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Capítulo 4 - A Mulher do Passado

O som da campainha ecoou pela casa pouco depois das dez da manhã. Eu estava na sala de brinquedos com Laura, ajudando-a a montar um quebra-cabeça, quando ela levantou a cabeça de repente.

— É ela — disse, simples demais para uma frase tão pesada.

Meu corpo reagiu antes da mente.

— Quem, querida?

— Minha mãe.

Antes que eu pudesse responder, passos firmes atravessaram o corredor. Augusto surgiu à porta, o semblante fechado, a postura rígida como se estivesse prestes a entrar numa reunião importante.

— Laura, venha comigo — disse, estendendo a mão.

Ela olhou para mim por um instante, como se buscasse permissão. Sorri de leve, encorajando.

— Vai ficar tudo bem — falei.

Eles saíram, e eu fiquei ali, com a sensação estranha de ocupar um lugar que não era meu. Respirei fundo e comecei a guardar os brinquedos, tentando ignorar as vozes que chegavam abafadas da entrada.

A mulher entrou rindo. Era uma risada confiante, alta demais para o silêncio daquela casa.

— Ainda tão sério, Augusto? — disse ela. — Parece que nunca saiu do escritório.

Ouvi passos se aproximando. Quando me virei, ela já estava no corredor.

Bonita, elegante, o tipo de mulher que não precisava se esforçar para ser notada. Cabelo impecável, roupas caras, olhar afiado. Seus olhos me percorreram sem disfarçar a curiosidade.

— E você deve ser a babá — concluiu.

— Sou Helena — respondi, mantendo a postura.

— Clara — disse ela, estendendo a mão. — Mãe da Laura. Ex-esposa dele.

A forma como disse “ex” soou mais como provocação do que constatação.

— Prazer — respondi, apertando sua mão.

Ela sorriu de um jeito calculado.

— Mora aqui?

— Sim.

As sobrancelhas dela se ergueram levemente.

— Interessante.

Augusto apareceu logo atrás, visivelmente tenso.

— Clara, não comece.

— Começar o quê? — ela perguntou, fingindo inocência. — Só estou conhecendo quem passa mais tempo com a minha filha do que eu.

Laura surgiu correndo e se jogou nos braços da mãe. Clara a abraçou com força, exagerada, lançando um olhar rápido para Augusto, como se quisesse marcar território.

— Sentiu minha falta? — perguntou.

— Um pouco — respondeu Laura, sincera.

Algo na expressão de Clara se fechou por um segundo, rápido demais para Laura perceber.

— Vamos sair — disse Augusto. — Conversar lá fora.

— Não, quero ficar — Clara respondeu. — Quero ver o quarto dela. Quero ver a casa.

Augusto respirou fundo, claramente contrariando a própria vontade.

— Helena — chamou ele —, pode ficar com a Laura um pouco?

Laura me olhou, dividida.

— Vai com a Helena — disse Clara, sorrindo para a filha. — Mamãe precisa falar com o papai.

Levei Laura para a sala de brinquedos outra vez. Ela parecia inquieta, menos falante do que o habitual.

— Sua mãe vem sempre? — perguntei, com cuidado.

— Não — respondeu. — Ela sempre promete.

Não insisti, prefiro não pressionar a pequena Laura.

Enquanto Laura desenhava, ouvi vozes mais altas vindas da sala principal. Não conseguia distinguir palavras, apenas o tom. Clara falava rápido. Augusto respondia pouco.

— Você vai embora também? — Laura perguntou de repente.

— Não — respondi, firme. — Estou aqui com você.

Ela assentiu, satisfeita.

Algum tempo depois, Clara apareceu à porta da sala de brinquedos.

— Posso levá-la para almoçar fora — disse, sem me olhar. — Se o pai permitir.

— Laura tem rotina — respondi, antes mesmo de pensar. — E consulta mais tarde.

Clara finalmente voltou os olhos para mim.

— Você fala como se fosse da família.

— Falo como alguém responsável por ela durante o dia — respondi, sem alterar o tom.

Augusto surgiu logo atrás.

— Ela fica — disse ele. — Hoje não.

O sorriso de Clara se tornou fino.

— Desde quando você toma decisões tão rápidas? — provocou.

— Desde que precisei — respondeu ele.

Clara suspirou, teatral.

— Tudo bem. Mas vou voltar mais vezes. — Seus olhos pousaram em mim outra vez. — Precisamos conversar melhor, Helena.

— Quando quiser — respondi.

Ela se despediu de Laura com promessas vagas e saiu da casa com a mesma confiança com que entrou. O silêncio que ficou depois pareceu ainda mais pesado.

Augusto passou a mão pelo rosto, cansado.

— Ela não precisava ter falado daquele jeito — disse, olhando para mim.

— Eu sei me defender — respondi.

— Mesmo assim… — Ele parou. — Não quero que se sinta desconfortável.

— É inevitável — respondi, honesta. — Mas não é motivo para eu ir embora.

Ele me encarou, atento, observador como desde o primeiro dia.

— Você ficaria?

— Sim. Por Laura. E porque não fiz nada errado.— Algo mudou no olhar dele. Não era desejo, ainda não. Era respeito.

— Obrigado — disse.

Mais tarde, enquanto Laura dormia, encontrei Augusto na cozinha. Havia duas xícaras sobre a bancada.

— Café? — ofereceu.

Aceitei.

Ficamos ali, em silêncio, cada um com seus pensamentos.

— Clara não vai desistir fácil — ele disse.

— Eu não espero que desista — respondi. — Só espero que você seja claro sobre o que quer.

Ele me olhou demoradamente.

— Às vezes, clareza assusta mais do que confusão.

Senti o peso da frase.

Quando fui para o quarto naquela noite, tive certeza de uma coisa: a chegada de Clara não tinha sido apenas um reencontro familiar. Tinha sido um aviso.

E, dali em diante, nada naquela casa seria simples outra vez.

Depois que a porta se fechou atrás de Clara, Laura ficou parada no meio da sala, segurando um dos brinquedos contra o peito. O silêncio pareceu grande demais para ela.

— Ela volta? — perguntou, sem levantar os olhos.

Augusto hesitou por um instante.

— Volta — respondeu. — Mas você não precisa se preocupar com isso agora.

Laura não pareceu convencida. Aproximou-se de mim e segurou minha mão, um gesto pequeno, automático, que não passou despercebido. Senti o olhar de Augusto sobre nós, pesado de significados que ele não verbalizava.

— Vamos guardar os brinquedos — sugeri, tentando devolver normalidade ao ambiente.

Laura assentiu e começou a ajudar, mais quieta do que de costume.

Cada movimento parecia carregado de um cuidado excessivo, como se ela temesse fazer algo errado. Quando terminamos, ela se virou para o pai.

— A Helena fica, né?

Augusto respirou fundo antes de responder.

— Fica.

A confirmação pareceu aliviar algo dentro dela. Laura sorriu de leve e correu para o quarto, deixando-nos sozinhos outra vez.

— Ela se apega rápido — disse Augusto, mais para si do que para mim.

— Porque precisa de estabilidade — respondi. — Crianças sentem quando algo ameaça o pouco equilíbrio que têm.

Ele assentiu, pensativo.

— Clara nunca entendeu isso.

A frase ficou suspensa no ar, revelando mais do passado do que ele provavelmente pretendia. Não comentei. Às vezes, o silêncio era a forma mais respeitosa de escutar.

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