Mundo de ficçãoIniciar sessãoAurora saiu do banheiro enrolada num roupão felpudo de algodão egípcio que encontrou pendurado atrás da porta, com uma toalha seca nos braços. O vapor quente ainda escapava pela fresta, trazendo o perfume doce de sabonete caro e flor de laranjeira que inundou o quarto. Sem as camadas de pano sovado, a jaqueta gasta e a poeira da rua, a transformação era brutal. Os cabelos pretos e longos pingavam água sobre os ombros, caindo lisos até a cintura e moldando o rosto delicado, onde os olhos grandes sobressaíam, limpos e vivos.
Endrick estava sentado na ponta da cama, vestindo apenas uma calça moletom cinza, mexendo no celular sem prestar atenção em nada. Quando ouviu a porta se abrir, levantou os olhos de forma displicente, mas travou o movimento no meio do caminho. O olhar dele percorreu a figura de Aurora por três segundos inteiros, absorvendo a mudança. Por trás daquela armadura de panos velhos e da miséria que a sufocava, existia uma beleza crua, elegante e impressionante. Não havia maquiagem nem joias; apenas a presença marcante de uma mulher que a vida dura da roça tinha esculpido sem frescura. Não houve desejo ou tensão sexual naquele olhar. O que nasceu ali, no meio do cansaço e do alívio da tempestade, foi a faísca de uma cumplicidade genuína — o início de uma aliança verdadeira entre dois sobreviventes. — Você é linda, Aurora — Endrick soltou com uma sinceridade tão espontânea que nem parecia o mesmo garoto debochado de minutos atrás. Aurora congelou a mão que secava os cabelos. Uma onda de calor subiu pelo seu pescoço e um sorriso sincero, que ela não dava há meses, desabrochou em seus lábios. Aquele elogio simples, dito sem pretensão, fez o peito dela inflar de uma leveza boa, limpando o amargor do dia terrível que tinha enfrentado. Ela jogou a toalha sobre o ombro, cruzou os braços e inclinou a cabeça para o lado com um brilho divertido nos olhos. — Você tá me paquerando, meu novo marido? Endrick soltou uma gargalhada alta e limpa, jogando a cabeça para trás, o som ecoando pelo quarto luxuoso e quebrando de vez qualquer resto de gelo entre eles. — Nem se você me pagasse os dois milhões, minha esposa — ele respondeu, rindo e ajeitando os travesseiros na cabeceira da cama. — Mas é sério. Aquele velho vai infartar quando te ver daqui a três dias. Você lavada não parece em nada a garota do papel de despejo. Aurora riu junto, sentando-se no sofá largo no pé da cama, secando as pontas do cabelo enquanto o cansaço começava a pesar nas pálpebras, embora o sono ainda estivesse longe. O riso compartilhado abriu caminho para um silêncio confortável. Endrick ficou em silêncio por um momento, observando o movimento ritmado das mãos dela. A curiosidade guardada durante o caos do beco finalmente veio à tona. — Me conta — ele pediu, o tom de voz baixando para algo calmo e curioso. — O que faz uma garota como você andar pela noite com a vida num saco de pano, indo direto para aquela ponte? O que aconteceu para você chegar ao limite, Aurora? Aurora parou a toalha, olhando para o teto trabalhado do quarto. A dor da memória ainda estava ali, mas agora parecia mais distante, amaciada pela cama quente e pela certeza de que o amanhã viria. — Eu perdi meu pai — ela começou, a voz serena, sem vitimismo. — O homem que me criou, que me tirou da miséria quando eu era um bebê e trabalhou a vida inteira na roça para me dar o que comer. Ele fez tudo o que pôde para me dar estudo. Quando ele morreu, a pouca terra e as economias se foram. Vim para a capital achar um futuro, mas a cidade não quer saber de quem não tem nada. O dinheiro acabou, o aluguel venceu e eu percebi que não tinha mais para onde ir. Endrick ouviu cada palavra sem interromper, o olhar fixo nela, assimilando o peso da história de alguém que conheceu o amor puro de um pai, em completo contraste com a relação de veneno que tinha com Orestes. — E aí você encontrou um garoto surtado fugindo pela porta dos fundos de uma boate — Endrick completou, dando um sorriso de canto. — É — Aurora olhou para ele, retribuindo o sorriso. — E esse garoto surtado acabou de me salvar da ponte. Endrick encostou a cabeça na cabeceira, observando as pontas dos cabelos pretos dela. A atmosfera pesada da rua tinha ficado para trás, mas a realidade dos três dias de prazo dados por Orestes começava a cobrar seu preço. — Amanhã o jogo começa de verdade — ele disse, a voz perdendo o tom divertido e voltando a ficar séria. — Meu pai me deu o cargo de diretor executivo na sede do grupo no ano passado. Ele acha que tá me treinando para assumir o império, mas na verdade só quer me manter debaixo do rédea curta. Eu preciso te levar para a empresa amanhã cedo. Aurora parou o movimento das mãos, franzindo a testa. — Me levar para a sua empresa? Para quê? — Porque se você ficar trancada aqui nesta mansão, os espiões do meu pai vão te metralhar de perguntas — Endrick explicou, ajeitando-se na cama. — A governanta desta casa, a dona Morgana, trabalha para o meu velho há vinte anos. Ela conta até as vezes que eu respiro fundo no corredor. A gente precisa parecer o casal mais apaixonado e grudado desta cidade. Você vai comigo para a sede, vai sentar na minha sala e andar pelos corredores do meu lado. E mais importante: a gente precisa decorar a história da nossa vida antes de pisar lá fora. Aurora soltou a toalha sobre as pernas, encarando o herdeiro. — Decorar o quê? — Tudo — ele rebateu de pronto. — Qual é a sua comida favorita? Que dia é o seu aniversário? Onde a gente se viu pela primeira vez? O meu pai é um advogado de formação e um animal por natureza. Ele não vai fazer perguntas genéricas quando voltar do sul. Ele vai colocar a gente em salas separadas ou metralhar perguntas no meio do jantar para nos pegar numa contradição estúpida. Aurora soltou um arfar pesado, percebendo a dimensão do teatro em que tinha se metido. A fome e o pavor da ponte tinham dado lugar a um treinamento de precisão. — Minha comida favorita é barreado de panela de ferro que meu pai fazia na roça — ela soltou, ríspida, mas focada. — Aniversário em quatorze de outubro. Nunca tive cachorro porque a gente não tinha dinheiro para ração; só tive uma gata amarela chamada Chuva. E a gente se conheceu numa biblioteca pública no centro, quando você tentava pegar um livro de arquitetura na prateleira mais alta e eu te ajudei. Endrick franziu as sobrancelhas, surpreso com a rapidez da garota. — Biblioteca? Eu não entro numa biblioteca desde os quatorze anos. — É a melhor mentira para justificar como um mauricinho como você olharia para uma garota como eu — Aurora disparou, sem hesitar. — Meu pai adotivo dizia que quem lê bastante sabe mentir bonito. A gente se conheceu na biblioteca. Você se impressionou porque eu estava lendo um clássico surrado e ofereceu um café na esquina. Pronto. Tá decorado. Agora fala a sua parte. Eles passaram a madrugada inteira acordados, jogando conversa fora e inventando as mentiras que precisavam decorar. Endrick percebeu que batia a caneta no joelho toda vez que ficava nervoso, e Aurora reparou que cruzava os braços sem perceber, só para esconder as unhas e o casca grossa da mão. Quando a claridade do dia começou a entrar pela janela do quarto, a luz alaranjada avisou que a noite tinha acabado. A essa altura, eles já tinham repetido aquela história tantas vezes que parecia até verdade.






