Mundo de ficçãoIniciar sessãoO SUV preto blindado cortava o trânsito denso da capital em direção ao centro financeiro. No banco traseiro, a proximidade forçada impunha uma disciplina rigorosa. Endrick manteve uma das mãos sobre o joelho de Aurora — um gesto estudado para o caso de os vidros fumê revelarem algo aos espiões na rua —, mas o toque, embora técnico, trazia um calor que nenhum dos dois ousava comentar.
A arquitetura espelhada da sede do Grupo Brahzão erguia-se como uma torre de vidro e aço de quarenta andares, dominando a avenida principal. Quando o carro parou sob o imponente pórtico da entrada principal, o manobrista apressou-se em abrir a porta.
Endrick desceu primeiro, ajeitando o paletó com a frieza de quem dominava aquele território. Em seguida, estendeu a mão para Aurora. Ela aceitou o apoio, pisando no asfalto com a firmeza de uma mulher que não pedia licença para existir, embora o coração no peito batesse como um tambor descompensado.
O saguão imenso, decorado com obras de arte contemporânea e pisos de granito polido, congelou por um segundo. Os sussurros começaram na velocidade de um incêndio. Funcionários de crachá no pescoço, recepcionistas e executivos em ternos alinhados reduziram o passo, os olhos fixos na mulher desconhecida que caminhava enlaçada ao braço do herdeiro.
— Mantenha a cabeça erguida e o sorriso discreto — Endrick soprou ao lado do ouvido dela enquanto avançavam em direção aos elevadores privativos. — Deixe que eles pensem que você pertence a este lugar desde sempre.
— Eu não preciso fingir elegância, Endrick — ela respondeu sem mover os lábios, mantendo a postura ereta. — Eu só preciso garantir que nenhum desses urubus perceba que eu sei o preço de um quilo de arroz.
Antes que as portas de inox do elevador expresso pudessem se fechar para o trigésimo andar, uma mão de unhas perfeitamente esculpidas em tom carmim segurou o sensor, impedindo a partida.
Uma mulher de conjunto de alfaiataria azul-marinho e postura impecável deu um passo para dentro da cabine. Os olhos azuis de Vanessa varreram Aurora num escaneamento frio e calculista que durou menos de dois segundos, antes de se fixarem em Endrick com um sorriso envenenado.
— Bom dia, Endrick — a executiva disse, a voz aveludada carregando uma ameaça implícita enquanto as portas se fechavam, isolando os três no cubículo espelhado. — Orestes me ligou de madrugada direto do jatinho. Ele me pediu para dar as boas-vindas pessoalmente à sua... grande novidade.
O silêncio dentro do elevador espelhado ficou tão denso que o zumbido suave dos cabos de aço parecia ensurdecedor.
Vanessa deu meio passo à frente, os saltos finos estalando contra o piso de granito. O olhar dela não desviava de Aurora, analisando com desprezo minucioso o caimento da roupa, a ausência de joias de grife e a postura absurdamente firme da garota que quebrara seus planos da noite para o dia. Para Vanessa, a diretoria de operações era apenas metade do prêmio; a outra metade, a mais valiosa, era a promessa silenciosa que Orestes Brahzão lhe fizera ao longo dos últimos dois anos — a garantia de que o sobrenome Brahzão e o controle do império seriam selados no altar, ao lado do herdeiro.
— Você deve ser a Aurora — Vanessa disse, o tom suave disfarçando com maestria o veneno. Ela estendeu uma mão perfeitamente manicurada, mas os olhos continuavam frios. — Sou Vanessa, diretora de operações do grupo e... digamos, a pessoa que realmente mantém esta empresa nos trilhos enquanto o Endrick se diverte.
Aurora não recuou. Em vez de demonstrar hesitação diante do luxo velado da executiva, ela segurou a mão de Vanessa com um aperto firme, sustentando o olhar da rival sem piscar.
— Muito prazer, Vanessa — Aurora respondeu, a voz calma e aveludada, sem qualquer traço de subserviência. — O Endrick me falou bastante sobre o seu trabalho. Ele disse que você é extremamente dedicada aos negócios do meu sogro.
O uso sutil e certeiro da palavra sogro fez o sorriso de Vanessa congelar por uma fração de segundo.
Endrick sentiu um arrepio de satisfação percorrer sua pele. Sem perder o ritmo do teatro, ele deslizou o braço com firmeza ao redor da cintura de Aurora, puxando-a para mais perto do seu corpo, enquanto encarava a executiva com uma frieza desafiadora.
— Orestes te ligou de madrugada porque vive preocupado com a gestão, Vanessa. Mas como você pode ver, a minha vida pessoal está perfeitamente resolvida — Endrick soltou, a voz baixa e impositiva. — A partir de hoje, a Aurora vai me acompanhar na diretoria. Quero que prepare a sala de reuniões para a apresentação do relatório do terceiro trimestre.
Vanessa piscou devagar, o peito subindo e descendo numa respiração contida enquanto processava o golpe. Orestes jamais lhe dera espaço para falhas, e aquela "esposa" surgida do nada era uma afronta direta à aliança que ela vinha construindo tijolo por tijolo com o velho bilionário. Se Orestes achava que a garota era um obstáculo temporário, Vanessa faria questão de transformar a vida daquela intrusa num inferno antes mesmo de o jatinho do patriarca pousar na capital.
— A apresentação já está pronta, Endrick — Vanessa rebateu, ajeitando o blazer com um gesto impecável e recuperando o tom profissional. — Só não sabia que a sua... esposa entendia de análise de ativos e fusões corporativas para acompanhar uma reunião de alto nível.
O indicador digital do elevador apitou, anunciando a chegada ao trigésimo andar. As portas de inox se abriram para o hall imponente da diretoria executiva, onde duas secretárias se levantaram imediatamente ao ver o herdeiro.
Aurora deu o primeiro passo para fora da cabine, ainda enlaçada a Endrick, e olhou de relance para Vanessa por cima do ombro, com um sorriso de canto afiado como navalha:
— Eu não entendo de fusões corporativas, Vanessa. Mas entendo perfeitamente de pessoas. E sei reconhecer quando alguém está tentando ocupar um lugar que não lhe pertence.
O rosto de Vanessa empalideceu por um segundo antes de os lábios dela se contraírem numa linha dura. Sem dizer mais uma palavra, a executiva bateu o salto no piso polido e caminhou a passos rápidos em direção ao corredor da presidência, a aura de fúria quase visível ao redor de seus ombros.







