Mundo de ficçãoIniciar sessãoSAVANNAH HAYES
Lila foi embora depois de me arrancar a promessa de que eu iria direto para casa, mas o universo tinha outros planos. Quando eu já estava terminando o fechamento do restaurante, um cliente apareceu minutos depois do horário de encerramento e insistiu em jantar. Tentei dispensá-lo, expliquei que a cozinha estava fechando e até recorri ao meu melhor sorriso profissional, mas nada funcionou. Acabei indo até a cozinha pedir um último favor ao chef e à equipe, que já estavam limpando tudo. Depois de alguns resmungos e ameaças nada sinceras de me expulsarem dali, eles concordaram em preparar mais um pedido. E com isso o cozinheiro tinha dado mais cinco minutos. O problema é que aquele homem entrou no restaurante com o objetivo específico de destruir minha noite e qualquer resquício de sanidade da classe trabalhadora. Porque cinco minutos viraram quarenta. Primeiro ele demorou uma eternidade pra escolher o prato. Depois pediu vinho. Depois reclamou do vinho. Depois quis trocar acompanhamento. Depois resolveu fazer perguntas existenciais sobre molho, carne e tempero como se estivesse participando de um documentário culinário. E eu ali sorrindo igual uma mulher derrotada. A certa altura, até Massimo apareceu discretamente na abertura da cozinha me encarando como alguém reconsiderando a própria liberdade condicional. O restaurante já estava completamente vazio àquela altura. As luzes parcialmente apagadas, cadeiras erguidas nas mesas e funcionários limpando tudo em silêncio enquanto aquele homem comia devagar como se não tivesse absolutamente nenhum compromisso na vida. Passei pano numa bancada pela terceira vez só pra não precisar olhar diretamente pra ele. Lila teria assassinado aquele homem na segunda reclamação. Infelizmente eu precisava pagar aluguel. Quando finalmente levei a conta, já passava das duas da manhã e meu corpo inteiro parecia prestes a entrar em greve. O homem olhou o valor calmamente antes de pegar o cartão. — O atendimento melhorou no final. Forcei um sorriso tão falso que provavelmente violava direitos humanos. — Que honra ouvir isso. Ele assinou a conta sem pressa nenhuma. Então levantou da cadeira, ajeitou o relógio caro no pulso e finalmente caminhou em direção à saída. Parei imóvel esperando ele desaparecer pela porta igual um espírito maligno sendo exorcizado. Só então olhei a gorjeta deixada sobre a mesa. Vinte dólares. — Filho da puta — murmurei enquanto guardava a gorjeta no bolso do avental. Quando finalmente terminei de fechar o caixa, apagar as últimas luzes e trancar o restaurante, já passava das duas da manhã. Meu corpo inteiro doía. Os pés latejavam dentro do tênis barato, minhas costas pareciam carregadas de concreto e eu tinha quase certeza de que sobrevivia exclusivamente à base de cafeína e ódio social naquele ponto. A chuva ainda caía fina quando saí do restaurante puxando o casaco apertado contra o corpo. Manhattan continuava acordada como sempre. Táxis passavam rápidos pelas avenidas molhadas, letreiros neon refletiam nas poças e grupos de pessoas bêbadas riam alto saindo de bares caros. Nova York nunca dormia. O problema era que, depois de certo horário, ela também parava de fingir que era segura. Principalmente pra uma mulher andando sozinha. Apertei mais forte a alça da bolsa no ombro enquanto acelerava o passo pela calçada quase vazia. Um homem gritou alguma coisa do outro lado da rua. Ignorei imediatamente. Dois caras parados perto de uma banca de jornal me olharam tempo demais. Aprendi cedo que medo em cidade grande precisava ser silencioso. Você só abaixava a cabeça e seguia em frente fingindo confiança até chegar em casa. A chuva gelada já começava a atravessar meu casaco quando virei numa rua mais escura perto da estação de metrô. Foi então que ouvi um barulho estranho. Olhei em volta devagar, porem não havia nada. Só lixo acumulado perto do meio-fio, sacos pretos molhados e uma caixa de papelão parcialmente encharcada perto de um poste. Então a caixa se mexeu. Franzi a testa de imediato. — Ah, não… Dei alguns passos cautelosos na direção dela enquanto a chuva continuava pingando no meu rosto. A caixa mexeu outra vez, e então ouvi um choramingo pequeno. Me ajoelhei no asfalto molhado e afastei cuidadosamente uma das abas da caixa. Quatro filhotes minúsculos e encharcados. Tremendo tanto de frio que mal conseguiam ficar parados. Um deles tentou levantar desajeitadamente na minha direção antes de tropeçar no próprio corpinho. Fechei os olhos por um segundo sentindo aquela raiva cansada crescer dentro do peito. Porque alguém simplesmente tinha largado aqueles cachorros ali no meio da chuva pra morrer. — Eu odeio gente — murmurei baixo enquanto pegava um dos filhotes no colo. Ele era pequeno, magro, sujo e quente demais de febre contra minhas mãos geladas. Olhei ao redor da rua vazia outra vez, pra caixa e depois pro cachorrinho tremendo nos meus braços. Se alguém me perguntasse qual foi o momento exato em que percebi que tinha perdido completamente o controle da minha vida, eu provavelmente apontaria pra cena de mim entrando no metrô às duas e meia da manhã carregando uma caixa molhada cheia de filhotes abandonados. Porque claramente meu nível de exaustão já tinha ultrapassado o racional. Os dias seguintes viraram um caos completo. Entre trabalho, metrô, contas atrasadas e Noah finalmente melhorando da crise asmática, agora eu também tinha quatro criaturas minúsculas dependendo de mim pra sobreviver. Levei os filhotes num veterinário popular do Brooklyn no meu único horário livre entre a Sinclair Corporation e o restaurante. Descobri que dois estavam desnutridos, um tinha uma infecção no ouvido e o menorzinho parecia gripado por causa da chuva. Ou seja: era exatamente o que uma mulher sem dinheiro precisava. Mais despesas, mais preocupação e muito mais bocas pra alimentar. Mesmo assim decidi cuidar deles da mesma forma que eu cuidava do meu próprio filho. Comprei remédio parcelado, passei noites dando seringa de antibiótico pra cachorro chorando, limpei xixi do chão da cozinha antes de sair correndo pro trabalho. E, de alguma forma absurda, aquilo transformou o apartamento. Porque Noah se apaixonou pelos filhotes. Meu filho passou a acordar cedo pra verificar se eles tinham comida, dividia pedaços do próprio sanduíche escondido da bisa e sentava no chão da sala enrolado no cobertor velho observando os cachorrinhos dormirem como se fossem o maior tesouro do mundo. Isso me fazia feliz porque eu não via Noah sorrir daquele jeito fazia tempo. A asma tinha melhorado aos poucos depois da crise, a febre desapareceu e agora ele voltava a correr pelo apartamento pequeno atrás dos cachorros enquanto o ursinho rasgado ficava largado num canto da cama pela primeira vez em anos. Até minha avó parecia melhor. Apesar de reclamar dos filhotes o tempo inteiro. — Essa casa já era pequena pra pessoas — resmungou numa manhã enquanto um dos filhotes mordia o cadarço do chinelo dela. — Agora virou zoológico. — A senhora tá dando presunto escondido pra eles. — E daí? Observei a cena da cozinha segurando café enquanto Noah ria no chão da sala com um dos cachorros dormindo no colo. Então pensei que talvez aquele apartamento ainda fosse apertado, mofado e caindo aos pedaços. Mas pela primeira vez em muito tempo parecia vivo.






