Mundo ficciónIniciar sesiónApós flagrar seu noivo nos braços de sua própria irmã e descobrir a trama cruel para destruí-la, o mundo de Stella Calisto desmorona. Perdida entre a dor da traição e a busca por respostas, o destino coloca em seu caminho Nathan Morgan — o único homem capaz de salvá-la de um futuro de ruínas. Movida pelo desespero, pelo desejo de justiça — e por uma dose perigosa de álcool —, Stella assina um pacto absurdo que promete erguer sua vida das cinzas. Para os que a enganaram, ela reserva uma vingança lenta e implacável. Mas para o homem que a resgatou do fundo do poço, Stella descobre que está disposta a entregar muito mais do que pretendia... até mesmo seu próprio coração.
Leer másO sorriso em meus lábios surgiu singelo no momento em que entrei na residência. Andei com calma, evitando que os saltos das botas ressoassem no piso de madeira; queria surpreender meu noivo antes que ele percebesse minha presença. Atravessei o hall de entrada, pendurei meu casaco na arara e segui o som das vozes que vinham pelo longo corredor.
— Não se preocupe, Lia. Já está tudo planejado, o casamento é apenas uma formalidade. Sua irmã não passa de uma moeda de troca.
A voz de Vincent ecoava pela sala de estar. No sofá de couro escuro, ele consolava minha irmã mais nova, que chorava entre soluços e resmungos dramáticos.
De repente, a sacola em minhas mãos pareceu pesada demais. Estremeci, encostando-me no batente da porta. Envolvidos demais naquele momento de intimidade, nenhum dos dois notou minha presença.
— Com o peso do nome Calisto, conseguirei me livrar do meu tio em alguns anos e assumirei como o novo Chefe da Família Morgan. Stella será apenas uma figurante. Assim que nos casarmos, vou ensinar a ela como ser bem quietinha e obediente — ele riu, um som seco e desprezível. — Você sim será a verdadeira senhora da Família Morgan, Liana.
Até alguns minutos atrás, eu sequer imaginava que os dois se conheciam tão bem. Embora carregasse o sobrenome Calisto, Liana não tinha qualquer envolvimento com os negócios deixados por minha mãe. Ela recebera o sobrenome por pura benevolência da Senhora Calisto, que recusou deixar uma criança viver como bastarda sob seu teto. Minha irmã não tinha nada a ver com nossas alianças comerciais e nunca deveria ter se aproximado de Vincent.
— E você acha que ela vai aceitar viver assim? — Liana fungou. — A Stella é mais orgulhosa do que você imagina. Você nem a conhece direito, Vincent! Ela é uma megera, faz qualquer coisa por poder e dinheiro.
Na infância, bastava eu ouvir a voz melodiosa e suave de Liana para me esquecer do mundo e me dedicar inteiramente ao carinho que sentia por ela. Não importava o que fizesse, eu sempre estaria ao seu lado. Eu a tratava como uma boneca de porcelana que jamais deveria ser tocada.
Com o tempo, porém, o encanto se desfez ao descobrir a personalidade perversa que ela escondia. Sua voz, antes doce, passou a me causar náuseas. Eu sentia que podia adoecer só de escutar uma dúzia de palavras vindas daquela boca imunda.
— E o que ela poderá fazer? — Vincent deu de ombros. — Antes que perceba o que está acontecendo, já terei tomado tudo. Ela será humilhada na Família Morgan e nunca terá apoio para reivindicar nada. O contrato de casamento deixará tudo muito claro.
No nosso meio, o poder só é mantido através do respeito e do orgulho. Se eu fosse quebrada em público, humilhada pelo próprio marido e Chefe da Família, nunca mais seria levada a sério. Considerando meu status atual, o plano de Vincent seria ridiculamente fácil de executar — bastaria a ele um mínimo de astúcia.
Se eu me casasse com ele e ele assumisse o trono, meus poderes ficariam completamente submetidos à sua vontade. A única falha em seu plano era presumir que conseguiria derrubar o próprio tio com facilidade.
— Vamos parar de falar dela, amor? — Liana manhosa se aproximou dele. — Você sabe que vim aqui para te entregar seu presente de aniversário. Só de ouvir o nome dessa vadia, me sinto mal.
— Como você desejar.
As palavras foram substituídas pelo som estalado de beijos e gemidos sufocados. Pretendiam transar ali mesmo, sem a menor preocupação com quem pudesse flagrá-los. Apertei as alças da sacola com força; o presente de aniversário de Vincent definitivamente não seria entregue.
Em dois longos anos de noivado, eu poderia contar em uma única mão quantas vezes visitei sua casa. Ele sempre alegava não querer me constranger ao cruzar a Casa Principal, reforçando que estava atolado de trabalho. Eu só tinha ido até ali por ser seu aniversário, acreditando tolamente que uma surpresa o deixaria feliz.
Há quanto tempo estavam juntos? Há quanto tempo ele tramava me reduzir a uma mera figurante?
Se minha mãe soubesse que as coisas tomariam esse rumo, jamais teria assinado o Pacto entre as Famílias. Ela nunca me deixaria casar com um homem incapaz de me respeitar. Mas já era tarde: ela partira antes de ver o acordo cumprido. Restava a mim honrar sua memória e o nome da nossa família.
Com passos ágeis e silenciosos, recuei pelo corredor e saí pela porta dos fundos, cortando o jardim bem cuidado. Os olhares dos soldados e das criadas pareciam me despir. Era como se arrancassem meu terno sob medida e julgassem o que restava na minha pele. Eles sabiam o que eu tinha presenciado, mas não se importavam — eu não passava de uma estranha para eles.
De certa forma, eu deveria agradecer. Ver a verdade com meus próprios olhos destruíra qualquer ilusão sobre as intenções de Vincent.
Já no estacionamento, entrei no carro e busquei o frasco com a fragrância calmante que Kira preparava para mim. Inspirei o aroma profundo algumas vezes antes de apoiar as mãos no volante. O ar condicionado me fez tremer; na pressa de fugir, esquecera meu casaco para trás.
Minha mente virara uma zona de guerra onde cada revelação explodia como uma bomba. Meus sentimentos eram os soldados abatidos no campo de batalha.
Meu noivo me traíra. Minha irmã me traíra. Se eu insistisse naquele casamento, seria usada até a ruína total. Eu me tornaria uma senhora de fachada, jogada aos lobos.
Embora não houvesse amor verdadeiro entre mim e Vincent, a traição cortava fundo. Desde pequena, minha mãe me ensinara sobre lealdade e dever. Todo o respeito e a cumplicidade que cultivei por ele se estilhaçaram como vidro caindo no piso de pedra.
Se eu quisesse salvar meu futuro, precisava arranjar um meio de anular o casamento com Vincent. Mas precisava ser uma jogada mestre: algo que não rompesse o Pacto principal nem destruísse a aliança entre as famílias Calisto e Morgan.
Sem uma resposta imediata, dei partida e acelerei em direção à Corporação Morgan. Naquele momento, minha prioridade era rasgar o Contrato de Noivado e interromper qualquer articulação que Vincent estivesse fazendo pelas minhas costas.
Com os olhos fixos na estrada, ordenei à assistente virtual que ligasse para meu irmão. Julian atendeu no segundo toque, a voz densa de sono. Ele estava no exterior a trabalho, em outro fuso horário, e o simples fato de atender provava sua dedicação incondicional a mim.
— Jules. Preciso que analise o Pacto. Preciso saber como cancelar meu casamento com o Vincent.
Minha voz deve ter saído ríspida ou entrecortada pelo desespero, pois ele me bombardeou de perguntas no segundo seguinte.
— Escute, não posso dar detalhes agora. Mas não vou me casar com o Vincent e não quero quebrar o Pacto. Nossa mãe não me criou para fugir das minhas obrigações — buzinei com violência para o carro à frente. — Só posso confiar em você para resolver isso, Jules.
— Vou analisar todas as cópias que tenho aqui — ouvi seu suspiro pesado do outro lado da linha. — Estou encerrando o caso do meu cliente e volto para a cidade em três dias. Só me prometa uma coisa: não faça nada drástico antes de eu te confirmar o próximo passo, está bem?
Um sorriso amargo despontou em meus lábios.
— Não farei nada, prometo. Mas tudo bem se eu rasgar o Contrato de Noivado? Nem que seja para dar um aviso prévio ao Vincent.
— Não terá grandes consequências jurídicas, já que temos as cópias digitais. E se ele tentar processar, eu te defendo brincando — Julian bocejou. — Vou acelerar as coisas aqui para voltar logo. Tome cuidado, Stella. A família Morgan é um ninho de cobras.
— Eu sei me cuidar. Te amo, Jules.
— Também te amo, irmãzinha.
Quando entreguei as chaves do carro ao manobrista, a imponente sede da Corporação Morgan erguia-se diante de mim. A força daquele império refletia-se na arquitetura espelhada e elegante que cortava o céu.
Não importava a grandeza daquela corporação: meu sangue fervia, exigindo o caos para aliviar o peso no meu peito. Eu deixaria aquele contrato rasgado sobre a mesa perfeitamente organizada de Vincent. E aquilo seria apenas uma amostra de que eu jamais seria a figurante obediente do seu show.
CAPÍTULO CINCO — UM ABRIGO SEGUROSTELLA CALISTO— Ellie, você deveria me largar logo — resmungou Kira, se debatendo para se livrar do meu abraço. Apertei ainda mais, temendo o que ela faria se eu a deixasse sair do apartamento em meio à sua crise de fúria.— Se eu fizer isso, vou ter que aparecer na delegacia com um advogado para livrar sua cara — respondi, lutando contra os fios escuros do cabelo da minha melhor amiga que insistiam em entrar na minha boca. — Não te contei toda essa merda para você ir atrás do Vincent ou da Liana. Eu vou me certificar de que eles se arrependam do que me fizeram, pode ficar tranquila.Kira suspirou e seus ombros caíram. Soltei-a quando percebi que já não apresentava mais perigo. Com o rosto sombrio, ela pegou a garrafa de vinho branco e tomou alguns goles como se fosse água.A sala do apartamento estava um verdadeiro caos. Caixas de pizza e garrafas vazias se enfileiravam na mesa de centro, na poltrona de couro e no carpete. O jantar tinha começado ca
CAPÍTULO QUATRO — AVISO CLARONATHAN MORGANPelas paredes de vidro da minha sala, era possível contemplar grande parte do horizonte da cidade. A vista há muito deixara de me surpreender, mas eu ainda costumava me perder em pensamentos enquanto observava a selva de edifícios, as vias expressas e o mar de pessoas em movimento lá embaixo.— Sr. Morgan — a voz do meu assistente interrompeu minhas reflexões. Ele permanecia parado junto à porta, segurando um tablet com firmeza. — O Vincent está causando um escândalo no andar administrativo. As pessoas estão assustadas e há uma funcionária machucada na recepção.Soltei um suspiro pesado e fechei os olhos por um segundo, reclinando-me na cadeira. Amaldiçoei silenciosamente meu falecido irmão por ter me deixado como herança o fardo que era Vincent. Se minha cunhada não fosse tão cega e superprotetora, talvez eu tivesse conseguido enfiar algum juízo na cabeça do meu sobrinho. Porém, ela preferiu mimá-lo além de todos os limites razoáveis, priva
CAPÍTULO TRÊS — PERFUME IMPREGNADO NO ARSTELLA CALISTOTudo aquilo parecia uma piada de péssimo gosto, considerando o dia absurdo que eu estava vivendo.Há pouco, eu flagrara Vincent com Liana, deixara o Contrato de Noivado picado sobre a mesa de trabalho do meu ex-noivo e ativara Jules para revirar as cláusulas do Pacto — tudo para conseguir uma saída estratégica antes que a situação se voltasse contra mim.Fechei o cardápio e acenei para o garçom, sem responder imediatamente a Nathan.— Um cappuccino grande com caramelo e torradas com ovos. E uma água sem gás, por favor.— Apenas um café puro — pediu Nathan.Seus olhos estavam fixos em mim, mas não reuni coragem suficiente para encarar aquele olhar de volta. Que tipo de coincidência era aquela? Que razões o Chefe da Família Morgan teria para não querer meu casamento com seu próprio sobrinho — ainda mais sabendo do peso do acordo entre nossas famílias?— Por que está dizendo isso? — perguntei, finalmente erguendo o queixo e forçando
CAPÍTULO DOIS — OBRA DE ARTE MODERNASTELLA CALISTOO térreo estava vazio, à exceção de dois recepcionistas e dos seguranças nas catracas de acesso. Com o crachá especial de visitante em mãos, atravessei a recepção até o elevador e apertei o botão do andar administrativo. Os últimos andares pertenciam a Nathan Morgan, o presidente da corporação, e à sua equipe direta. Embora fosse um executivo, Vincent nem sequer chegava perto daqueles andares sob o controle rigoroso de seu tio.— Srta. Calisto — cumprimentou a recepcionista do andar, com um sorriso gentil. — Aceita uma água ou um café?— Não é necessário, Elena. — Apontei para a sala ao fundo do corredor, cujas persianas entreabertas permitiam vislumbrar o escritório. — Poderia me acompanhar até a sala do Vincent? Preciso deixar algo na mesa dele.— O Sr. Morgan não está na empresa no momento, Srta. Calisto. Não prefere deixar comigo para que eu entregue assim que ele retornar?Sorri, tocando suavemente o cotovelo da jovem. Transpare





Último capítulo