O Casamento Relâmpago do Filho do Bilionário
O Casamento Relâmpago do Filho do Bilionário
Por: Sayaka Cutrim
Capítulo 01: A "Zé-Ninguém"

A boca de Yann tinha gosto de uísque e perigo.

Pressionado contra a parede de veludo do camarote privativo, Endrick Brahzão mantinha as mãos firmes na cintura de Yann, puxando-o para mais perto. Os lábios se encontravam com uma urgência difícil de controlar. O calor entre os dois era intenso, quase sufocante, escondido pela penumbra do segundo andar da casa noturna.

— Tava louco pra colocar a mão em você de novo... — murmurou Endrick contra o pescoço de Yann. A respiração saía pesada enquanto ele desabotoava os primeiros botões da própria camisa.

Yann sorriu de lado. Entrelaçou os dedos nos cabelos escuros de Endrick e o puxou de leve pela nuca.

— Ficou com saudade, herdeiro?

— Nem imagina o quanto. — A voz saiu rouca.

Sem esperar outra resposta, Endrick voltou a beijá-lo. A mão deslizou devagar por suas costas, enquanto os dois se perdiam, por alguns instantes, em tudo o que haviam tentado esquecer.

Do outro lado da espessa parede de alvenaria, a poucos metros dali, o grave da música fazia o asfalto frio da avenida vibrar.

Na calçada, a vibração do som batia na sola gasta do sapato de Aurora. Ela não olhava para as luzes de néon da fachada e nem para os carros importados que estacionavam na porta. Com a bolsa de pano vazia pendurada no ombro e as mãos afundadas nos bolsos do casaco, caminhava com o corpo no piloto automático. O último mês de aluguel havia vencido naquela noite. O dinheiro deixado por seu pai adotivo — aquele homem simples da roça que dera a vida para criá-la com amor — tinha acabado até o último centavo.

Aurora não tinha teto, não tinha para onde ir e a fome começava a dar pontadas dolorosas em seu estômago. A ponte alta de Porto Ilha Bela era o seu único destino final.

Ao passar pela frente da casa noturna, ouvindo as risadas abafadas da gente rica que gastava num único drink o que ela precisava para comer por três meses, Aurora soltou um suspiro rasgado, amargo.

Pra alguns a vida presta.

A frase ecoou apenas dentro de sua cabeça. Sem paciência para encarar aquele circo de futilidades, ela dobrou à esquerda e entrou num beco lateral, um corredor de concreto cinza iluminado apenas por uma lâmpada fraca de poste. Era o caminho mais curto até o rio.

Lá dentro, no camarote, a ilusão de Endrick durou exatamente mais dez segundos.

Um bipe seco e desesperado veio do rádio de comunicação na cintura do segurança que ele havia subornado para vigiar a porta. A voz do homem saiu cortada pelo pavor:

— Senhor Endrick! O homem tá no elevador. Ele tá subindo com a escolta. O seu pai descobriu que o senhor tá aqui!

O sangue de Endrick gelou no mesmo instante. A respiração trancou na garganta. Ele empurrou Yann para trás num solavanco, a mente calculando a velocidade do desastre. Se Orestes Brahzão entrasse por aquela porta e o visse nos braços de outro homem, não haveria conversa, não haveria herança e nem segunda chance. Era a ruína total de sua vida.

— Veste essa roupa e cai fora pela porta de serviço! Agora! — Endrick ordenou com a voz trêmula, abotoando a camisa de seda às pressas, o peito batendo como uma marreta.

O som de passos pesados ecoou no corredor de carpete do segundo andar. A voz grossa e inconfundível do pai já podia ser ouvida esbravejando contra os gerentes da casa.

Sem tempo para raciocinar, Endrick correu para o fundo do espaço, empurrou o painel de madeira que escondia uma saída de emergência e despencou escada abaixo. O som da porta principal do camarote sendo arrombada lá em cima ecoou como um estouro.

Ele desceu os degraus de três em três e empurrou a barra de ferro da porta metálica do térreo com todo o peso do corpo.

A porta de metal se abriu num impacto violento, projetando Endrick para fora no exato segundo em que Aurora passava pelo corredor escuro.

A colisão foi inevitável. O corpo alto e forte de Endrick bateu em cheio contra a estrutura franzina e exausta dela. Aurora soltou um arfar preso, perdendo o equilíbrio, e só não foi direto para o chão porque as mãos rápidas dele seguraram sua cintura com força. A bolsa de pano caiu no asfalto molhado, derramando a folha amassada da ordem de despejo.

— Mas que inferno... — Endrick praguejou, arfando de pavor enquanto olhava para trás.

— Olhe por onde anda, seu bruto! — Aurora esbravejou, tonta pelo impacto, tentando se desvencilhar do aperto dele.

Porém, a porta metálica rangeu novamente antes que ela pudesse dar um passo.

Quatro homens de terno escuro saíram em disparada, abrindo caminho para Orestes Brahzão. O velho magnata trajava um sobretudo impecável, o rosto contorcido numa mistura de fúria e triunfo. Ele trazia nos olhos a certeza absoluta de que pegaria o filho no flagra.

— Cadê a sujeira que me disseram que você tava aprontando aqui dentro, seu moleque? — Orestes vociferou, a voz ecoando pelas paredes de concreto enquanto os seguranças cercavam o perímetro. — Você achou mesmo que ia continuar me fazendo de otário?

A pressão no beco virou um pesadelo. Os olhos do velho queimavam sobre o garoto.

Encurralado, sentindo o abismo sob os pés, Endrick olhou por meio segundo para a garota que ainda segurava pela cintura. Ela cheirava a sabão barato. Estava pálida, com os lábios secos, usando roupas simples e ultrapassadas. Uma completa estranha. Uma oportunidade desesperada no meio do caos.

Num movimento frio, guiado pela pura necessidade de sobrevivência, Endrick puxou Aurora para mais perto, prensando o corpo dela contra o seu e passando o braço pelos ombros dela com uma intimidade forçada.

— Ficou maluco, pai? — Endrick soltou, sustentando o olhar do velho com uma audácia desesperada. — Que história de sujeira é essa? Eu só queria um pouco de privacidade antes de dar a notícia.

Orestes parou, franzindo a testa espessa, o olhar desconfiado migrando do rosto do filho para a garota humilde que tremia sob o braço dele.

— Do que você tá falando? Quem é essa "Zé-Ninguém"?

Endrick apertou o ombro de Aurora com mais força, a pressão dos dedos servindo como um aviso silencioso para que ela ficasse quieta. Ele cravou a mentira no meio da noite:

— Essa "Zé-Ninguém" é a minha esposa.

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