Mundo de ficçãoIniciar sessão
Cátia
Da varanda, vejo labaredas consumirem a plantação no horizonte. O fogo alastra-se pelo parreiral, destruindo tudo pelo caminho. Prendo a respiração ao olhar para o estábulo, onde as vacas leiteiras e minha égua, Estela, estão presas.
Corro antes que a chama as alcancem.
A fumaça invade meus pulmões logo nos primeiros passos. Levo a manga da blusa à boca, e respiro com dificuldade. O vento lança cinzas no meu rosto e o cheiro de mato queimado me embrulha o estômago.
Minhas botas afundam na terra fofa. À esquerda, uma cerca em chama desaba, espalhando um rastro de fagulhas. Alcanço a entrada do estábulo, mas o ferrolho está quente demais para tocar.
— Aguenta, Estela.
O relincho desesperado me responde antes que eu consiga entrar.
Enrolo a barra da camisa na mão e puxo a trava com toda força. O metal queima mesmo através do tecido, mas resiste. Puxo novamente, quase caindo pela falta de ar.
O ferrolho finalmente cede.
As vacas irrompem pela abertura, quase me atropelando na fuga. Estela hesita um segundo, as orelhas girando em minha direção, os olhos arregalados de pavor.
— Vai! — Bato na anca dela.
A égua dispara, desparecendo em meio ao nevoeiro de fumaça.
Escuto um estalo alto e ergo a cabeça. O fogo alcançou as ripas do teto, e uma língua de fogo avança rápido demais.
Tento dar um passo para trás para fugir, bem no instante em que a primeira viga desaba.
Fernand
Ando pelo mármore polido da recepção da diretoria. Ajusto o nó da gravata enquanto passo pelas portas de vidro temperado do último andar da incorporadora. Para mim, o mercado imobiliário é um jogo de xadrez em velocidade máxima, e eu odeio perder peças.
— Bom dia, Fernand — Alessandra, minha secretária, cumprimenta sem erguer os olhos do monitor, os dedos voando pelo teclado.
— Bom dia. Notícias? — pergunto, parando diante da bancada de granito antes mesmo de entrar na minha sala.
— A Bianca ligou umas três vezes desde que abrimos — ela responde, finalmente encarando-me com uma sobrancelha erguida. — Parecia bem impaciente.
Respiro fundo, checando as horas no relógio de pulso.
— Tenho assuntos mais importantes para tratar agora. Me passe os relatórios de prospecção do litoral e da serra.
Entro no escritório, deixando a porta entreaberta. Alguns segundos depois, meu sócio surge na linha de visão, segurando um tablet com uma visão compenetrada. Ele entra sem bater e arrasta o indicador pela tela antes mesmo de virá-la para mim.
— Esquece o litoral por um momento. Dá uma olhada nisso — Ele diz e entrega o tablet em minhas mãos.
Na tela, uma transmissão de notícias locais mostra uma coluna espessa de fumaça preta subindo contra o céu. Em letras garrafais na parte inferior da imagem lê-se: “incêndio de grandes proporções devasta propriedade rural e deixa rastro de destruição”.
— Uma fazenda no vale — murmuro, analisando as imagens aéreas do terreno. — Espera... essa área não é a daquela propriedade do parreiral?
— Exatamente — Artur confirma. — A localização perfeita. Um platô elevado, solo fértil, acesso fácil à rodovia e uma vista panorâmica incrível. É o local perfeito para o resort de luxo que estamos planejando.
— Mas nós já tentamos aquela área — lembro, cruzando os braços. — A proprietária é irredutível. Já mandamos propostas, fizemos ofertas acima do mercado, e ela nunca nem atendeu nossas chamadas.
— Bom, a situação mudou — meu sócio aponta para a tela. — O valor da terra vai despencar com esse estrago. E o repórter acabou de confirmar que os animais da fazenda estão dispersos pela região, enquanto a atual proprietária deu entrada no hospital em estado grave por inalação de fumaça. Está internada.
— Internada? — Franzo o cenho, encostando-me na poltrona de couro.
— É, pode ser o momento certo de tentarmos falar com o outro responsável pela propriedade. Para assinar uma proposta imediata.
Antes que eu possa responder, vozes alteradas vêm do corredor.
— Senhorita Bianca, por favor, o Fernand está em uma reunião importante de negócios agora! — a voz firme de Alessandra ecoa do lado de fora.
— Sai da minha frente, Alessandra! Eu não quero saber de negócios — A resposta vem em tom estridente, acompanhada pelo barulho dos saltos contra o piso.
A porta do meu escritório é empurrada com força. Alessandra ainda tenta segurar a maçaneta por um segundo, pedindo desculpa com o olhar antes que eu levante a mão, dispensando-a em silêncio.
Bianca surge no centro da sala. Perfeitamente alinhada em um conjunto de grife, ela sacode seus cabelos loiros e cruza os braços com os olhos faiscando. Ela ignora completamente a presença de Artur.
— Fernand — a voz dela é carregada de veneno. — Você tem exatamente três segundos para me explicar como conseguiu esquecer que hoje é o nosso primeiro aniversário de namoro.







