Capítulo 02: A Proposta

O silêncio que se seguiu à palavra esposa pesou como chumbo no beco escuro.

Orestes travou o passo, com as sobrancelhas grisalhas franzidas numa expressão de profundo nojo e desconfiança. O olhar de águia do velho desceu lentamente do rosto do filho para a garota. Ele a vistoriou de cima a baixo sem o menor pudor, detendo-se na jaqueta gasta, nos sapatos cobertos de poeira e no estado de quem nitidamente não pertencia a nada que lembrasse a elite de Porto Ilha Bela.

— Esposa? — Orestes soltou uma risada seca, sem um pingo de humor, ecoando fria entre as paredes de concreto. — Você tá me tirando para idiota, Endrick? Quer mesmo que eu engula que um Brahzão se casou no papel com essa Zé-Ninguém? Cadê a aliança no dedo dela? Cadê a família?

Aurora sentiu o sangue fugir do rosto. O braço de Endrick ao redor dos seus ombros apertava como um torniquete de aço. Ela tentou recuar, tomada pelo impulso de se afastar daquela loucura, mas os dedos dele se cravaram com mais força em sua pele, prendendo-a contra o seu corpo. Aurora abriu a boca para desmentir, pronta para gritar que não conhecia aquele garoto, mas a presença intimidadora dos quatro homens de terno escuro ao redor travou sua garganta. Se abrisse a boca ali, a fúria daquele homem desabaria sobre os dois sem misericórdia.

— A gente casou em segredo num cartório de comarca pequena há três dias, pai — Endrick mentiu sem piscar, a voz grave e perfeitamente controlada, embora as costas da camisa estivessem encharcadas de suor frio. — Eu não te contei justamente por causa disso. Olha para a sua cara. Eu sabia que você ia reagir assim, medindo o valor da mulher que eu escolhi pelo preço da roupa que ela usa.

Orestes deu dois passos à frente. O cheiro de charuto e perfume caro invadiu as narinas de Aurora, fazendo-a encolher o pescoço.

— Se isso for uma palhaçada para cobrir as tuas imundícies, garoto, eu juro pela memória da minha mãe que te coloco no olho da rua sem um centavo — Orestes ameaçou, encarando a garota diretamente nos olhos. — Fala você. Qual é o seu nome?

A voz de Aurora sumiu. O pânico travou suas cordas vocais. Antes que o silêncio entregasse o teatro, Endrick tomou uma atitude drástica. Ele girou o corpo dela de frente para si, segurou seu queixo com firmeza e selou os lábios nos dela num beijo repentino, pesado e desesperado.

O contato daquela boca desconhecida fez o estômago de Aurora revirar. Ela arregalou os olhos, os braços rígidos empurrando o peito de Endrick com toda a força que tinha, mas ele manteve a encenação por longos três segundos diante do pai, simulando uma paixão cega e impulsiva.

— O nome dela não importa agora — Endrick cortou, sem soltar o rosto dela, mantendo o olhar cravado no pai. — E ela não precisa te provar nada aqui no meio da rua.

Orestes cerrou os dentes, a mandíbula dura indicando que o veneno da dúvida tinha sido plantado. Ele não estava convencido, mas a ousadia do filho tinha freado sua investida imediata.

— Tenho um voo de emergência pela manhã bem cedo — Orestes decretou, a voz como uma sentença de morte, enquanto apontava o dedo para a cara de Endrick. — Iremos para a casa agora mesmo. Eu quero essa garota na mesa do meu escritório com a certidão de casamento e a história inteira explicada. Se você tiver mentindo, a sua vida acaba no mesmo segundo.

O velho virou as costas e caminhou a passos largos em direção ao SUV preto parado na saída do corredor. Os seguranças o acompanharam, liberando a passagem.

Assim que Orestes entrou no veículo, Aurora desferiu um empurrão violento no peito de Endrick, fazendo-o dar dois passos para trás.

— Nunca mais encoste a boca em mim, seu canalha! — ela sibilou, a voz trêmula de raiva enquanto limpava os lábios com a manga do casaco. — Me dá a minha bolsa. Eu vou embora daqui agora!

Endrick não respondeu de imediato. Ele se abaixou no chão úmido do beco, recolheu a bolsa de pano estragada e o papel dobrado que havia caído durante o choque. Antes de devolver os pertences, seus olhos bateram no cabeçalho em vermelho sob a lâmpada do poste: Ordem de Despejo Imediato. Aurora Lemos.

Ele encarou o documento e depois o rosto pálido e focado da garota. Ele entendeu tudo em uma fração de segundo. Ela não era só uma estranha; era uma mulher sem teto e sem ter para onde correr.

— Você não vai para lugar nenhum — Endrick disse, a voz baixa, afiada e desprovida de qualquer deboche.

Aurora travou, o orgulho ferido queimando no peito.

— Você não tem casa, não tem um centavo e estava caminhando com a cara de quem ia se jogar da ponte — ele continuou, dando um passo na direção dela e segurando o papel contra o peito. — Se você der meia-volta e sumir, os espiões do meu pai te acham amanhã e eu perco tudo o que tenho. Mas se você entrar naquele carro, morar na minha casa por algumas semanas e fingir que é minha esposa até o velho acreditar, eu te entrego uma recompensa milionária na sua conta.

Aurora encarou os olhos dele, sentindo o baque das palavras. A chuva fina começava a cair sobre o beco, molhando seus cabelos e a jaqueta puída.

Ela estava a um passo da miséria absoluta, e o herdeiro em apuros à sua frente acabara de lhe oferecer um bilhete de resgate tingido de mentira.

Continue lendo este livro gratuitamente
Digitalize o código para baixar o App
Explore e leia boas novelas gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de boas novelas no aplicativo BueNovela. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no aplicativo
Digitalize o código para ler no App