Silêncio outra vez. Peguei uma xícara, consciente demais da presença dele atrás de mim. O espaço parecia diminuir conforme eu me movia, quando me virei, ele estava mais perto do que eu esperava. O esbarrão foi inevitável. Meu cotovelo tocou seu braço, e o impacto mínimo foi o bastante para me fazer prender a respiração. Augusto também congelou, por um segundo, nenhum de nós se moveu. — Desculpa — falei rápido, recuando. — Cuidado — respondeu, a voz baixa, contida. Os olhos dele demoraram em mim mais do que deveriam antes de voltar ao tablet. Aquilo foi o suficiente para deixar meu coração acelerado. Segui para o quarto de Laura pouco depois. Bati de leve na porta antes de entrar. — Bom dia, artista — disse, ao vê-la sentada na cama, cercada de bonecos. Ela me encarou, séria, como no dia anterior, entretanto, havia algo em seus olhos que eu ainda não sabia como nomear. — Você voltou. — Voltei. Vou ficar um tempo com você, se quiser. Ela pensou por alguns segundos e deu de ombros. — Tá bom. Era um começo. Não é um passo muito grande, mas são de pequenos passos que a vida é feita. Vejo isso como um avanço muito bom, pois a confiança de uma criança se conquista com tempo e paciência. Passamos a manhã entre escovar dentes, escolher roupas e convencer Laura a comer ao menos metade das frutas. Ela falava pouco, mas observava tudo. Eu respeitei o ritmo dela, sem pressa, sem cobranças. Depois do café, levei-a para o jardim. O sol da manhã deixava a casa menos fria, quase acolhedora. Laura correu até o balanço e começou a se movimentar sozinha. — Você não vai empurrar? — perguntou, direta como seu pai. — Posso empurrar, se quiser. Ela assentiu, e comecei devagar. Aos poucos, o sorriso apareceu. Foi pequeno, mas verdadeiro. Meu peito aqueceu com a sensação de vitória silenciosa, continuo amando a sensação de cuidar de alguém tão inocente que merece todo amor do mundo. — Papai trabalha muito — disse de repente. — Eu sei. — Ele fica sério quando está cansado. Não respondi. Apenas continuei empurrando o balanço, com calma e prestando atenção em tudo o que ela dizia. — Você também vai embora? — ela perguntou de novo. A pergunta me atingiu mais forte daquela vez. — Não pretendo — respondi, honesta. — Mas às vezes os adultos erram. Ela ficou em silêncio, aceitando a resposta como se fosse suficiente. Quando voltamos para dentro, Augusto estava no corredor, falando ao telefone. Sua postura mudou ao nos ver. Desligou a chamada e observou Laura. — Tudo bem? — perguntou a ela. — Sim — respondeu. — A Helena brinca comigo. Algo no olhar dele suavizou. Não muito, mas o bastante para eu perceber. — Ótimo. Segui com Laura até a sala de brinquedos. Enquanto ela desenhava, organizei o espaço, mantendo atenção nela. Aos poucos, ela começou a falar mais. Sobre a escola, sobre uma professora que gritava demais, sobre a saudade da mãe, dita sem drama, apenas como um fato. Eu ouvi tudo. Na hora do almoço, preparei algo simples. Augusto apareceu na cozinha outra vez, observando em silêncio. — Ela comeu bem — informei. — Obrigado. Foi a primeira vez que ele me agradeceu. Depois do almoço, Laura dormiu. Aproveitei o silêncio para guardar alguns materiais no armário alto da lavanderia. Subi no pequeno banco e estiquei o braço. O banco escorregou, fazendo eu perder o equilíbrio por um segundo curto demais para gritar. Braços fortes me seguraram pela cintura antes que eu caísse. Augusto. Meu corpo reagiu imediatamente à proximidade. O toque firme, o calor, a respiração dele próxima demais da minha nuca. — Está tudo bem? — perguntou, tenso. — Sim… obrigada. Ele não me soltou de imediato. O silêncio se estendeu, carregado. Meu coração batia rápido demais para algo tão simples. — Helena — ele disse, finalmente. — Isso não pode acontecer. — Eu sei. Ele me soltou como se tivesse se queimado. — Seja cuidadosa — completou, afastando-se. Fiquei ali por alguns segundos, tentando recuperar o fôlego. Naquela noite, enquanto me deitava, pensei no olhar dele, no silêncio, nas regras não ditas. Meu primeiro dia tinha sido tranquilo demais para uma casa cheia de limites. Antes de apagar a luz, ouvi passos no corredor e a porta de Laura se abrindo e fechando com cuidado. Reconheci o ritmo contido de Augusto, sempre atento, sempre vigilante. Havia algo quase solitário na forma como ele circulava pela própria casa, como se estivesse sempre protegendo algo que já havia perdido. Virei de lado na cama, tentando afastar pensamentos que não me cabiam. Eu estava ali por Laura. Pelo trabalho. Pelo acordo silencioso que havia sido estabelecido. Ainda assim, a imagem dele me segurando continuava nítida, insistente. Aquela casa tinha regras claras, mas também tinha silêncios perigosos. E eu começava a entender que não seriam gritos ou escândalos que quebrariam os limites ali. Seriam momentos pequenos, quase inocentes, acumulados sem aviso. Fechei os olhos com a sensação de que o verdadeiro desafio não seria cuidar de uma criança ferida pelo divórcio dos pais, mas conviver diariamente com um homem que confundia controle com proteção. No escuro, aceitei uma verdade incômoda: aquele emprego exigiria mais do que profissionalismo. Exigiria meu total foco e controle sobre meus sentimentos.






