Mundo ficciónIniciar sesiónCapítulo 5 — O Novo Chefe
Alice Carson A batida firme na porta do quarto me fez sobressaltar, mas o vislumbre de alívio veio logo em seguida. — Alice? Abre logo, sou eu. Girei a chave e Emily passou como um furacão pelo espaço minúsculo. Ela olhou ao redor rapidamente e soltou um suspiro pesado, mas evitou criticar o ambiente. Em vez disso, estendeu um cabide protegido por uma capa de plástico preta. — Trouxe essa roupa. Você precisa parecer uma executiva amanhã, não uma sobrevivente de guerra — disse ela, jogando a bolsa na única cadeira do quarto. — Consegui despistar os olhares do meu pai para vir até aqui. Como você está? — Sobrevivendo — respondi, pegando o terno e sentindo um nó na garganta pela consideração da minha amiga. — Obrigada por isso, de verdade. E lá em casa, como as coisas estão? Emily sentou na beirada da cama, a expressão escurecendo. — O inferno na Terra. Seu pai está tendo acessos de fúria diários, os advogados do Grupo Rhodes estão sufocando os negócios dele com multas contratuais e sua mãe só vive à base de calmantes. Ninguém sabe onde você está, e seu pai proibiu que o seu nome seja mencionado. O escândalo foi gigante, mas os Rhodes de alguma forma abafaram os detalhes na mídia. Ninguém sabe o real motivo do cancelamento, só que a noiva sumiu. — Eu não me arrependo de absolutamente nada — rebati, cruzando os braços enquanto encarava a janela estreita. — Meus pais tomaram a decisão deles quando escolheram me vender para salvar a própria pele. Eu só tomei a minha. Agora, eles que lidem com as consequências. Emily se levantou e segurou minhas mãos, me encarando com firmeza. — Esqueça eles por enquanto. Amanhã é a sua chance de recomeçar. Vou indo antes que meu pai comece a fazer perguntas. Boa sorte, amiga, você vai conseguir. Quando a porta se fechou, encarei o terno azul-marinho pendurado na parede. Pela primeira vez em dias, a névoa de desespero deu lugar a uma pontinha real de esperança. No dia seguinte, o despertador tocou antes do amanhecer, embora eu mal tivesse pregado o olho. Meu estômago protestou com um nó de puro nervosismo enquanto eu me arrumava. Prendi o cabelo em um coque baixo e impecável, apliquei uma maquiagem leve para disfarçar as olheiras e me vesti. No espelho do banheiro coletivo do hostel, a imagem que me encarava de volta parecia forte, apesar do cansaço emocional que pesava nos meus ombros. Eu precisava daquele emprego para garantir o teto sobre a minha cabeça. Peguei o metrô e, trinta minutos depois, eu estava diante do imponente edifício de vidro espelhado no coração do distrito financeiro de Boston. O logotipo prateado da R&H reluzia na fachada. Inspirei o ar frio da manhã, inflando o peito com uma coragem que eu esperava não perder, e passei pelas portas giratórias. O andar executivo exalava uma seriedade quase intimidadora, com seu chão de granito polido e divisórias de vidro acústico. Aproximei-me da bancada de recepção, onde uma mulher de postura rígida digitava concentrada no computador. — Bom dia. Meu nome é Alice Carson, tenho uma entrevista agendada às nove horas — anunciei, mantendo o tom firme. A recepcionista parou de digitar imediatamente. Ela era uma mulher jovem e inegavelmente bonita, mas seus olhos, emoldurados por um corte de cabelo chanel milimetricamente alinhado, me avaliaram de cima a baixo com uma frieza quase ensaiada. Olhei discretamente para o crachá de metal preso ao seu terno cinza, onde se lia Vanessa Moore, antes que ela voltasse a encarar a tela do computador. — Senhorita Carson. Por favor, queira me acompanhar — disse ela, levantando-se sem sorrir. — O senhor Fletcher já está à sua espera. Assenti, sentindo um nó de ansiedade no estômago. Segui a mulher pelo corredor silencioso até o final do andar, onde uma imensa porta de madeira maciça escura se destacava. A recepcionista bateu duas vezes, abriu a porta e gesticulou para que eu entrasse. — Pode entrar, senhorita. Dei o passo para dentro da sala e a porta se fechou atrás de mim com um clique suave e definitivo. O escritório era vasto, cercado por janelas panorâmicas que exibiam a linha do horizonte de Boston. No centro, uma imponente mesa de vidro temperado organizava o espaço. O homem sentado atrás da mesa ergueu os olhos lentamente. Minhas pernas vacilaram e o chão pareceu sumir sob os meus pés. Por puro instinto recuei um passo, as costas batendo contra a madeira firme da porta fechada. Era ele. O mesmo homem do bar. O desconhecido com quem passei a noite mais intensa e imprudente da minha vida. Ele pareceu não demonstrar a menor surpresa. Vestia um terno cinza-chumbo impecável, os botões fechados até o colarinho, exalando uma imponência predatória que fazia a versão dele daquela noite parecer apenas uma fração do perigo que ele realmente representava. Ele me encarava com aqueles olhos verdes intensos, com uma calma que fez meu estômago revirar em dúvida. Será que ele se lembrava de mim? Ou aquela noite tinha sido completamente insignificante? O silêncio na sala tornou-se ensurdecedor, pesado como chumbo. Minha mente disparava em um turbilhão de perguntas sem resposta: como aquilo era possível? Boston era uma metrópole, qual era a chance do meu casinho de uma noite ser o homem que definiria o meu futuro profissional? Ele entrelaçou os dedos sobre o vidro, recostando-se na cadeira com uma lentidão calculada que só aumentava a minha sensação de vulnerabilidade. Um sorriso lento, sutil e extremamente perigoso se formou no canto dos seus lábios. — Sente-se, senhorita Carson — disse ele. Sua voz não guardava nenhum resquício do tom aveludado daquela noite; era cortante, carregada de um cinismo gélido que ecoou pelas paredes do escritório como um comando inquestionável. Continuei estática contra a porta, as mãos fechadas em punhos para esconder o tremor que ameaçava me entregar. Eu me recusava a demonstrar o pavor que começava a tomar conta de mim. Engoli em seco, forcei minhas pernas a caminharem e me sentei na cadeira à frente dele, erguendo o queixo. Eu precisava daquele emprego para sobreviver. Se ele queria agir como um chefe estritamente profissional, eu jogaria o papel da candidata perfeita e fingiria que aquela noite nunca aconteceu. Ele abriu o meu currículo e começou a folhear as páginas com uma lentidão torturante. — Vejo que se formou com honras e tem excelentes recomendações acadêmicas — ele comentou, os olhos subindo para me fixar. — Mas a teoria é muito diferente da prática na R&H. Como você lidaria com uma crise de liquidez de um dos nossos principais fundos sem gerar pânico no mercado? Respirei fundo, deixando o nervosismo de lado e focando no que eu sabia fazer de melhor. — Eu isolaria o ativo problemático imediatamente e estruturaria uma comunicação transparente, porém controlada, com os investidores de maior peso, oferecendo garantias colaterais de curto prazo — respondi, mantendo a voz firme e profissional. — O pânico não nasce da crise, nasce da falta de direcionamento da liderança. Ele semicerrou os olhos, avaliando não apenas a minha resposta, mas a minha postura. Continuou o interrogatório por mais dez minutos, disparando perguntas técnicas complexas sobre projeções de mercado, fusões e gestão de risco. Respondi a cada uma delas sem hesitar, sustentando o olhar dele. Se ele achava que eu desabaria sob pressão, estava muito enganado. Ao final da última resposta, ele fechou a pasta do meu currículo com um baque surdo e o empurrou para o lado. — O seu perfil técnico é impecável, senhorita Carson. Está contratada — ele disse, me encarando com uma postura fria e intimidadora. — Mas antes de assinar a sua admissão, temos outra pendência para resolver. — Que tipo de pendência, senhor Fletcher? — perguntei, tentando manter a fachada corporativa, embora meu coração estivesse quase saindo pela boca. Ele pendeu levemente a cabeça para o lado, o sorriso de canto aumentando um milímetro. Abriu a gaveta da mesa, retirou uma pasta cinza e a deslizou em minha direção. — Já nos conhecemos bem o suficiente para dispensar as formalidades, não acha? — comentou, a voz sombria e arrastada enquanto fixava aqueles olhos predatórios nos meus. Senti minhas bochechas arderem e desviei o olhar por um segundo, engolindo em seco diante da audácia dele. — Não acho que seja apropriado tocar nesse assunto, senhor Fletcher — respondi, forçando uma rigidez na voz que eu estava longe de sentir. — Tem certeza de que você não sabe quem eu sou? — perguntou de forma quase casual, embora a ironia estivesse implícita em cada sílaba. Franzi o cenho e abri a pasta com os dedos trêmulos. Meus olhos correram pelas linhas do documento e pararam no topo da folha, onde o nome do contratante principal estava impresso em letras garrafais: JONATHAN FLETCHER RHODES. O ar simplesmente sumiu dos meus pulmões. — Que palhaçada é essa? — disparei, a raiva assumindo o controle antes que eu pudesse frear. Bati as mãos na mesa, ficando de pé instantaneamente enquanto encarava o idiota à minha frente. A armadilha estava montada. Ele me atraiu até ali. O homem do bar... o meu novo chefe... era o herdeiro arrogante com quem eu deveria ter subido ao altar e de quem eu havia fugido desesperadamente. Ele sabia exatamente quem eu era desde o início.






