Mundo de ficçãoIniciar sessãoO som da campainha ecoou pela casa pouco depois das dez da manhã. Eu estava na sala de brinquedos com Laura, ajudando-a a montar um quebra-cabeça, quando ela levantou a cabeça de repente.
— É ela — disse, simples demais para uma frase tão pesada. Meu corpo reagiu antes da mente. — Quem, querida? — Minha mãe. Antes que eu pudesse responder, passos firmes atravessaram o corredor. Augusto surgiu à porta, o semblante fechado, a postura rígida como se estivesse prestes a entrar numa reunião importante. — Laura, venha comigo — disse, estendendo a mão. Ela olhou para mim por um instante, como se buscasse permissão. Sorri de leve, encorajando. — Vai ficar tudo bem — falei. Eles saíram, e eu fiquei ali, com a sensação estranha de ocupar um lugar que não era meu. Respirei fundo e comecei a guardar os brinquedos, tentando ignorar as vozes que chegavam abafadas da entrada. A mulher entrou rindo. Era uma risada confiante, alta demais para o silêncio daquela casa. — Ainda tão sério, Augusto? — disse ela. — Parece que nunca saiu do escritório. Ouvi passos se aproximando. Quando me virei, ela já estava no corredor. Bonita, elegante, o tipo de mulher que não precisava se esforçar para ser notada. Cabelo impecável, roupas caras, olhar afiado. Seus olhos me percorreram sem disfarçar a curiosidade. — E você deve ser a babá — concluiu. — Sou Helena — respondi, mantendo a postura. — Clara — disse ela, estendendo a mão. — Mãe da Laura. Ex-esposa dele. A forma como disse “ex” soou mais como provocação do que constatação. — Prazer — respondi, apertando sua mão. Ela sorriu de um jeito calculado. — Mora aqui? — Sim. As sobrancelhas dela se ergueram levemente. — Interessante. Augusto apareceu logo atrás, visivelmente tenso. — Clara, não comece. — Começar o quê? — ela perguntou, fingindo inocência. — Só estou conhecendo quem passa mais tempo com a minha filha do que eu. Laura surgiu correndo e se jogou nos braços da mãe. Clara a abraçou com força, exagerada, lançando um olhar rápido para Augusto, como se quisesse marcar território. — Sentiu minha falta? — perguntou. — Um pouco — respondeu Laura, sincera. Algo na expressão de Clara se fechou por um segundo, rápido demais para Laura perceber. — Vamos sair — disse Augusto. — Conversar lá fora. — Não, quero ficar — Clara respondeu. — Quero ver o quarto dela. Quero ver a casa. Augusto respirou fundo, claramente contrariando a própria vontade. — Helena — chamou ele —, pode ficar com a Laura um pouco? Laura me olhou, dividida. — Vai com a Helena — disse Clara, sorrindo para a filha. — Mamãe precisa falar com o papai. Levei Laura para a sala de brinquedos outra vez. Ela parecia inquieta, menos falante do que o habitual. — Sua mãe vem sempre? — perguntei, com cuidado. — Não — respondeu. — Ela sempre promete. Não insisti, prefiro não pressionar a pequena Laura. Enquanto Laura desenhava, ouvi vozes mais altas vindas da sala principal. Não conseguia distinguir palavras, apenas o tom. Clara falava rápido. Augusto respondia pouco. — Você vai embora também? — Laura perguntou de repente. — Não — respondi, firme. — Estou aqui com você. Ela assentiu, satisfeita. Algum tempo depois, Clara apareceu à porta da sala de brinquedos. — Posso levá-la para almoçar fora — disse, sem me olhar. — Se o pai permitir. — Laura tem rotina — respondi, antes mesmo de pensar. — E consulta mais tarde. Clara finalmente voltou os olhos para mim. — Você fala como se fosse da família. — Falo como alguém responsável por ela durante o dia — respondi, sem alterar o tom. Augusto surgiu logo atrás. — Ela fica — disse ele. — Hoje não. O sorriso de Clara se tornou fino. — Desde quando você toma decisões tão rápidas? — provocou. — Desde que precisei — respondeu ele. Clara suspirou, teatral. — Tudo bem. Mas vou voltar mais vezes. — Seus olhos pousaram em mim outra vez. — Precisamos conversar melhor, Helena. — Quando quiser — respondi. Ela se despediu de Laura com promessas vagas e saiu da casa com a mesma confiança com que entrou. O silêncio que ficou depois pareceu ainda mais pesado. Augusto passou a mão pelo rosto, cansado. — Ela não precisava ter falado daquele jeito — disse, olhando para mim. — Eu sei me defender — respondi. — Mesmo assim… — Ele parou. — Não quero que se sinta desconfortável. — É inevitável — respondi, honesta. — Mas não é motivo para eu ir embora. Ele me encarou, atento, observador como desde o primeiro dia. — Você ficaria? — Sim. Por Laura. E porque não fiz nada errado.— Algo mudou no olhar dele. Não era desejo, ainda não. Era respeito. — Obrigado — disse. Mais tarde, enquanto Laura dormia, encontrei Augusto na cozinha. Havia duas xícaras sobre a bancada. — Café? — ofereceu. Aceitei. Ficamos ali, em silêncio, cada um com seus pensamentos. — Clara não vai desistir fácil — ele disse. — Eu não espero que desista — respondi. — Só espero que você seja claro sobre o que quer. Ele me olhou demoradamente. — Às vezes, clareza assusta mais do que confusão. Senti o peso da frase. Quando fui para o quarto naquela noite, tive certeza de uma coisa: a chegada de Clara não tinha sido apenas um reencontro familiar. Tinha sido um aviso. E, dali em diante, nada naquela casa seria simples outra vez. Depois que a porta se fechou atrás de Clara, Laura ficou parada no meio da sala, segurando um dos brinquedos contra o peito. O silêncio pareceu grande demais para ela. — Ela volta? — perguntou, sem levantar os olhos. Augusto hesitou por um instante. — Volta — respondeu. — Mas você não precisa se preocupar com isso agora. Laura não pareceu convencida. Aproximou-se de mim e segurou minha mão, um gesto pequeno, automático, que não passou despercebido. Senti o olhar de Augusto sobre nós, pesado de significados que ele não verbalizava. — Vamos guardar os brinquedos — sugeri, tentando devolver normalidade ao ambiente. Laura assentiu e começou a ajudar, mais quieta do que de costume. Cada movimento parecia carregado de um cuidado excessivo, como se ela temesse fazer algo errado. Quando terminamos, ela se virou para o pai. — A Helena fica, né? Augusto respirou fundo antes de responder. — Fica. A confirmação pareceu aliviar algo dentro dela. Laura sorriu de leve e correu para o quarto, deixando-nos sozinhos outra vez. — Ela se apega rápido — disse Augusto, mais para si do que para mim. — Porque precisa de estabilidade — respondi. — Crianças sentem quando algo ameaça o pouco equilíbrio que têm. Ele assentiu, pensativo. — Clara nunca entendeu isso. A frase ficou suspensa no ar, revelando mais do passado do que ele provavelmente pretendia. Não comentei. Às vezes, o silêncio era a forma mais respeitosa de escutar.






