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Capítulo 6: Enfrentando o Soldado de Guerra

O cheiro de perfume caro exalando pela suíte avisava que o tempo de ensaio tinha acabado.

Endrick se levantou primeiro, após um banho tranquilo. Ele abotoava a camisa social branca com uma calma ensaiada, embora a veia em seu pescoço saltasse sutilmente a cada movimento. Ele olhou para Aurora pelo espelho do closet, observando-a se espreguiçar. Em sua direção, lançou uma sacola delicada que chegara antes de os dois acordarem. Era uma saia reta e uma blusa de tom neutro que ele havia mandado comprar para ela na noite anterior.

— Vai cair muito bem no seu corpo. E não precisa agradecer. Apenas lembre-se do que conversamos — Endrick murmurou, aproximando-se com passos firmes. Ele se inclinou, ajeitando o cabelo dela com uma delicadeza calculada, mantendo o rosto a poucos centímetros do dela. O cheiro do sabonete caro misturava-se ao perfume forte que era sua paixão, impregnando a aura dele. — A dona Morgana não dá bom-dia, ela faz interrogatório. Se você vacilar no olhar, ela manda uma mensagem para o meu pai antes mesmo de o café esfriar.

— Eu passei a vida inteira desviando de cobrança e de despejo, Endrick — Aurora respondeu sem piscar, sustentando o olhar firme do herdeiro e ajeitando a postura. — Não é uma governanta de salto alto que vai me fazer tremer.

Ele deu um sorriso de canto, impressionado com a audácia dela.

Alguns minutos depois, ela estava pronta. Estava belíssima. Ele então estendeu o braço para que ela o enlaçasse.

Quando os dois desceram a imponente escadaria de mármore em direção à sala de jantar, o aroma de pão fresco, café moído na hora e frutas cortadas inundava o ambiente. A mesa de jacarandá para doze pessoas estava posta com requinte exagerado: porcelanas importadas, talheres de prata e taças de cristal. E, de pé junto ao aparador, com as mãos cruzadas sobre o avental impecável e uma postura ereta como a de um soldado, estava a temida e leal governanta.

Os olhos de dona Morgana eram como lâminas. Ela varreu Aurora dos pés à cabeça, analisando o caimento das roupas de grife no corpo magro da garota e a firmeza com que ela segurava o braço de Endrick.

— Bom dia, Menino Endrick — a voz de Morgana saiu gélida, polida pela etiqueta, mas carregada de uma desconfiança cortante. — Não sabia que teríamos companhia para o desjejum.

A provocação era calculada. Ela sabia da presença de Aurora, mas soltou a frase para testar a reação da jovem. Endrick conhecia bem aquele jogo; sabia que seu pai, Orestes, certamente já havia ligado para a governanta antes mesmo de eles terem chegado à mansão na noite anterior.

Endrick puxou a cadeira da ponta para Aurora, num gesto de cavalheirismo ostensivo, e deslizou a mão pelas costas dela antes de se sentar ao seu lado.

— Não é convidada, senhora Morgana. É minha esposa — Endrick corrigiu com um tom seco, cortando o ar. — E a partir de hoje, você se dirige à Aurora com o mesmo respeito que deve a mim.

Morgana não piscou. Ela se aproximou da mesa com a jarra de suco de laranja, servindo a taça de Aurora com uma lentidão calculada. O estômago de Aurora roncou num protesto silencioso; a fome de dias acumulados parecia prestar contas exatamente agora, diante daquela mesa farta. Sem demonstrar pressa, mas com a voracidade de quem precisava de energia para a guerra que viria, Aurora serviu-se de uma fatia generosa de pão artesanal, queijo e frutas.

— Esposa... — Morgana repetiu a palavra como se estivesse provando um veneno amargo. Ela apoiou as mãos nas costas da cadeira vaga à frente deles, inclinando-se ligeiramente e deixando transparecer que já sabia da novidade. — O Seu Orestes ficou muito surpreso. Ele sempre me disse que o senhor tinha gostos... muito específicos e reservados. Dificilmente imaginávamos que o senhor encontraria alguém tão rápido. Onde foi mesmo que os dois se conheceram? A memória da idade às vezes me falha.

A pergunta foi solta como uma armadilha perfeita no meio da mesa. Aurora nem sequer pausou a garfada. Ela engoliu o pedaço de pão, usou o guardanapo de tecido para tocar os lábios de forma elegante e olhou diretamente nos olhos pequenos da governanta.

— Numa biblioteca pública no centro, senhora Morgana — Aurora disparou com a voz calma, limpa de qualquer hesitação. — O Endrick tentava alcançar um exemplar surrado de arquitetura na prateleira mais alta e quase derrubou uma fileira inteira. Eu o ajudei a segurar os livros.

Morgana ergueu uma sobrancelha, visivelmente surpresa, não com a resposta rápida e a postura destemida da jovem, mas pelo lugar citado.

— Uma biblioteca pública? — a velha desdenhou suavemente. — Não sabia que o jovem Endrick frequentava lugares tão... populares.

— Ele não frequentava — Aurora rebateu, com um brilho desafiador nos olhos enquanto estendia a mão para pegar a xícara de café. — Mas teve a sorte de ir naquele dia. Caso contrário, não teria me encontrado. E, se me dá licença, o café está excelente, mas meu marido e eu temos um horário rigoroso na sede do grupo hoje.

Endrick abriu um sorriso triunfante, cobrindo a mão de Aurora sobre a mesa e apertando-a com uma cumplicidade de aço. Ele sentiu o casca-grossa discreto da palma dela — o lembrete vivo do trabalho duro na roça —, mas a atitude de Aurora ali, dominando a governanta espiã no próprio terreno dela, provou que aqueles dois milhões seriam o melhor investimento de sua vida.

Morgana deu um passo para trás, o rosto rígido ao perceber que não tiraria nenhuma rachadura daquela versão perfeita.

— Como desejar, Sra. Brahzão — a governanta disse, enfatizando o sobrenome com contragosto. — Vou mandar preparar o carro. O motorista já está a posto.

O som dos passos pesados de dona Morgana afastando-se pelo corredor de tacos lustrados serviu como o sinal invisível para que a tensão na mesa finalmente aliviasse.

Endrick recostou-se na cadeira de jacarandá, soltando o ar em uma arfada curta e silenciosa. O olhar que ele lançou a Aurora já não carregava o deboche inicial de um herdeiro mimado; havia nele um brilho novo, moldado pelo respeito genuíno. A garota que na noite anterior tremia de pavor com uma ordem de despejo amassada no bolso do casaco acabara de neutralizar a espiã mais perigosa de Orestes Brahzão sem pestanejar.

— Você j**a melhor do que eu imaginava — Endrick murmurou, inclinando a cabeça e baixando o tom de voz para que o som não atravessasse a porta da cozinha. — Morgana vai passar os próximos dez minutos digitando um relatório detalhado para o meu pai no celular. A história da biblioteca funcionou, mas ela colocou o pé atrás.

— Ela é paga para desconfiar, não para gostar de mim — Aurora respondeu, levando a xícara de porcelana aos lábios e saboreando o último gole do café forte. — E se o seu pai mandou checar a casa logo cedo, o próximo passo dele é colocar gente na sua cola assim que o seu carro dobrar a esquina.

— Na esquina não. Dentro do prédio — Endrick corrigiu, a expressão voltando a ficar rígida ao encarar o relógio de pulso banhado a ouro. — Vanessa já deve estar na recepção da diretoria a essa hora. Ela é a diretora de operações do grupo e os olhos do meu pai dentro da empresa. Se Morgana é o soldado de infantaria, Vanessa é a artilharia pesada.

Aurora apoiou o guardanapo de tecido sobre a mesa com uma delicadeza ensaiada, alisando as dobras da saia reta que vestia. O tecido fino parecia estranho em sua pele acostumada a panos rústicos, mas o ajuste em seu corpo era impecável. Ela ergueu o queixo, cravando os olhos escuros no herdeiro.

— Então é bom o seu motorista não se atrasar, Endrick. Eu não pretendo perder essa reunião por nada.

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