Mundo de ficçãoIniciar sessãoO motor V8 do SUV blindado apenas sussurrava no asfalto molhado enquanto o veículo cruzava a rodovia em direção ao condomínio fechado da família Brahzão. No banco de trás, o ar-condicionado congelava a pele de Aurora, mas o suor frio no pescoço de Endrick era resultado puro da adrenalina. Ele mantinha a mão dela presa na sua, simulando a intimidade de um casal apaixonado sob o olhar atento de Orestes, que viajava no banco do carona com a postura rígida.
Aurora tentou puxar a mão duas vezes, mas o aperto de Endrick se tornava mais firme a cada tentativa. O olhar que ele lançava pelo canto dos olhos era um aviso claro: se ela causasse uma cena ali, o desastre começaria no mesmo segundo. Foi quando o toque agudo de um telefone que não era o aparelho corporativo de Orestes cortou o silêncio pesado do veículo. O velho alcançou o bolso interno do sobretudo e puxou um aparelho antigo, sem identificação de chamada. Ele atendeu sem qualquer saudação. — Fala — Orestes disse, a voz baixa e tensa. A pessoa do outro lado falou rápido. Aurora não conseguia ouvir as palavras, mas viu pelo espelho retrovisor a pouca cor sumir do rosto do magnata. A mandíbula de Orestes travou de um jeito tão violento que as veias de seu pescoço saltaram. — Certeza? — Orestes perguntou, a voz caindo meio tom, carregada de uma gravidade que fez até os seguranças no banco da frente endireitarem a coluna. — Prepara o jato. Tô indo direto pro hangar. Cancelador de sinal ligado. Ninguém fica sabendo disso. Ele desligou o aparelho e o guardou antes de virar a cabeça para o banco de trás. A fúria desconfiada que mantinha sobre Endrick deu lugar a uma urgência perigosa. — Minha partida pro sul acabou de ser antecipada — Orestes declarou, encarando o filho fixamente. — Tô indo pro hangar agora. São três dias, Endrick. Três dias. O velho apontou o dedo grosso na direção do garoto, ignorando a presença de Aurora. — Quando eu pisar de volta nesta cidade, quero a certidão física na minha mesa e a documentação completa desta garota na minha frente. Se tiver um único carimbo falso, se eu descobrir que isso é um circo pra cobrir suas sujeiras, eu te coloco no olho da rua sem um centavo pra cair morto. O motorista mudou a rota no primeiro retorno da avenida, acelerando em direção ao aeroporto executivo. Orestes nem sequer esperou o carro parar totalmente no acostamento da área restrita. Saltou do veículo com a escolta principal, batendo a porta com força suficiente para fazer a lataria blindada vibrar. Dentro do SUV, o silêncio durou apenas o tempo de as turbinas do jatinho começarem a roncar ao longe. No instante em que o veículo deu meia-volta na pista, Aurora puxou a mão com toda a força que tinha, soltando-se do aperto de Endrick. Ela se encostou contra a porta oposta, arfando, com os olhos divididos entre o pavor e a indignação. — Me deixa descer deste carro agora! — ela vociferou num sussurro rasgado, encarando o herdeiro que afrouxava a gravata com as mãos trêmulas. — Cala a boca e escuta — Endrick retrucou, a voz recuperando o tom firme à medida que a ameaça direta do pai se afastava. Ele puxou do bolso o papel de despejo amassado de Aurora e o jogou sobre o banco de couro, entre os dois. — O seu nome é Aurora, certo? — Não te interessa! Me dá a minha bolsa e manda parar o carro! — Aurora, você percebeu que a sua vida mudou nos últimos dez minutos? — Endrick leu o cabeçalho sob a luz fraca do teto e ergueu os olhos para ela. — Você tava a um passo de dormir no asfalto molhado por causa de um aluguel atrasado. Aurora travou. A verdade doía mais do que a raiva. — O meu pai me deu três dias. Três dias é o tempo que eu tenho pra conseguir registrar essa farsa ou dar um jeito no cartório — Endrick continuou, inclinando-se na direção dela e reduzindo o espaço no banco. — Você vai para a minha mansão. Vai comer da melhor comida, vai dormir numa cama impecável e vai ter dois milhões de reais na sua conta no dia em que o meu pai fechar esse interrogatório. — Dois milhões? — a palavra saiu da boca de Aurora num fio de voz. — Dois milhões — ele repetiu, cravando o olhar no dela. — Tudo o que você precisa fazer é não abrir a boca para os empregados, vestir as roupas que eu mandar comprarem para você e fingir que é a minha esposa. Se tentar fugir, os homens do meu pai te acham em duas horas. Se ficar, você nunca mais passa aperto na sua vida. O SUV dobrou a última curva da colina arborizada de Porto Ilha Bela e parou diante dos portões gigantescos de ferro trabalhado da mansão Brahzão. A propriedade brilhava ao longe com luzes quentes e jardins impecáveis — um mundo que Aurora só tinha visto através de vitrines e telas. Ela olhou para a folha amassada da ordem de despejo sobre o couro. Olhou para as próprias mãos calejadas, marcadas pela poeira do beco. E encarou os portões de ferro que se abriam lentamente, convidando-a a entrar na cova dos leões.






