5

Fernand

— O quê? — berro na minha sala — Eu não acredito, Artur.

Minha cabeça lateja e, por um momento, tenho vontade de rasgar em vários pedaços o contrato que Artur deixa na minha mesa de mogno.

Eu sabia que tinha que ter ido negociar a Fazenda Sabiá-Laranjeira junto com Artur. Não que ele seja incompetente. Bom, não totalmente. A realidade é que nossa amizade de infância pesou mais do que suas habilidades na hora de iniciarmos uma sociedade.

Caminho até a grande janela de vidro do meu escritório, encarando a vista movimentada da avenida. Respiro fundo, na esperança de dissipar a raiva que estou sentindo.

Desfaço o nó da gravata com um puxão brusco.

— Fernand, escuta — Artur diz, ajeitando o paletó de corte italiano e mantém a voz calma — Era pegar ou largar. O velho estava irredutível. Se eu não cedesse em alguns pontos, ele se levantava da mesa e preferia ir à falência a entregar a terra.

— E você deu o controle do nosso projeto para um produtor rural falido? — pergunto, virando para encará-lo. Peço uma explicação com o olhar, estapeando a folha de papel timbrado. — Você leu essa porcaria antes de assinar?

— Não dei o controle de nada! — ele rebate, erguendo as mãos. — É uma cláusula de transição temporária. Eles têm direito de opinar com ressalvas durante o levantamento do resort, nada mais.

— Opinar com ressalvas? Artur, eles têm direito a voto junto com os sócios investidores! — Passo a mão pelo rosto, sentindo o suor frio do estresse. — Como é que vou explicar para o conselho que um fazendeiro sem instrução corporativa vai sentar na mesma mesa que eles para opinar na arquitetura de um complexo hoteleiro de alto luxo?

— O voto deles é minoritário, Fernand. É simbólico! — Artur insiste, dando um passo à frente. — O homem perdeu a safra inteira no fogo, a filha estava no hospital respirando por aparelhos. Ele precisava sentir que não estava sendo atropelado pela capital.

Corro os olhos pelas linhas miúdas da terceira página, e a indignação só aumenta.

— E isso aqui? — Aponto para o parágrafo em destaque. — Até a inauguração oficial do resort, a família tem o direito de continuar morando na casa principal? Nós vamos começar as obras de infraestrutura com os antigos donos tomando café na varanda?

— A casa principal fica na divisa norte, longe do foco inicial da terraplenagem — Artur argumenta, cruzando os braços. — Não vai atrapalhar os tratores em nada.

— E o benefício vitalício? — Solto uma risada amarga, balançando a cabeça. — Uma semana por ano de hospedagem gratuita para família, desde que fora de alta temporada? O que é isso, Artur? Ação de caridade?

— É diplomacia! — ele eleva o tom de voz pela primeira vez. — O homem chorou na minha frente, Fernand! Falou da égua da estimação da filha que se perdeu na mata durante a queimada. Se a égua for encontrada nos arredores, o animal continua sendo deles e nós vamos ceder abrigo até a mudança. Você queria a terra ou não queria? Porque se eu não colocasse esses termos, a essa hora o imóvel estaria indo para leilão e o projeto do resort ficaria travado.

Fico em silêncio por longos segundos.

Artur suspira, ajeitando os punhos da camisa e recuperando a postura diplomática que costuma usar com os clientes.

— Fernand, olha a imagem geral. Nós quitamos as dívidas, pagamos a safra e os animais a preço de custo, e pegamos aquele terreno por uma fração do valor real de mercado. Essas concessões são perfumaria. Em dois anos o hotel está pronto, a transição acaba e eles vão embora com a vida resolvida.

Observo a assinatura rasurada do velho Oswaldo no rodapé da última folha. Uma caligrafia trêmula, de quem estava renunciando ao seu único patrimônio.

Suspiro.

— A transição caba em dois anos... — murmuro, deslizando o polegar pelo papel. — Mas, até lá, a filha dele vai estar no meu pé e, cada reunião de canteiro de obras.

— A garota? — Artur dá um sorriso de canto. — Ela ainda nem sabe do contrato. Mas duvido que vá causar problemas. É só uma garota da roça recuperando o fôlego num leito do hospital.

Dois toques firmes na porta interrompem a conversa. A porta se abre e Alessandra nem precisa anunciar quem vem atrás.

Minha mãe passa pela recepção sem pedir licença. Trajando um conjunto impecável de alfaiataria num tom creme, óculos escuros no topo do cabelo alinhado.

Artur se empertiga na hora.

— Dona Rosalva... boa tarde.

Ela mal agracia Artur com um aceno rápido de cabeça, mantendo os olhos azuis e afiados fixos em mim.

— Artur, com licença. Preciso do meu filho a sós — a voz dela é suave, mas carrega a autoridade que aprendi a respeitar e temer desde criança.

Artur troca um olhar rápido comigo, recolhe os papéis sob a mesa e se esquiva pela porta, fechando-a atrás de si com um clique silencioso.

Descruzo os braços, apoiando as mãos no encosto da minha cadeira de couro.

— Mãe... o que aconteceu? O dia no escritório está caótico.

Rosalva caminha devagar até o centro da sala, tira as luvas de pelica fina das mãos e me encara com uma expressão séria, desprovida de qualquer cortesia habitual.

— Nós precisamos conversar. Agora.

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