Mundo ficciónIniciar sesiónFernand
Minha mãe caminha a passos lentos até a mesa do centro de vidro, onde deposita um catálogo encadernado em couro bege com relevos dourados. O baque surdo do volume contra o tampo faz um estrondo.
— O que é isso, mãe? — pergunto, mantendo o corpo imóvel atrás da minha escrivaninha de mogno.
Ela acomoda-se na poltrona de couro italiano, aliando a saia do conjunto creme com dois toques minuciosos nos joelhos. Os olhos azuis faiscando.
— O catálogo da coleção nova da Maison Blanche, Fernand. Vestidos, decoração, bufê — ela desliza a ponta da unha bem trabalhada sobre as letras gravadas na capa. — Ophelia e eu passamos a manhã inteira trancadas com as cerimonialistas. Estávamos certas de que você aproveitaria o jantar de ontem para dar o passo definitivo. Mas quando a Bianca me ligou esta manhã, a voz embargada porque ganhou apenas um anel de desculpas... a decepção foi grande.
Solto o ar devagar pelo nariz, pressionando o polegar e o indicar nas têmporas. A dor lateja atrás dos meus olhos.
— Não é o momento para isso, mãe. A empresa está no meio de uma grande aquisição e —
— A empresa sempre está no meio de algo, Fernand! — a mão dela corta o ar, interrompendo o meu raciocínio. — Você consome seus dias entre planilhas e contratos de empreiteiras enquanto a vida passa. Na semana passada, inclusive, busquei mais chihuahua no canil para fazer companhia aos outros. O pequeno Montblanc.
Ergo as sobrancelhas, soltando as mãos sobre o tampo da mesa.
— Outro cachorro, mãe?
— Sim, outro! — ela ajeita o colar de pérolas no pescoço, erguendo o queixo. — Porque do jeito que você conduz sua vida pessoal, os meus cinco chihuahuas serão os únicos netos que verei correr no jardim. Eu me recuso a envelhecer sem netos, Fernand. E Bianca é uma pretendente impecável.
Levanto-me da cadeira e caminho até a grande fachada de vidro do escritório. Cruzo os braços, encarando o fluxo de carros que se espreme na avenida lá embaixo. A imagem de Bianca na noite anterior brota na minha mente: os olhos brilhando para o diamante que a minha secretária escolheu à tarde, sem demonstrar um único traço de conexão genuína comigo.
— Bianca quer um espetáculo público, mãe. Não um casamento. — murmuro para o vidro temperado.
— Ela quer estabilidade e o compromisso que você empurra com a barriga há meses — a voz de Rosalva é firme às minhas costas, sem hesitação. — O aniversário de Ophelia é em exatamente três semanas. Uma recepção íntima, apenas para a família e poucos convidados seletos. É a oportunidade ideal.
Encaro-a.
Minha mãe não sabe ser contrariada.
— O projeto da Fazenda Sabiá-Laranjeira vai exigir minha presença constante nos canteiros de obras. Terei viagens diárias, vistorias de solo, reuniões com engenheiros. Não tenho tempo para organizar um pedido de casamento e muito menos para me meter em preparativos de festa.
Rosalva levanta-se da poltrona sem apressar os movimentos. Puxa o catálogo de luxo para junto do peito e me encara fixamente. O vinco entre suas sobrancelhas se aprofunda, e a cor parece sumir devagar de seus lábios.
— Você vai arranjar esse tempo, Fernand — ela fala num tom mais baixo, a voz perdendo a vibração de cobrança — Porque esse é o maior sonho da Ophelia. E nós não sabemos quanto tempo mais ela tem.
Sinto os músculos do meu pescoço enrijecerem na hora.
— Do que você está falando?
— Ophelia recebeu o diagnóstico há dois meses — Rosalva sustenta o meu olhar com uma gravidade inédita. — É uma doença degenerativa. Ela quer ver a única filha noiva e bem encaminhada antes que perca a capacidade de caminhar até o altar. Faça isso por ela, e faça isso por mim.







