Oportunidade

SAVANNAH HAYES

Eu estava tão distraída limpando o chão do saguão da Sinclair Corporation que quase passei o pano duas vezes no mesmo lugar.

Minha cabeça estava longe dali.

Enquanto observava o reflexo das luzes no mármore impecável, fazia contas mentalmente pela centésima vez naquela semana. O remédio dos filhotes acabaria em poucos dias. Noah precisaria de um novo inalador em breve. A conta de luz continuava me encarando da geladeira toda vez que eu chegava em casa. E o tênis do meu filho estava tão gasto que eu já considerava um milagre ele ainda permanecer inteiro.

O problema era que toda vez que eu conseguia resolver uma despesa, outras três apareciam para ocupar o lugar.

Era como lutar contra uma hidra financeira, enquanto eu cortava uma cabeça. Quatro voltavam.

Passei o pano pelo chão brilhante enquanto observava executivos atravessarem o saguão carregando cafés caros e pastas de couro que provavelmente custavam mais do que meu aluguel. Ninguém olhava para baixo. Ninguém olhava para mim.

O que normalmente era ótimo, ser invisível era uma das poucas vantagens daquele emprego.

Suspirei e apoiei as duas mãos no cabo do rodo por um instante.

Meu salário desaparecia antes mesmo de cair na conta. Entre aluguel, mercado, remédios, transporte e contas atrasadas, eu estava constantemente correndo atrás de dinheiro sem nunca conseguir alcançá-lo.

Naquele ritmo, eu acabaria surtando, vendendo um rim ou os dois.

Passei o pano mais uma vez e ergui a cabeça.

Foi então que avistei Martha perto da copa central. Ela segurava uma prancheta enquanto organizava escalas com a mesma expressão severa que parecia ter nascido junto com ela.

Comecei a andar na direção dela. Porque, naquele ponto, tentar não custava nada e eu precisava desesperadamente de alguma boa notícia.

Respirei fundo.

— Martha…

Ela levantou os olhos.

— O que foi agora?

Cruzei os braços tentando parecer menos desesperada do que realmente estava.

— Tem alguma possibilidade de… sei lá… aumento?

Ela me encarou em silêncio por dois segundos.

Depois soltou uma risada curta completamente desacreditada.

— Savannah Hayes pedindo delicadamente alguma coisa? Isso é novo.

— Não exagera.

— Você quase jogou uma bandeja num cliente semana passada.

— Tecnicamente eu tropecei.

Martha suspirou enquanto deixava a pasta sobre o balcão.

— Dinheiro tá apertado?

Soltei uma risada cansada.

— Meu filho tá melhor, mas agora eu tenho quatro cachorros clandestinos em casa.

Ela piscou devagar.

— Você o quê?

— Longa história.

Martha apertou a ponte do nariz claramente reconsiderando minhas escolhas de vida.

— Savannah… você já chega atrasada pelo menos duas vezes na semana.

— Porque eu tenho um filho.

— E às vezes precisa sair mais cedo.

— Porque eu tenho um filho doente.

Ela me olhou com firmeza, mas sem crueldade.

Martha era rígida porque precisava ser.

Mulher nenhuma sobrevivia décadas dentro da Sinclair Corporation sendo gentil o tempo todo. Ainda assim, eu sabia que ela gostava de mim. Do jeito estranho e assustador dela.

— Eu sei que você se esforça — disse por fim, fechando a prancheta. — Mas aumento não depende de mim.

Meu estômago afundou um pouco.

— Ah.

Martha me observou por alguns segundos, como se estivesse avaliando alguma coisa.

— Mas depende de quem está acima de mim.

Ergui uma sobrancelha.

— Isso foi um conselho?

— Não. Foi uma observação.

Então ela apontou com a caneta para os elevadores executivos.

— E já que você está aqui, sobe para o andar quarenta e oito. Estão precisando de ajuda na limpeza dos corredores.

Minha testa franziu.

— O andar do CEO?

Os olhos de Martha se estreitaram.

— Viu? É exatamente disso que estou falando.

— Falando do quê?

— Você está evitando aquele homem.

— Não estou.

— Está.

— Não estou.

— Savannah.

"Ele cai me demitir quando descobrir que eu joguei uma pedra no carro dele."

Mas mantive esse detalhe só para mim.

— Anda logo — ordenou ela. — E para de agir como se estivesse fugindo da polícia.

Peguei meus materiais de limpeza e caminhei até os elevadores antes que ela resolvesse me dar mais algum conselho de vida.

Alguns minutos depois, as portas se abriram no andar executivo.

Enquanto empurrava o carrinho de limpeza pelo corredor, passei por uma parede espelhada e meu reflexo me fez diminuir o passo.

Parei por um instante.

Meu uniforme estava impecável, eu não.

Havia olheiras sob meus olhos que maquiagem nenhuma conseguia esconder completamente. Meu rosto parecia mais magro do que alguns meses atrás. O cansaço estava estampado em cada linha da minha expressão.

Três empregos, um filho, uma avó e quatro cachorros que eu tinha resgatado sem possuir um único neurônio funcional.

O resultado estava bem na minha frente.

Suspirei e voltei ao trabalho.

Estava limpando o corredor próximo à recepção executiva quando ouvi vozes mais à frente.

Duas mulheres estavam paradas perto dos elevadores, segurando tablets contra o peito. As duas usavam roupas impecáveis, saltos caros e expressões de puro desespero.

— Eu tô falando sério, eu não vou entrar naquela sala — sussurrou a loira.

— Você acha que eu vou? — rebateu a morena, parecendo igualmente desesperada.

Continuei limpando o chão enquanto fingia não prestar atenção.

Experiência de copeira, você aprende a ouvir sem parecer que está ouvindo.

— Natalie vai enlouquecer quando descobrir que a secretária faltou de novo.

— Ela não faltou — corrigiu a outra. — Foi demissão.

A outra mulher soltou uma risada desesperada.

— Nenhuma fica por muito tempo, já é a segunda essa semana.

Franzi a testa enquanto fingia organizar a bandeja.

Então elas eram secretárias e estavam falando da secretária do Damien.

— Eu juro por Deus — a morena continuou — ninguém aguenta aquele homem.

— A última antes da Claire tinha crise de ansiedade no banheiro.

— E mesmo assim a vaga continua sendo tentadora.

A outra assentiu de imediato.

— Porque o salário é absurdo.

Parei de mexer na bandeja sem perceber.

— Mas não vale sua vida pessoal — a loira rebateu. — As secretárias do Damien literalmente vivem dentro dessa empresa.

— Claro. O homem vive pra trabalhar. Ele espera que todo mundo faça o mesmo.

— Você viu a agenda dele? Tem reunião marcada até onze da noite hoje.

Comecei a me afastar, sem me importar. Aquilo não era problema meu, porém logo ouvi a próxima frase.

— Ela ganhava cento e oitenta mil por ano e mesmo assim se demitiu.

Parei quando escutei o valor exorbitante. Aquilo era dinheiro suficiente para fazer meu aluguel deixar de ser pesadelo.

O tratamento do Noah seria fácil.

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