Capítulo 04: A Verdade Nua e Crua

Os portões de ferro se fecharam atrás do carro com um estrondo abafado. Aurora desceu do SUV pisando num mármore tão polido que refletia sua imagem como um espelho sob as luzes quentes do pátio. A imponência da mansão Brahzão era esmagadora: colunas gigantescas, paredes de vidro cobrindo dois andares e o cheiro fresco de grama cortada misturado ao luxo sufocante daquele lugar.

Mas a grandeza da casa não preenchia o abismo de perguntas que queimava na cabeça de Aurora.

Endrick caminhava dois passos à sua frente, a postura ereta, mas com os ombros rígidos de quem ainda carregava a adrenalina da fuga. Ele fez um sinal curto para a governanta e dois funcionários que os aguardavam no saguão, dispensando qualquer recepção com um gesto impaciente.

— Levem as coisas dela amanhã — Endrick ordenou frio, apontando com o queixo para a escadaria imensa de madeira nobre. — Ninguém nos incomoda esta noite.

Ele seguiu pelo corredor do segundo andar, o som dos sapatos ecoando ritmado enquanto Aurora o acompanhava em silêncio. Ela encarava as costas daquele garoto que tinha a vida resolvida pelo dinheiro, mas a cabeça a prêmio pelo próprio pai. Entraram em uma suíte gigantesca — um espaço maior do que a casa inteira onde ela havia crescido na roça —, e Endrick trancou a porta de madeira maciça com duas voltas na chave assim que ela passou.

Ele se apoiou contra a madeira, soltando o ar numa arfada longa e passando as mãos pelo rosto para limpar o suor frio.

Aurora parou no centro do quarto. Os pés doloridos dentro dos sapatos velhos pareciam errados naquele tapete felpudo. Ela cruzou os braços, encarando o herdeiro sem qualquer vestígio do medo que sentia na rua.

— Seu beijo tem gosto de uísque — Aurora soltou, a voz baixa, limpa e direta.

Endrick travou. Suas mãos desceram do rosto e ele a encarou com as sobrancelhas franzidas, surpreso com a audácia da garota que até minutos atrás tremia de pavor no beco.

— O quê? — ele perguntou, a guarda levantada num tom defensivo.

— Seu beijo — ela repetiu, dando um passo lento na direção dele. — Tem gosto de uísque e cigarro vagabundo. Pela sua cara, pela sua pele e pelo jeito que você se veste, você não bebe isso. Nem fuma essa porcaria.

Endrick ergueu o queixo, a postura de garoto rico se armando como um escudo.

— Você não sabe nada sobre mim, garota.

— Eu não preciso saber sobre você para reconhecer o cheiro da mentira — Aurora cravou os olhos nos dele, sem piscar. — O seu beijo tinha o gosto da boca de outra pessoa. O beijo de quem estava com alguém segundos antes de se jogar por aquela porta dos fundos. E se você estivesse beijando uma mulher naquele camarote, garoto, você não estaria correndo como um bicho assustado pelo beco. Nem o seu pai teria descido de um carro de luxo pronto para decepar a sua cabeça.

O ar no quarto congelou.

A expressão arrogante de Endrick desmoronou num segundo. A pouca cor sumiu de seu rosto de um jeito tão drástico que a pele ficou pálida como a parede. A mente dele calculou a velocidade com que aquela garota do beco tinha desarmado o segredo que ele passou a vida inteira escondendo do homem mais perigoso da cidade.

Ele deu três passos rápidos até ela, o corpo tenso, parando a centímetros do rosto de Aurora. A respiração veio curta e ameaçadora, mas os olhos entregavam o pânico puro.

— Se você repetir essa porra para qualquer pessoa... — a voz dele saiu como um sibilo rasgado, trêmulo de raiva.

— Eu não estou nem aí para quem você beija — Aurora cortou na hora, sustentando a postura sem recuar um único milímetro. — A sua vida privada não é da minha conta. Mas agora eu sei por que você me arrastou para esta farsa. Você não prometeu dois milhões de reais para ter uma esposa. Você me usou como cortina de fumaça para não ser deserdado por um pai preconceituoso.

Endrick engoliu em seco, a mandíbula travada. Ele não tinha como negar. A garota tinha todas as peças do jogo na mão.

— É — Endrick admitiu, a voz baixando num sussurro cru, desarmado de toda a soberba. — É exatamente por isso. Meu pai me destrói se souber a verdade. Ele me j**a na rua e tira tudo o que é meu. E você precisa do dinheiro para não passar necessidade. Estamos os dois no mesmo buraco, Aurora.

Aurora olhou ao redor do quarto luxuoso e depois voltou os olhos para o garoto rico que dependia de sua mentira para continuar no topo.

— Eu jogo o seu jogo pelos dois milhões — ela disse, a voz fria como aço. — Mas se vamos sustentar essa sujeira diante do seu pai, eu preciso saber o tamanho da encrenca. E sobre dormir no mesmo quarto... quero um só para mim.

— A gente está sob o mesmo teto que vinte empregados — Endrick explicou, inclinando a cabeça e recuperando o foco prático. — Três deles respondem diretamente ao meu velho e relatam até a cor do ar que eu respiro aqui dentro. Se a suposta esposa que eu escondi por meses dormir em outro cômodo na primeira noite, amanhã de manhã a fofoca já chegou no hangar dele. Tem um sofá gigante ali no canto e a cama é grande o suficiente para duas pessoas nem se encostarem. Temos três dias para decorar a vida um do outro antes de o meu pai voltar com um advogado na cola.

Aurora encarou a cama king size no centro da suíte e depois olhou para ele. O raciocínio era impiedoso e correto.

— Certo — ela cedeu, firme. — Eu durmo aqui. Mas com uma condição: sem segredos entre a gente sobre essa farsa.

— O que mais você quer saber? — Endrick perguntou, cruzando os braços.

Aurora não hesitou. A pergunta saiu certeira:

— Como é o nome dele?

O ar no quarto pesou de novo. Endrick deu um leve sobressalto, arregalando os olhos por um segundo antes de entender a pergunta. Ele não esperava que ela fosse direto ao ponto. Mas ao encarar o olhar sério da garota, percebeu que a máscara entre os dois havia caído para sempre.

A tensão no rosto de Endrick cedeu. Os ombros baixaram e a postura defensiva deu lugar a uma honestidade nua e crua.

— Yann — ele respondeu, a voz caindo num tom confidencial.

No momento em que o nome saiu de sua boca, a expressão de Endrick mudou. A rigidez do herdeiro amedrontado desapareceu. O nome soou em seus lábios com um tom proibido, e um riso de canto de boca surgiu em seu rosto — um sorriso provocante, carregado de um segredo que ele não precisava mais esconder entre aquelas paredes.

Aurora observou a transformação no rosto dele. Pela primeira vez na noite, o garoto parecia alguém real.

— Yann... — ela repetiu baixo. — E o que esse Yann faz além de quase te fazer ser deserdado numa terça-feira à noite?

Endrick soltou um arfar de riso, balançando a cabeça enquanto caminhava até o closet para pegar toalhas limpas.

— Ele gasta o meu dinheiro e me lembra de que eu sou uma pessoa de verdade antes das seis da manhã, quando meu pai acorda para contar o império dele. Agora vai tomar um banho. Você cheira a fumaça de beco e chuva, e a minha esposa precisa parecer que vale dois milhões de reais amanhã cedo.

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