Aceitando a oportunidade

SAVANNAH HAYES

As vozes continuaram mais à frente.

— Nem ferrando que eu aceito essa vaga.

— Nem eu. Dinheiro nenhum vale perder a sanidade.

Agora eu quase não escutava mais o que elas falavam Eram como vozes de fundo em minha cabeça. Tudo isso porque, pela primeira vez em muito tempo, uma ideia perigosa começou a surgir na minha cabeça.

Antes que meu cérebro pudesse recuperar o bom senso, minhas pernas já estavam andando.

As duas mulheres continuavam discutindo quando praticamente apareci na frente delas do nada. Elas deram um gritinho assustado ao mesmo tempo.

— Meu Deus! — a loira levou a mão ao peito. — De onde você surgiu?!

Respirei fundo e apontei de forma discreta para o corredor.

— A vaga da secretária do senhor Sinclair.

Elas ficaram tensas outra vez.

— O que tem ela? — a morena perguntou cautelosa.

— Como eu me candidato?

O silêncio perdurou enquanto as duas me encararam, depois se encararam e então olharam para mim outra vez.

A loira tentou não rir enquanto indagava:

— Você… quer se candidatar?

Cruzei os braços.

— Cento e oitenta mil por ano. Eu me candidataria até pra domadora de leões por esse salário.

A morena apertou os lábios tentando manter a educação.

— Olha… não é exatamente assim que funciona.

— Então como funciona?

— A secretária executiva do senhor Sinclair precisa ter qualificação.

A frase me irritou.

— E você acha que eu não tenho?

As secretárias hesitaram e o silêncio delas foi uma resposta que me irritou mais do que eu estava irritada.

— Eu fazia faculdade.

— Fazia? — a loira perguntou.

— Administração.

— E terminou?

Não pude responder, porque não havia terminado a minha faculdade. Porque gravidez aos vinte anos tinha transformado minha vida num liquidificador ligado sem tampa.

— Tranquei quando o meu filho nasceu — falei mais agressiva do que pretendia. — Mas eu aprendo rápido.

As duas continuavam me olhando como se eu tivesse acabado de anunciar candidatura à presidência.

— Savannah… — a morena começou depois de olhar meu crachá. — O senhor Sinclair não é exatamente… fácil.

Ri, mas era mais por irritação do que por qualquer outra coisa.

— Sobrevivo com três empregos, uma criança asmática e aluguel em Nova York. Acho que consigo sobreviver a um homem de terno.

— Não é só isso — a loira insistiu. — Você precisaria organizar reuniões internacionais, agendas, contratos…

— Eu organizo minha vida inteira funcionando à base de cafeína.

A morena suspirou.

— Ainda não é suficiente.

“Tenho que mudar de estratégia”, pensei. “Talvez se eu usar psicologia reversa...”

Assenti, fingindo que elas não tinham ferido meu orgulho.

— Certo. — Virei de costas, fingindo que iria embora sem olhar para trás. — Boa sorte então.

As duas ficaram confusas, mas continuei andando enquanto falava por cima do ombro:

— Pra vocês explicarem pro chefe que ele tá sem secretária até outra pobre alma aceitar destruir a própria vida pessoal.

As duas empalideceram na hora.

Parei de andar quando ouvi passos rápidos atrás de mim.

— Espera.

A loira apareceu na minha frente em pânico e outra logo fez o mesmo, bloqueando meu caminho no corredor.

Olhei de uma pra outra, fingindo que tinha todo o tempo do mundo.

— Nossa. Que reação dramática.

— Você não entende — a morena sussurrou desesperada. — O senhor Sinclair odeia improvisos.

— E odeia ainda mais quando problemas chegam até ele sem solução.

Cruzei os braços.

— Então resolvam.

As duas trocaram outro olhar aflito.

— Natalie vai enlouquecer se ninguém aparecer com uma solução antes da próxima reunião. — a morena falou.

— Natalie já parece à beira de um colapso há anos. — A loira completou, cruzando os braços.

Silêncio era tudo o que poderia oferecer enquanto elas me dirigiam seus olhares. Então a morena respirou fundo, parecia estar se arrependendo das escolhas de vida que a levaram até mim.

— Você sabe usar Excel?

Pisquei, eu nunca tinha aberto uma planilha de Excel antes dali.

— …isso decide meu futuro agora?

— Sim.

— Sim, eu sei usar Excel.

As duas se encararam mais uma vez.

A loira mordeu o interior da bochecha, nervosa.

— Meu Deus… Natalie vai matar a gente.

Então voltou os olhos para mim.

— Vem com a gente. Agora. Antes que a gente se arrependa.

Uma hora depois, eu tinha descoberto três coisas importantes: A primeira era que executivos ricos usam palavras demais pra dizer coisas simples. Ninguém naquele andar dormia o suficiente e que a antiga secretária de Damien Sinclair tinha desistido da vida, a profissional obviamente, antes de pedir demissão.

— Ela deixou quase tudo organizado — a morena explicou enquanto me mostrava a mesa enorme da secretária executiva. — Agenda sincronizada, contratos separados, reuniões confirmadas…

— Então por que ela pediu demissão?

A loira respondeu primeiro:

— Ela chorou no banheiro terça-feira passada porque esqueceu de marcar um voo.

Meu sorriso desapareceu.

— Ah.

— O senhor Sinclair trabalha dezesseis horas por dia — a morena completou. — E espera que a secretária acompanhe o ritmo.

Olhei pra tela do computador lotada de planilhas, reuniões internacionais e ligações marcadas até quase meia-noite.

“Meu Deus,” pensei, grunhindo com a dor de cabeça que se formava. “O homem era insano.”

Respirei fundo enquanto tentava decorar o básico que elas tinham me ensinado.

— E pelo amor de Deus — a loira falou enquanto mexia no meu coque — nunca interrompa ele quando estiver lendo contratos.

— Ele vai me matar?

— Em público não — ela respondeu tão ácida quanto eu.

— Confortante.

As duas me empurraram em direção ao pequeno banheiro privativo da recepção executiva.

— Vai trocar de roupa.

Olhei confusa pra sacola que a morena colocou nos meus braços.

— O quê?

— Você não pode aparecer pro CEO vestida como copeira.

Abri a sacola e vi terninho preto elegante, era simples e sem muita costura, mas muito bonito e provavelmente mais caro do que todas as roupas que eu comprava em brechó ou ganhava das minhas primas mais velhas.

Levantei os olhos, sem acreditar no que via.

— Não posso aceitar isso.

— Pode, sim — a loira respondeu rápido. — Eu trouxe roupa reserva hoje e usamos o mesmo número.

Fiquei em silêncio por alguns segundos.

Porque ninguém fazia coisas assim por mim fazia muito tempo.

— Obrigada.

Ela apenas deu de ombros e saiu, parecia que para ela emprestar aquela roupa cada não era nada mais do que algo corriqueiro.

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