Mundo de ficçãoIniciar sessãoCátia
Acordo sem saber onde estou.
O teto branco e o bip compassado de um monitor ao meu lado demoram alguns segundos para fazer sentido. A garganta queima como se eu ainda estivesse engolindo cinzas, e um cheiro forte de antisséptico tenta encobrir a memória da fumaça.
— Ei, fia... Calma, respira fundo — uma voz conhecida e calma corta o silêncio.
Viro o rosto devagar na almofada e vejo meu pai sentado na poltrona ao lado do leito. Baixinho, vestindo sua camisa xadrez puída e sem largar o inseparável chapéu de cowboy no colo, Oswaldo tenta me dar um sorriso. Ele sempre faz piada com tudo, mas os olhos pequenos e cansados entregam a gravidade da situação.
— Pai... — tento falar, mas minha voz sai um fiapo indistinto.
— Não força a garganta, fia. O médico disse que seus pulmões viraram uma chaminé de fogão a lenha, mas você tá viva. É o que importa — ele ajusta o chapéu sobre as coxas, tentando manter o tom leve. — Se bem que, pelo estrago lá fora, acho que até os mosquitos da fazenda pediram aposentadoria adiantada.
Tento me sentar, a memória da noite anterior voltando em pancadas: o parreiral em chamas, o ferrolho quente, o estalo do teto caindo.
— A fazenda... — o pânico voltando a apertar o peito. — Pai, o que sobrou?
O sorriso dele desmonta por um segundo. Ele suspira, e passa o dedo indicador pelo chapéu marrom antes de me olhar de volta.
— As ovelhas se espalharam e fugiram pro mato, as vacas leiteiras também. E a Estela... — Ele engole em seco, a voz fraquejando de leve. — Até agora ninguém conseguiu localizar a égua, fia.
Fecho os olhos, sentindo as lágrimas quentes em minhas bochechas.
Estela foi um presente que ganhei de minha mãe. Escolhemos o nome juntas, e passei a amá-la como um membro da família, e não só como um animal no curral. Todos os dias, escovava sua crina e levava cenouras frescas.
O meu peito aperta.
— E as uvas? — pergunto, já sabendo a resposta.
— Virou cinza. Não sobrou um pé para contar história. A gente vai ter que devolver o dinheiro daquele comprador que já tinha adiantado o sinal pra safra deste ano. Não tem o que entregar — ele solta uma risada desgostosa. — A verdade, Cátia, é que a gente tá quebrado. Nossa reserva de emergência não cobre nem o prejuízo da cerca, quanto mais o resto.
Uma vida de trabalho, todas as minhas memórias mais felizes... tudo destruído em poucas horas.
— Mas ó... nem tudo é tragédia — meu pai tenta consolar, batendo levemente no meu pé por cima do cobertor. — Pelo menos a casa sede ficou de pé. O fogo não chegou lá. A gente ainda tem um teto pra resolver a vida.
— A gente vai dar um jeito, pai... — choro, cobrindo o rosto com as mãos. — Eu dou um jeito. A gente constrói tudo de novo, eu juro.
— Eu sei que dá, fia. Você é mais dura que mourão de aroeira. — ele diz, ajeitando o chapéu na cabeça.
Antes que possamos continuar, a vibração forte um telefone quebra o clima pesado do quarto. Meu pai tira o aparelho velhinho do bolso da fivela, olha o visor com a testa franzida e atende.
— Alô? — ele responde, desconfiado. Dá uma pausa escutando a pessoa do outro lado, e suas sobrancelhas se erguem. — Quem? Artur?
— Ele olha para mim com uma expressão confusa enquanto continua ouvindo.
— Um jantar de negócios? Hoje à noite? — Meu pai troca o peso do corpo de pé, ajustando a aba do chapéu. — Olha, meu senhor, a minha fazenda acabou de pegar fogo e minha filha tá no hospital, não acho que... Como? Uma proposta sobre a propriedade?
Ele cala-se por um instante, escutando atentamente o homem do outro lado da linha.
Só de imaginar o teor da conversa, o meu coração se quebra em vários pedaços.







